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Colunas — Da linha de frente

Coisas que ninguém quer saber

Saí correndo de casa às 9 da noite sem ler com as crianças, porque se me recostasse dormiria com certeza. Reinaldo ficou para ler, e eu subi para oração a pé pela estrada barrenta. Aquele tinha sido um dia tenso: mais um dia de escritório, e-mails, a crise da Ásia, que me dói de uma maneira emocional. Fico conversando sobre isso, pensando o tempo todo no jovem missionário desta comunidade que está no hospital em coma, e na luta que sua esposa, com um filhinho de 6 meses para cuidar, está passando.

De tarde gritei com a minha irmã; irritei-me com sua ausência presente, com suas críticas e suspeitas sem sentido. Gritei e falei-lhe a verdade. Verdade dura, mas eu sabia que seu olhar vazio não mudaria, que ela agiria como se não fosse nada, que falaria de outro assunto como se eu não estivesse falando dela.

— Bia, se você voltar para Belo Horizonte assim eles vão te buscar no aeroporto com um “sossega-leão” (a injeção de Haldol Aquinoato que ela tanto odeia) e vão te internar na clínica psiquiátrica. Eles já falaram isto pra mim, reaja pelo amor de Deus! — ela me olhou como quem olha uma parede, falou que não entendia guarani, que aqui todos falavam em guarani, e saiu.

Às 9 da noite eu já tinha afundado este peso bem dentro de mim onde não podia tocá-lo. Fui para a oração clamar a Deus pelo Ricardo, o rapaz em coma, com os outros missionários.

Ao chegar, notei que o amarelo ardido com que pintaram a sala de aula não ficava nada agradável à noite, e que os outros tão cansados quanto eu se disciplinavam a orar intensamente um após o outro. Depois de um tempo que me pareceu interminável de orações e sussurros o Suzuki que liderava a reunião disse:

— Agora vamos apenas adorar a Deus em silêncio — e desligou o CD.

E ali eu fiquei fazendo uma piadinha ou outra para fugir do assunto. Mas na minha frente, difícil ignorá-la pelo tamanho, estava deitada no chão a Bia dormindo. Minha amiga do lado disse que ela já estava ali quando chegaram mais cedo. Sua saia transparente me envergonhou, mas parecia que ela tinha short embaixo.

Busquei a Deus por uma palavra e li Isaías 46.1-4, que fala dos animais se cansando de carregar ídolos de metal, e pensei que às vezes eu tratava Deus assim — queria carregá-lo pelas dificuldades da vida como se ele fosse meu ídolo, e não meu Deus. Mas ele fala que nos carregou na infância e vai continuar até que fiquemos velhos e nossos dias terminem. Enquanto isto a Cleo cantava uma música africana com uma voz de anjo, dois rapazes batiam os tambores e me senti no céu vendo uma dança tribal diante do trono de Deus.

Foi um conforto, mas mesmo assim não consegui tirar os olhos daquele corpo de saia transparente deitado diante de mim. Fui até ela, me sentei ao seu lado e afaguei seus cabelos. Aquele não foi um gesto fácil para mim. Apesar de o desequilíbrio mental dela ser tão público, meu carinho por ela não o é. Guardo-o dentro de mim, escondido até dela mesma, e tento me apresentar a ela e aos outros como a líder cristã estóica e imparcial. No fundo não me acho muito justa por tê-la trazido aqui, apesar de saber que se ela não estivesse comigo estaria internada ou numa situação muito difícil, sendo espancada pelos outros.

Enquanto passava a mão por seus cabelos ralos, que já foram lindos como os de minha filhinha de 6 anos, notando-lhe a caspa, a descoloração, o couro cabeludo aparente e branco cheio de irritações, comecei a orar para que Deus lhe visitasse os compartimentos cerebrais um por um, cada pedaço responsável por cada função, que ele restaurasse nela a personalidade jovial e disposta que ela tinha, que ha curasse de tantas dores internas que não sei nem contar. O coma psicológico é tão ruim quanto o físico. No primeiro tipo, tem-se coração e não se sente, capacidade de amar e não se ama, coisas alegres ao redor, mas não se é capaz de senti-las.

Orava ainda quando o Suzuki veio do outro lado dela com as mãos em cuia, cantando “ao que está assentado no trono”, corinho tão antigo que não se canta mais, mas que cantei junto, de coração me lembrando do Deus que sirvo afinal de contas. Emendei com “o Senhor é alto sobre toda terra” e tudo — a doença mental dela, o coma do Ricardo — ficou pequeno e Deus absolutamente soberano.

Depois de um tempo ali cantando, orando e chorando na esteira de palha com a Bia deitada no centro, ela acordou como de um sono profundo, orou um pouco, se endireitou e saiu sem olhar para ninguém. A Zita contadora da missão, chilena e absolutamente racional, antes disto havia se sentado aos pés da Bia na esteira de palha, ora olhando para os tênis dela que ainda mantinham a etiqueta de compra, ora para a cabeça onde eu estava.

Depois que ela foi embora, levantei-me também, grata pelo apoio do Suzuki e da Zita, abençoada, sentindo que faço mesmo parte de um corpo e não estou só, mas não consegui olhá-los nos olhos porque no fundo me envergonho da Bia e penso nela como um peso não só pra mim mas pra toda a comunidade.

Suzuki não se conformou com minha fuga e postou-se ao meu lado em pé para orar, e a Cleo, que estava perto, me abraçou as pernas e orou também. Eu queria dizer: “Não orem por mim, eu agüento”, mas desabei a chorar, convulsivamente como se muita dor, não tão intensa quanto a da Bia nem, principalmente, tão justificada quanto a dela, estivesse represada e só esperasse um gesto solidário para sair.

Cada um depois falou de sua experiência na oração. Zita disse que não conseguia adorar porque Deus lhe disse que amava Bia e que ela era uma filhinha preciosa para ele, lhe convenceu que estivera indiferente ao seu sofrimento; enquanto ela falava, eu continuava a chorar. É mais fácil amar e se preocupar com os que são “bons”, respondem bem. Outros falaram de suas experiências íntimas e de como Deus lhes encheu de fé e lhes disse para não carregarem fardos.

Fomos então para casa, e eu fui dormir, só esperando que Ele carregasse para longe tantas dores, a Ásia, o Ricardo doente, a Bia e todas as bráulias da vida que tentam carregá-lo nas costas em vez de descansar nele.


Bráulia Ribeiro é missionária em Porto Velho, RO, e presidente da JOCUM – Jovens com Uma Missão. braulia_ribeiro@yahoo.com

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