Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Colunas — Da linha de frente

Maçãs, laranjas e relacionamentos

Bráulia Ribeiro

Uma vez por ano damos um curso de missões aqui em Porto Velho, em que se ensina lingüística, antropologia e missiologia, para treinar jovens que querem trabalhar com povos não-alcançados no Brasil e no mundo. Experimentamos novas teorias educacionais, usamos técnicas diferentes de ensino, entre elas dramas e dinâmicas de grupo. Uma das mais interessantes é o drama das maçãs e laranjas.

Dividimos a turma em grupos, e cada grupo recebe uma função diferente. Certa vez, eram três grupos, e a dois deles foi dada uma tarefa específica e o dever de preservar a cultura e a unidade do grupo. O terceiro grupo personificava os agentes de mudança. Os membros desse grupo tinham de “ensinar” aos outros dois grupos uma idéia nova. As tarefas eram simples e práticas, tais como comer laranjas e não maçãs, comer as cascas da maçã e não a polpa. As instruções foram dadas em segredo, de forma que nenhum grupo ficou sabendo de antemão qual era o objetivo principal do outro. Os agentes de mudança eram encarregados de mudar os hábitos dos grupos para onde foram enviados de laranjas para maçãs, de casca para polpa.

O objetivo claro do exercício é demonstrar as dificuldades naturais do trabalho com outras culturas — quantas coisas não sabemos, como um simples hábito alimentar pode ter implicações profundas na cosmovisão do grupo.

Observar um grupo de jovens empenhados na tarefa de aprender é sempre interessante, mas dessa vez algo inusitado aconteceu. O grupo dos agentes de mudança encarou a tarefa com seriedade demais. Tornou-se agressivo e partiu para o ataque físico da tribo que evangelizavam... Agarravam os “pecadores” e forçavam maçãs goela abaixo dos pobres até que tudo virou um barraco só. Um dos agentes-missionários chegou a levar uma facada sem querer quando uma das garotas se debatia para se livrar dele.

Mesmo que não tenha sido dito explicitamente que os agentes de mudanças eram os missionários, a metáfora era clara. Ainda assim nem procuraram disfarçar a agressividade. Tinham uma tarefa para desempenhar e seriam julgados por seu sucesso ou fracasso. Os meios já não importavam, e a reação do povo-alvo, muito menos.

Para que tanta agressividade? Ao violentar um povo para ensiná-lo, perde-se a essência da tarefa. Apesar de saber disso, me senti hipócrita ao julgar os jovens no seu afã de sucesso. Nós, as missões estabelecidas, não fazemos o mesmo? Quantas vezes nosso aparato missionário tem ferido o povo, em vez de salvá-lo?

Facilmente usamos parâmetros materialistas para medir nosso sucesso. Quantos folhetos foram distribuídos? Quantos Novos Testamentos foram traduzidos? Quantos centros de assistência à saúde foram estabelecidos? Quantas pessoas estavam presentes em nossos cultos?

Esses julgamentos que quantificam o nosso trabalho são ranços da cosmovisão materialista, que ainda escraviza nossas mentes. O crivo materialista reduz tudo a ter ou não ter, a pouco e muito; especifica tarefas, quantifica amor. Escravos dessa visão, abraçamos o evangelho do fazer e do ter, em vez do evangelho do ser. Bastam-nos igrejas cheias, numerosos batismos, estações missionárias bem equipadas. Não nos perguntamos sobre o povo que estamos servindo, como eles nos vêem, que tipo de relacionamento estamos construindo com eles — patrão-empregado, marciano-terráqueo, sabetudo-sabenada? Somos amigos de alguém? Somos conhecíveis ou impenetráveis em nossa maneira estrangeira de ser?

Um provérbio zulu reza: “Você só é uma pessoa por causa dos outros”. Jesus, como os zulu, usava o crivo relacional e não materialista para medir a vida: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. [...] Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22.37-40). De relacionamentos amorosos com Deus e com o nosso próximo é construído o reino de Deus, e, com ele, igrejas verdadeiras, missões verdadeiras. O que faz de um missionário um missionário de sucesso não é o bom desempenho de suas “tarefas materiais”, mas o amor que ele tem pelo povo para o qual foi enviado e o amor que esse povo consegue ter por ele.

Será que a maioria de nossos trabalhos missionários passariam num crivo relacional? Será que não estamos desempenhando nossas tarefas à revelia do povo que servirmos? Os alunos das maçãs e laranjas aprenderam a lição. Resta-nos usá-los como espelho para nos enxergarmos.


Bráulia Ribeiro é missionária em Porto Velho, RO, e presidente da JOCUM – Jovens com Uma Missão. braulia_ribeiro@yahoo.com.

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.