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Reflexão — Ricardo Gondim

Qual o futuro para os evangélicos brasileiros?

Muita história separa o primeiro Congresso Brasileiro de Evangelização do segundo. Em 1983 os sonhos ainda não haviam morrido, os muros altos da Guerra Fria continuavam de pé. Não havia o telescópio Hubble, nem laptop, nem palmtop, nem telefone celular, nem mapeamento genético. Ainda se tocavam discos de vinil. Naquele tempo, Saddam Hussein recebia verbas para aumentar o seu exército, e tanto Pinochet como Noriega eram considerados bons estadistas. Ninguém sabia quem era Osama Bin Laden. Considerava-se a China um país agrícola e atrasado. Ensinava-se que a besta do Apocalipse seria dez países (não mais do que dez) europeus que se juntariam para renascer o antigo Império Romano. Não existia o eixo do mal, e sim o império do mal: a União Soviética e seus países satélites.

No Brasil, a ditadura militar, asfixiada, procurava fôlego. Ligávamos pontualmente a televisão no Jornal Nacional, querendo saber a “versão oficial”. Vivíamos sob o manto escuro do AI-5. Acreditava-se que justiça social era discurso de comunista. Os evangélicos compunham a minoria silenciosa e impotente do Brasil. Contudo, apoiavam a ditadura e com ela permaneceram até o apagar da luzes do regime. Pecavam os crentes que não votassem nos partidos da situação.

Mas, em 1983, o Congresso Brasileiro de Evangelização cravou uma estaca em nossa história. Ali se falou do imperativo de a igreja entrar pela porta da missão integral. E daí em diante procuramos colocar maçaneta e azeitar os gonzos nas dobradiças dessa porta tão pouco conhecida. Entretanto, havia outras opções, tais como o adesismo político.

Poderíamos simplesmente continuar com a atitude subserviente de alguns dos nossos líderes. Bastaria repetir e ensinar uma frase vergonhosa, que os truculentos militares ouviam ressoar de dentro das igrejas: “Sim, senhor”. Poderíamos também escolher resignarmo-nos à nossa condição de colônia, fotocopiando as antigas formulações teológicas de nossos irmãos mais ricos e adiantados. Com dólares fartos, construiríamos aqui filiais dos seus megaprojetos no Primeiro Mundo. Vestiríamos ternos bem talhados, ganharíamos passagens para comparecer (nunca falar) às suas conferências missionárias. Havia também a porta da teologia da libertação, prometendo instrumentais que nos habilitariam a entender e transformar nossas idiossincrasias históricas. Graças a Deus não optamos por nenhuma delas, e assim começamos a sair da nossa imaturidade política. Não murchamos como uma colônia, nem embarcamos no neopanteísmo esotérico que hoje fascina os antigos marxistas cristãos.

Optamos pela proposta da missão integral. Formamos uma frente informal de homens e mulheres que se propunham a perseguir o sonho de pregar todo o evangelho a todos os homens e mulheres em todas as suas circunstâncias. Cheios de medo, atravessamos caminhos estreitos e caminhos largos; alguns tentadores e outros cheios de ameaças. A cada passo, víamos nascer uma nova manhã, e nela sete outras portas. Contudo, obstinadamente continuamos procurando nosso caminho. Com o pouco que sabíamos, lutamos para reverter as injustiças sociais, semear paz e salvar alguns. Acrescentamos à nossa humanidade uma esperança alvissareira: o reino de Deus está entre nós.

Com o CBE2, a igreja evangélica tem sim o que celebrar. Neste Brasil de dia claro, onde o sol não conhece amanhecer ou anoitecer e as cores se confundem num branco radiante de constante verão, testemunhamos sinais históricos do poder do evangelho. O que celebrar nessa breve, brevíssima, história?

