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A violência do fundamentalismo secularista

Robinson Cavalcanti

A fé cristã sob ataque

Na recente eleição presidencial norte-americana, em termos denominacionais, o democrata John Kerry é um católico romano, e o republicano George W. Bush é um metodista (criado na Igreja Episcopal). A temática religiosa — via questões morais — ocupou um grande espaço durante toda a campanha.



O preconceito

Não torci por Bush, como nunca torci por candidato algum do Partido Republicano. Minha formação cultural, a partir de matrizes da Europa mediterrânea, nunca me permitiu apoiar a pena de morte, o direito de cada cidadão portar um rifle ou as maravilhas do modo de produção capitalista. Admiro o povo e os aspectos culturais dos Estados Unidos, mas nunca vi com bons olhos a queima de feiticeiras em Salém, o linchamento de negros, nem as políticas imperialistas. Porém, como cristão, protestante, evangélico e progressista, confesso que fiquei chocado com o tratamento que vem sendo dado pela imprensa secular, em vários países, à ação dos evangélicos conservadores como atores políticos naquele país. Essa reação tem denotado toda uma fúria, toda a violência do fundamentalismo secularista contra uma religião que se recusou a morrer e contra uma fé que se recusa à irrelevância.

Abro uma das nossas principais revistas semanais (Veja, 10/11/2004) e leio a reportagem O segundo império, assinada por Jaime Klintowitz, que afirma sobre o futuro próximo dos Estados Unidos: “...tenderá a ser um período de obscurantismo de motivação religiosa, de trevas na pesquisa científica e de retrocesso nas relações sociais”. E ainda:

O triunfo eleitoral de Bush está ancorado em um programa que reflete o que os Estados Unidos têm de mais obscurantista, intolerante e primitivo — a extrema direita religiosa. Essa força política é formada por um contingente tenaz, obstinado, cego ao progresso, características que nada ficam a dever às crenças fundamentalistas islâmicas, os patronos do terrorismo mundial.

Para o jornalista, citando um professor da Universidade de Northwestern, os Estados Unidos seriam uma democracia, fruto do iluminismo (e não do Pacto dos Pais Peregrinos, no Mayflower), ameaçada pelas “extravagâncias fundamentalistas”, pelo “projeto do batalhão da Bíblia”, pelo “fervor fundamen-talista”, com sua “fúria contra o pensamento secular”, pela “intolerância”, pelo “medo e ódio da modernidade”, pela sua “visão restrita da fé”, e de “correspondência na Al Qaeda”. Depois de todas essas gravíssimas acusações contra os evangélicos conservadores, revela um motivo: “Esses mesmos religiosos querem a proibição... da união civil entre homossexuais”.

No mesmo número da citada revista, o articulista André Pety pontifica: “A massa mais atrasada dos Estados Unidos, aquela parcela que acredita mais no mito da virgindade de Maria [...] entregou a Bush a missão clara de [...] impedir o casamento homossexual [...], entre outros primitivismos”. E, arremata: “Se queriam tanto obscurantismo, nem precisavam se dar ao trabalho de reeleger Bush — bastava que se mudassem para as cavernas do Afeganistão dos Talibãs”.

Ainda na mesma fonte, Roberto Pompeu de Toledo, com O avanço da nau dos insensatos, quando maldiz o testemunho de fé em Jesus Cristo de um piloto de aviação comercial, critica a defesa, pelos eleitores, de “valores morais” ou “valores tradicionais”, e fica chocado em saber que 83% dos norte-americanos acreditam que Jesus nasceu de uma virgem, enquanto apenas 28% acreditam na teoria da evolução. E arremata: “Bush triunfa num país envenenado pela religião da intolerância e pela moral da incongruência”.

Note as expressões: “obscurantismo”, “trevas”, “retrocesso”, “extravagâncias”, “intolerância”, “atrasada”. Por mais divergências que tenhamos com algumas bandeiras dos conservadores dos Estados Unidos, denominá-los de “extrema direita” é fazer uma equivalência inconcebível com o nazismo ou o fascismo. Comparar, por exemplo, os batistas do Sul com os fundamentalistas islâmicos, responsáveis pelo terrorismo mundial, seria uma insanidade. Comparar os luteranos do Sínodo de Missouri com a Al Qaeda, ou os assembleianos com os Talibãs, seria um despautério sem tamanho. Comparar os Estados republicanos com o Afeganistão é uma insanidade. E as “provas” de que aqueles cidadãos são mesmo celerados estariam na crença na doutrina do nascimento virginal do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo e na oposição ao casamento gay.

