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Reflexão — Valdir Steuernagel

Tsunami e a misericórdia de Deus

Eu já falei da Zazá, uma brasileira que tem servido a Deus em alguns recantos do mundo. Sabendo que ela estava estudando na Inglaterra, enfrentando o frio e lúgubre inverno de lá, eu lhe mandei um e-mail sobre as praias brasileiras. Mas o retorno à minha brincadeira me tapou a boca: “Sinto decepcioná-lo, mas escrevo com o ventilador ligado...”, respondeu. Zazá estava na Índia, trabalhando com as vítimas do tsunami! Nesse país ela ajudava crianças e procurava levar um pouco da luz do evangelho àquele povo sofrido e profundamente marcado pela violência do mar devorador.

Já faz algum tempo que o tsunami aconteceu e as notícias daquela catástrofe já não dominam a mídia. As vítimas, porém, com suas feridas ainda abertas, continuam a viver a saudade dos queridos que se foram. Silêda e eu estivemos naquela área pouco antes da tragédia. Num retiro com os obreiros da Visão Mundial de Mianmar, tomamos banho nas belíssimas praias da baía de Bengala, muitas agora arrasadas. Passamos pelo sul da Índia e, em outro retiro, nos hospedamos num bonito resort ao sul de Chenai. Vimos a beleza das praias e a sofisticação dos hotéis de turistas. Mas vimos também a pobreza do lugar, a fragilidade das casas e uma quantidade incrível de gente por toda parte. Ali, sentados no chão de uma favela, ouvimos o sonho da mocinha que, com o apoio da própria comunidade, batalhava por uma possibilidade de tornar-se enfermeira. O lugar não é o mesmo, mas as pessoas são iguais. A pobreza é aviltante. O sofrimento, diário. O lixo cheira mal. A luta pela sobrevivência nunca termina... E aí vem o tsunami e faz dos pobres a sua maior vítima!

E lá estão a baiana Zazá e o Yu Hwa, natural do Sri Lanka, e nosso colega que trabalha num dos países atingidos. “Poderiam ter sido os meus filhos!”, chora Suthan, morador de uma das áreas mais afetadas pelas ondas gigantescas. Ele e a família preparavam-se para um passeio, no dia 26 de dezembro, quando o telefone tocou. Nada do que planejavam ocorreu. Houve, isto sim, um mergulho profundo num desastre inimaginável! Esse e muitos outros dias ele passaria procurando ajudar as vítimas e coordenar alguma ajuda humanitária no local.

Entre os voluntários que vêm tentando ajudar, muitos são cristãos. Identificam-se com as pessoas, choram com elas e oram por elas. “Aqui e acolá”, em contextos restritos, essas pessoas procuram dizer uma palavra acerca daquele que nos motiva a viver a compaixão: Jesus Cristo.



“Ele te declarou, ó homem...”

Na edição passada eu me referi à palavra em que o profeta Miquéias não apenas deixa claro algo intrínseco à natureza de Deus — a justiça e a misericórdia —, mas também acentua o que o Senhor espera de nós:

Ele te declarou, ó homem, o que é bom

e que é o que o Senhor pede de ti:

que pratiques a justiça, e ames a misericórdia,

e andes humildemente com o teu Deus.

(Mq 6.8)



Naquele artigo, o foco estava na prática da justiça, ressaltando que Deus é um Deus de justiça. Mas, se a justiça caminhar sozinha, ela se torna dura e enigmática. Sozinha, ela gera solidão. A solidão da resposta não encontrada. Como entender, por exemplo, a ação de Deus num tsunami? Quantas respostas já tentamos articular! Mas sempre fica no ar o gostinho da resposta insuficiente. Vemos então que a resposta não vem pelo mero raciocínio ou puro argumento. Só podemos encontrar “algum nível de resposta” caminhando nas sendas da compaixão. A compaixão que se encarna e que chora.

E aí percebemos que Deus já estava lá, no universo da necessidade, muito antes de nós. E, uma vez lá, vislumbramos “uma lágrima na face de Deus” e vemos que ele também não está celebrando a realidade de tantos mortos e sobreviventes feridos e solitários! Como diz Nicholas Wolterstorff, escritor e filósofo cristão, “pelas nossas lágrimas nós vemos as lágrimas de Deus”.

A justiça ganha colorido, desenha o seu contorno e revela a sua beleza quando acompanhada da misericórdia. Aquela que aprende a conviver com perguntas abertas. Que chora e se encarna. Aquela que se cansa, porque tem as mãos ocupadas.

A justiça e a misericórdia, quando andam juntas, transformam-se em ninho de acolhimento e canteiro de esperança. A misericórdia não funciona como uma provedora de respostas para as nossas perguntas, mas se constitui em uma companheira para o dia da angústia, que ilumina um pouco os passos de amanhã. Ela representa uma intervenção de esperança em um universo carente de sinais de vida, de amor e de sentido.



A misericórdia tem o formato do rosto de Jesus

Essa misericórdia está expressa no olhar de Jesus! Isso sempre me cativa de novo. À medida que vou aprendendo a viver com perguntas abertas, percebo que mais importante que a formulação é a construção de relações significativas. Tenho visto que o significado da vida não passa tanto pelas certezas abstratas, mas pela relação de amor e por uma intervenção da esperança no universo da carência e da vulnerabilidade. Abraço a esperança que nasce da realidade da presença convidativa do outro.

E isso eu encontro no olhar de Jesus. Nesse seu jeito de chegar, perceber as necessidades e responder a elas com amor. Os Evangelhos não relatam grandes discussões abstratas. Eles destroem algumas das certezas frias e discriminadoras da época e falam muito de encontros e de palavras que geram significado de vida.

Jesus é alguém que vive a caminho, encontrando pessoas, sorrindo para elas, curando suas enfermidades, expulsando os demônios opressores, trazendo palavras de esperança para os pobres e os pequenos, e chamando as pessoas para segui-lo e agir como ele. E isso ele faz marcado pelo olhar da compaixão e pelo toque do amor.

Um lugar da Bíblia ao qual eu sempre retorno é quando Jesus reúne os seus discípulos para juntos irem a um lugar de descanso e retiro. Porém, ao chegarem lá, já encontram uma multidão de pessoas ansiosas por um toque, um sorriso, um abraço, uma palavra. Superando a si mesmo e sob o risco de frustrar a expectativa de seus discípulos, Jesus se prepara para um novo momento de chegada e intervenção, sob a marca da compaixão. Uma compaixão que gera encontro, significado, restauração e salvação. O texto diz assim:

Quando Jesus saiu do barco e viu tão grande multidão, teve compaixão deles e curou os seus doentes.

(Mt 14.14)

É assim que Jesus chega às áreas afetadas pelo tsunami. E é assim que Zazá, Yu Hwa e Suthan seguem seu exemplo. É tão difícil chegar assim! No entanto, é necessário, e a nossa presença deve ter a marca da compaixão de Jesus.

Há perguntas para as quais não encontramos respostas. Mas encontrar o olhar de compaixão de Jesus é a resposta que aquieta o nosso coração, faz renascer o significado da vida e reorienta o nosso caminhar em direção ao outro, ao serviço e à vida na companhia do Deus da justiça e misericórdia.




Valdir Steuernagel é pastor luterano, trabalha com a World Vision International e com o Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas.

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