Construímos nossa agenda missionária com os materiais de que dispúnhamos. Transformamos nossas paixões juvenis em tijolos. Rebocamos paredes com a argamassa de nossa impulsividade romântica. Caiamos nossas paredes com a determinação de alcançarmos os confins da terra. Rechaçamos a idéia de que somos um povo inexpressivo, desinteressante e pobre. Assim, fizemos do caboclo um missionário; do sertanejo, um desbravador espiritual; e do migrante gaúcho, um plantador de igrejas. Não construímos nossa missão com ouro nem prata, mas com o suor anônimo dos Silvas, com as mãos fortes das Marias e com os olhos de lince dos zés-ninguém. Muitas vezes, semeamos atabalhoadamente, mas com sinceridade.

Geramos pensadores. Não tantos, talvez, mas com densidade invejável. Homens e mulheres que nos tiraram de nossos guetos denominacionais. Gente que nos ajudou a pular para fora dos fossos cavados por alguns líderes reacionários e que nos mantinham inimigos de nós mesmos.

Também temos muito o que lamentar em nossa caminhada de 20 anos. Afinal de contas, somos filhos desta geração. Com ela choramos enlutados a morte das utopias. Viajamos com os nossos veleiros rumo a um porto que parecia nunca chegar. Sentimos muitas vezes que nossos sonhos nos abandonavam, assim como a noite abandona o seresteiro na madrugada que se recusa a virar dia. Contemplamos um tempo pálido se repetindo monotonamente. A pós-modernidade buscou nos empurrar para uma história sem sentido. E em inúmeras ocasiões nos sentimos anestesiados. Com o avivamento do terrorismo, nos sobreveio a sensação de que a história retrocedeu para o início de uma longa noite. Escuridão povoada de ausências e sem estofos contra a intolerância.

Testemunhamos a superficialização da fé e a exuberância da espiritualidade prêt-à-porter, prometendo um êxtase intimista e imediato. Choramos a perda da dimensão comunitária da fé e o renascimento do individualismo. Frustramo-nos com a nossa incapacidade de encarnar eticamente muitos de nossos pressupostos teológicos.

Chegamos ao CBE2 precisando refazer o dever de casa para aprender a elencar novas ênfases em nossas agendas. Precisamos saber enfatizar, como Jesus Cristo, diferentes dimensões da fé. Ele ressaltou diferentes verdades em circunstâncias distintas. Numa determinada situação afirmou que, para ser discípulo seu, as pessoas devem abrir mão de algumas coisas (Mc 8.35; Lc 14.26); em outras ocasiões, que precisam crer (Jo 5.24). E com a mesma convicção declarou a necessidade do fazer (Mt 25.44-46) e que confessar é condição para se entrar no Reino (Mt 10.32).

Na pós-modernidade o verbo crer perdeu muito do seu significado. Hoje as pessoas acreditam em qualquer coisa. Se continuarmos privilegiando o verbo crer, não conseguiremos mais produzir verdadeiros discípulos. Proponho que elejamos a graça como o grande tema do novo milênio e reaprendamos todo o significado do Consumatum est, que Jesus bradou no Calvário. Ensinemos que Deus já fez tudo o que precisava ser feito para a salvação da humanidade. Zelemos para que Efésios 2.8,9 não se transforme em um chavão:

Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie.

Só assim, celebraremos uma dimensão de louvor que não se esforça para agradar a Deus, mas que festeja o amor de um Deus já agradado de nós. Restituiremos ao culto felicidade e gratidão no lugar da penitência. Daremos às nossas orações a certeza de que Deus nos ouve com ouvidos carinhosos, e não numa relação de causa e efeito. Repetiremos a afirmação de Paulo em Gálatas 2.20:

Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.

Somente a graça produzirá pessoas que não almejam integridade para serem queridas de Deus, porém filhos e filhas amadas, que por isso desejam ser verdadeiras. Com a graça não precisamos orar bem para sermos ouvidos por Deus, mas andaremos confiantes que Ele nos ouve sem exigir explicações. A graça nos ensinará que não somos salvos porque nos sacrificamos, mas que vale a pena nos entregarmos pelo ideal do reino de Deus. Somente a graça manterá o cristianismo singular diante de todas as outras espiritualidades das prateleiras religiosas pós-modernas.

Soli Deo Gloria.


Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesta no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Orgulho de Ser Evangélico — por que continuar na igreja e Artesãos de Uma Nova História.
www.ricardogondim.com.br


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