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Colunas — Da linha de frente

Mea culpa

Bráulia Ribeiro

Me sinto mal quando me flagro falando mal do Corpo de Cristo como se não fizesse parte dele. Como se fossem de outros os problemas que vejo: o mercantilismo, a guerra de egos, a falta de consciência social, a prática de uma ética dúbia, o desinteresse por missões como se isto fosse coisa do passado. Estou aqui para assumir a culpa.

Ontem vi a Luana Piovani discutindo com Mônica Waldvogel, Fernanda Young e Marisa Orth sobre moral sexual. Mônica e Fernanda são mulheres da mídia, formadoras de opinião. Fernanda, em especial, é literalmente pregadora de valores pós-modernos pelas comédias e filmes que escreve. Luana é apenas mais um rosto bonito, corpo sarado, que recheia o desfile de banalidades e casos apimentados dos bastidores da TV. Marisa, Fernanda e Mônica já passaram dos 40. Luana, no entanto, está no auge dos seus 20 e algo. Para meu espanto, quando a pergunta foi “devo ou não trair meu marido?”, Luana soltou um categórico “não”. As três veteranas da mídia se apavoraram. Foi como se Luana tivesse de repente começado a pregar religião: “Como não? Você não pode dizer não, se ela está pensando em trair...” Mas Luana não se deixou intimidar pelos intelectos das três. Continuou a discutir no mesmo nível, advogando sinceridade, fidelidade e verdade como essenciais num relacionamento a dois, deixando-as numa espécie de pânico horrorizado.

Sei que provavelmente você não lê nem a manchete da Contigo (nem eu, quero deixar bem claro...) Mas a reputação da bela Luana é a de quem troca de homem como se troca de roupa. O que está acontecendo com essa juventude? No final de vários minutos num blablablá ensandecido, Fernanda Young, obviamente perdedora no campo da juventude, perdedoríssima agora no campo da discussão racional, soltou: “Ah, minha filha, você pensa assim porque ainda é jovem e não está casada. Quando estiver numa relação estável e duradoura, como nós, vai entender que trair é parte da jogada”. Naquele momento, fiquei triste e me calei, sentindo-me irremediavelmente traída por minha própria geração. Marisa Orth concluiu, com a frase supermachista: “Você espera essa fidelidade dos homens também?” E teve que engolir um peremptório “sim” da Luana: “Ai do homem que dorme com outra enquanto estamos juntos! Nunca mais dorme comigo”.

Apesar de ser missionária há tantos anos, convivendo diariamente com o sofrimento e abandono dos povos inalcançados do Brasil (leia-se povos indígenas), nos últimos anos, tenho evitado o assunto de missões quando prego por aí. Prego sobre a necessária reforma cultural da igreja, sobre a verdadeira ética, sobre o caráter de Deus. Mas tenho dificuldade de fazer aqueles apelos apaixonados para missões que fazia nos meus 20 e poucos anos. É como se estivesse casada com o assunto por tanto tempo que tivesse licença para traí-lo. Ah, Deus, me perdoa...

Recentemente participei de dois congressos, que quero descrever. Um deles tinha a cara da minha geração: religioso, verdadeiro pingüinário evangélico, hospedado em hotéis cinco estrelas, onde se discutiu a estratégia de crescimento para a igreja do Brasil. Não digo que não havia zelo sincero, amor por Deus e pelo Brasil. Mas, misturada a isso, era óbvia a autocomplacência quarentona, a busca dos benefícios pessoais fortuitos — que muitas vezes também consigo ver dentro de mim. Ali a palavra missões era tabu. A nova estratégia não permite “conceitos do passado”. Nós, os missionários presentes com o nosso discurso “vamos enviar brasileiros aos povos da terra”, éramos tiranossauros do período jurássico, insistindo em habitar um mundo no qual não deveríamos mais existir.

O outro congresso, um crente normal dificilmente identificaria como cristão. O visual da galera era o mais louco possível. Góticos, neo-hippies, metaleiros, jovens tatuados e “piercinzados”, das mais diversas tribos, se reuniam meio sem conforto para quatro dias de muito rock e gritaria. Eu ia falar no encerramento. Resolvemos ir de carro, a família toda, correndo quase que ininterruptamente 3.500 quilômetros de estradas péssimas, no meio eu querendo desistir, apavorada pelo público que me esperava e pelo cansaço. Chegamos algumas horas antes da palestra. Os líderes nos abraçaram, comovidos por nosso esforço, admirados — éramos tão loucos como eles: “Por favor, Bráulia, pregue sobre missões. Esta galera precisa sair para as nações. Deus tem um destino radical para eles”. Obedeci e missionei naquela noite um apelo duro, chamando-os ao auto-sacrifício, às terras distantes, à incompreensão solitária das culturas estranhas do mundo que ainda estão sem Cristo. Pelo menos 400 jovens vieram chorando à frente. Entusiasmados com o mesmo entusiasmo de Luana Piovani, que crê ser possível um amor sem traições. Resta saber se nossas denominações quarentonas vão dar a eles o apoio que precisam para sair.

Me perdoa, Deus, por te trair, por trocar teu evangelho missionário por um evangelho mais fácil, e, do alto dos meus 40 anos, me amedrontar diante do radical. Te amo.


Bráulia Ribeiro é missionária em Porto Velho, RO, e presidente da JOCUM – Jovens com Uma Missão. braulia_ribeiro@yahoo.com

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