Infelizmente, os textos citados não constituem uma exceção na chamada grande imprensa internacional.



O fundamentalismo

Rousseau havia decretado a morte do pecado, com sua teoria da “bondade natural”. Augusto Comte, com o seu positivismo, havia decretado o estado primitivo da religião. O iluminismo e o racionalismo já haviam despojado a religião de sua relevância e de seus aspectos “supersticiosos”. O liberalismo teológico — sua decorrência no interior da Igreja — já havia negado os milagres. O escravismo e o capitalismo, não querendo ser incomodados pela ética social cristã, já haviam empurrado a fé para o foro íntimo, para o subjetivismo individualista, sem relação alguma com a vida pública. O nazismo e o stalinismo tentaram eliminá-la pela repressão e por sua substituição por formas seculares de religiosidade. Todos eles passaram, e agora a fé, com erros e acertos, insiste em se relacionar com o cotidiano. Nos círculos “ilustrados” admite-se que a divindade, o mistério, o sagrado, a religião, estão de volta, mas a raiva com os “fundamentalistas” é que eles insistem em unicidades e em valores. Os “ilustrados” se encontram em um misto de surpresa, revolta e fúria. A visão de mundo deles entrou em crise.

Alberto Dines, em seu artigo Todos vermelhos, crê que os evangélicos conservadores norte-americanos são “sensíveis à conclamação de Osama bin Laden para uma guerra santa” (Jornal do Commercio, Recife, 07/11/2004). Slavoj Zizec fala em seu “populismo”, “primitivismo” e “imbecilidade óbvia” (caderno “Mais!”, Folha de São Paulo, 07/11/2004).

Ao contemplar essa atitude verdadeiramente intolerante de jornalistas e intelectuais, sou levado a concordar com o amigo e irmão Ricardo Barbosa, pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. Em sua reflexão A pós-modernidade e a singularidade, ele escreve: “Vivemos hoje o que o Dr. James Houston chama de uma nova forma de fundamentalismo, o da ‘democracia liberal’, que impõe sobre nós a obrigação de aceitar e de admirar tudo aquilo que contraria princípios e valores que fazem parte da consciência” (Eclésia, edição 105). Frente a essa realidade, afirma o pastor: “Muitos cristãos sentem-se intimidados por não poderem expressar suas convicções religiosas ou morais diante deste novo fundamentalismo”. Assim, falar em “pecado” ou “convicções morais” é tido como uma expressão de preconceito, de discriminação, de agressão ao espírito “aberto” da pós-modernidade. Por fim, o pastor Ricardo demonstra fundamentada preocupação: “Mais cedo do que pensamos, enfrentaremos uma forte resistência à afirmação bíblica de que Jesus é ‘o caminho’, a ‘verdade’, a ‘vida’, de que ele é ‘o único Senhor’, de que ‘não há salvação fora dele’, e de que ele ‘é o único que pode perdoar nossos pecados’”. E conclui com uma petição que deve ser a de todos nós na atual conjuntura: “Que o Espírito Santo nos dê discernimento e coragem para uma fé e um espírito comprometidos com o Deus da Aliança, preservando a identidade cristã, mesmo que isso nos custe alguns processos”.

Constatamos, então, uma espúria aliança entre o secularismo pós-moderno, a religiosidade relativista da Nova Era e o pensamento teológico liberal revisionista, também pós-moderno, na construção de um novo, inusitado e furioso fundamentalismo secular, encetando um novo período de perseguição, uma nova fase de martírio, para aqueles fiéis às Sagradas Escrituras e à tradição apostólica que ousem afirmar, por palavras e ações: “Só Jesus Cristo é o Senhor” (e Ele ensina que o casamento somente deve-se dar entre homem e mulher!).


Dom Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese Anglicana do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios a uma fé engajada.
www.dar.org.br




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