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Colunas — Arte e cultura

O fuzuê d’O Código Da Vinci

Mark Carpenter

Venho me divertindo com o alvoroço criado pela comunidade cristã em torno do livro O Código Da Vinci, do autor norte-americano Dan Brown. Pelo jeito, muita gente teme que um romance policial de segunda categoria consiga derrubar os pilares do cristianismo.

O Código Da Vinci perturba muitos cristãos, pois parece propor o desvendamento de segredos sobre a vida de Cristo. Não dou ao autor tanto crédito assim. Dan Brown não é um historiador; nem sequer é um grande artista. Apenas produz romances de suspense populares. Seu trabalho é similar ao de escritores medianos como Dennis LeHane, Harlan Coben, Tony Bellotto, Luiz Alfredo Garcia-Roza e Stephen King. Para esse romance, Brown desenterrou mitos antigos e denúncias mofadas do arco-da-velha para criar uma teoria de conspiração milenar que diverte, mas não convence (nem pretende convencer).

Podemos encarar o seu livro da mesma forma como consideramos obras de arte maiores como, por exemplo, o filme A última tentação de Cristo (de Martin Scorcese, baseado no romance de Nikos Kazantzakis), as pinturas surrealistas de Cristo produzidas por Salvador Dali, a ópera-rock Jesus Christ Superstar e o romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago. Em todas essas obras, o tratamento lúdico de Jesus tem como objetivo provocar questionamentos sobre nossa leitura da pessoa de Cristo. Quaisquer dúvidas sobre a historicidade ou veracidade de algum detalhe nessas obras devem ser dirimidas em fontes confiáveis. Às vezes, os próprios artistas defendem sua postura expressionista, ao mesmo tempo em que recomendam fontes bibliográficas “sérias” para os que queiram saber “a história real”.

Ao mesmo tempo em que é considerado um romance policial, O Código Da Vinci pode ser classificado também como histórico. Neste gênero, os escritores incorporam personagens ou eventos históricos de diversas formas. Às vezes, o enredo acontece num microcosmo imaginário contido dentro de um contexto histórico real (por exemplo, Les Miserables, de Victor Hugo). Em outras obras do gênero, os eventos ou personagens históricos são distorcidos intencionalmente para criar uma fantasia baseada elasticamente na história real (O Homem que Matou Getúlio Vargas, de Jô Soares; Fatherland, de Richard Harris). Há outras possibilidades, chegando a extremos como, por exemplo, pseudo-autobiografias desconstrucionistas (Uma Comovente Obra de Espantoso Talento, de Dave Eggers). O romance é essencialmente uma obra de ficção escrita para envolver a imaginação numa experiência de suspensão de descrença. Qualquer elemento supostamente histórico ou verídico deve ser analisado à luz de registros confiáveis.

Há toda uma indústria editorial paralela à obra original de Dan Brown. São livros de não-ficção lançados para se fazer distinção entre os elementos fictícios e os verídicos de O Código Da Vinci. Alguns foram escritos por historiadores de renome e mérito. Outros, no entanto, já começam achando “um absurdo” a obra de Dan Brown, “cheia de mentiras, fraudes etc.” Os melhores desses livros são os que reconhecem tranqüilamente que o romance de Dan Brown é um suspense envolvente, que remete aleatoriamente à história, e propõem — para o leitor que queira ir mais fundo na história real — um esclarecimento baseado nos relatos históricos e bíblicos e na ortodoxia cristã. Esses dois gêneros coexistem em paz, assim como O Tambor, de Gunther Grass, ao lado de um livro de história sobre a Segunda Guerra Mundial.

Perguntaram-me esses dias se eu acredito que o livro pode ter alguma influência na igreja evangélica. “Espero que sim”, respondi. Espero que os evangélicos leiam o livro e que se entretenham com o enredo envolvente, descobrindo assim os prazeres da ficção. O Código Da Vinci não é uma grande obra de arte literária, mas pelo menos é um romance, e a maioria dos evangélicos ainda não consegue ler apenas pelo prazer de ler. Os poucos exemplos de romances best-sellers do mercado cristão são obras como Deixados para Trás e Este Mundo Tenebroso, que foram lidos não como romances, mas como manuais de escatologia e de batalha espiritual. Espero que a boa ficção — entre todos os gêneros literários o mais malcompreendido pelos cristãos do Brasil — ainda encontre acolhida entre nós.

O crítico Leland Ryken escreveu: A [ficção] toma como ponto de partida a realidade e a experiência humana, e transforma-a por meio da imaginação. A literatura então devolve os leitores à realidade munidos com uma compreensão renovada e um novo entusiasmo pela vida, como resultado de suas incursões num domínio imaginário... As dádivas da literatura à raça humana são imensuráveis: enriquecimento artístico, divertimento prazeroso, autoconhecimento, clareamento da experiência humana, e — nos seus alcances maiores — a expressão da verdade e do belo, que poderão transformar-se em louvor a Deus.

Como cristãos, precisamos aprender a conviver com o imaginário, com o figurativo, até para melhor entender as parábolas de Jesus e a poesia do Antigo Testamento. É fundamental saber separar realidade de ficção, mas a boa ficção pode nos ensinar muito sobre a real natureza da verdade. Tão deletério quanto transformar história em mito é a propensão que temos de literalizar o fantástico.




Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP.

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