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Colunas — Arte e cultura

O clamor de Beslan

Mark Carpenter

Lembro-me de que na minha infância em Maringá, numa cinzenta tarde de domingo, uma casa próxima da nossa pegou fogo. Não conhecíamos a família. A minha mãe assistia de longe ao espetáculo, mas algo no seu olhar me fez temer por sua saúde. Pálida e com a sensibilidade tocada, entrou para deitar-se.

No final da tarde, quando os bombeiros reviravam os últimos focos de fumaça, encontraram uma ossada. Descobriu-se que era de um tio que todos pensavam ter saído horas antes. Não tive coragem de contar para a minha mãe. Morri de medo que ela descobrisse, e que a notícia dessa tragédia alheia a acometesse de um mal indescritível que às vezes ronda os seres mais delicados.

As notícias de Beslan me trouxeram à memória a minha falecida mãe. Assisti com meio mundo às imagens dos corpos de crianças retirados do ginásio da escola, dos olhares perdidos dos pais, e do trabalho judicioso, porém resignado, daqueles a quem cabe remover corpos e limpar sangue. Ainda bem que a minha mãe já havia partido, pensei, pois ela jamais conseguia manter-se atrás do muro que quase todos nós construímos entre a nossa realidade e a dos outros. Ela sentia as lágrimas dos outros queimarem em seus olhos.

Beslan me fez compreender como nunca a minha mãe, pois até agora não consegui compreender a dimensão daquilo. Instalou-se dentro de mim um sentimento de profundo mal-estar, a necessidade de fazer alguma coisa a respeito. Não é possível compreender a vida tal como antes, sem passar horas refletindo sobre esse incidente e incorporando os resultados dessa reflexão naquilo que resta ser feito antes do fim da vida. De alguma forma precisamos abominar e rotular esse episódio de forma tão completa e arrasadora que toda a civilização possa reconhecer a gravidade desse pesadelo e assim ter condições mínimas de prosseguir com os próximos passos da vida.

Ao longo da história esse sentimento de profundo desconsolo diante da injustiça gerou grandes obras de arte. Entre os mais celebrados figura Guernica, de Picasso, no qual o pintor despejou sua fúria durante três meses para registrar o seu protesto contra o ataque dos alemães à vila espanhola de Guernica em 1937. Contemplei essa gigantesca obra de Picasso duas vezes, a primeira vez no MoMA, em Nova York, e a segunda em Madri. Nunca senti tanta emoção depositada sobre uma tela, e até hoje sustento a impressão de que nenhuma outra obra de arte conseguiu articular com tanta síntese e universalidade a sensação de ultraje que a pessoa comum experimenta diante da injustiça máxima.

Há outras obras em todas as artes que usam do explícito para declamar contra a guerra e contra a matança de inocentes. São obras como a pintura O Massacre dos Inocentes, de Fra Angélico (1450), a série “Desastres da Guerra”, de Goya (1810-1811), a narrativa Diário de Anne Frank (1947) e a ópera-rock The Wall, de Pink Floyd (1982).

Quero acreditar que no futuro o retrospecto revelará que o massacre de Beslan foi o ponto mais baixo na chuva de crueldades que testemunhamos neste início de século. Mesmo que não seja, e que os dias vindouros tragam macrotragédias ainda mais devastadoras, creio que Beslan clama pela atenção dos artistas do mundo. O choro de Beslan, assim como o alarido de Guernica, não se cala. Como habitantes deste planeta, precisamos que os artistas nos ajudem a articular a dor que ainda custará a passar.

Enquanto não aparecem as obras de arte, os pequenos sobreviventes de Beslan estão pintando e escrevendo. O UNICEF e os professores estão orientando as crianças a expressar seus sentimentos por meio da pintura e dos desenhos. O resultado é inesperado. Enquanto algumas desenham cenas literais dos terroristas e do seqüestro, outras criam cenas idílicas de flores ou belas paisagens.

Se minha mãe estivesse entre esses pequenos sobreviventes, ela também teria desenhado um lindo campo de flores com vislumbres do paraíso à distância. Para ela, a tragédia teria sido tão avassaladora que só restaria recuar e sonhar com o porvir.

Peggy Rosenthal escreveu que em tempos de guerra um dos papéis mais importantes da arte é lembrar-nos que a harmonia existe e que ela é possível (revista Image, no 32, outono/2001). Ela relata que no final de um culto anglicano realizado logo após o 11 de setembro, o pastor pediu que todos os pais lessem histórias de ninar para os seus filhos, “para que eles se assegurem de que tudo terminará bem”. Foi uma sugestão inspirada, ela escreve. No fundo, nossa “segurança” só tem sentido escatológico. Mesmo assim, a arte pode criar universos harmoniosos que nos lembram de um futuro possível.


Mark Carpenter é diretor presidente da Editora Mundo Cristão, e mestre em letras modernas pela USP.

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