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Reflexão — Robinson Cavalcanti

O "realismo" venceu a esperança? — os cristãos progressistas diante do novo tempo

Nosso tempo

Vivemos a triste realidade de um mundo que tem donos. E nele cresce a consciência de que nós, Igreja de Jesus Cristo, somos “um pequenino rebanho”, diante do monopólio geopolítico, tecnológico e militar da “Nova Roma”, e do oligopólio econômico do restrito grupo de nações ricas (o G-8). Como cristãos conscientes e cidadãos responsáveis, sentimos uma desconfortável sensação de fragilidade, de vulnerabilidade. Isso quando, após o fim da Guerra Fria e sob a velha ótica da direita, o pensamento da nova (des)ordem internacional encara as desigualdades como legítimas e inevitáveis, e a injustiça, a opressão e a exclusão como da natureza das coisas. Aos vitoriosos, os louros; aos fracos, a caridade condescendente.

Diante deste mundo estruturalmente pecador, nós cristãos conscientes teimamos também em crer que “um outro mundo é possível” tanto na história, quanto além dela. Anti-reino e conflitos também neste pedaço de mundo chamado Brasil.

Estivemos indignados e inconformados por muitos anos. E, no tempo recente, sonhamos que a esperança havia vencido o medo. Estamos acordando do sonho para, com tristeza, percebermos que a decepção parece estar vencendo a esperança, que o realismo sacrificou valores, que se esgotou um capital moral. Mais uma vez — como há 500 anos — as nossas elites circulam, pactuam, incorporam novos atores. Continua o desvalor na prática contínua da realpolitk. A oposição ao capitalismo vai se transformando na oposição no capitalismo. Novas faces e novas retóricas nas velhas práticas. Idéias, ideais e idealismos parecem, com surpreendente rapidez, ter ido parar na lata de lixo da história. A autenticidade, a fidelidade e a coerência parecem ser percebidas como algo ultrapassado, exótico ou delinqüente.

Vemos soberanias nacionais ameaçadas, soberania popular ameaçada, seres humanos ameaçados ou violentados em sua dignidade como pessoa humana, culturas ameaçadas, e eleições como meros ritos formais cíclicos sobre o apenas adjetivo. No lugar de estadistas, temos meros gerentes do sistema único possível, em suas variações quanto ao secundário. Os velhos paradigmas se tornaram obsoletos e os novos, apenas nefastos. Vivemos a crise da história, a crise do sistema e, também, a crise do ser.

O documento de um Encontro Internacional de Evangélicos Anglicanos realizado em Limuru, no Quênia, em julho de 2003, sobre “A Vida em Missão”, afirma que a tensão em que vivemos como cristãos se dá a partir de um doloroso contexto global:

Estamos profundamente conscientes: do drama do vírus HIV/AIDS, das guerras e conflitos de armas e do deslocamento de um vasto número de pessoas; das práticas injustas das relações comerciais, da dívida externa e da contínua pobreza de milhões; da corrupção e da falta de ética e de transparência das corporações; da destruição do meio ambiente; dos efeitos negativos da globalização; da crescente ameaça do terrorismo, e da falta de respeito para com o Direito Internacional.

Diante desse quadro, conclui o documento: “Reafirmamos que a missão holística requer uma profunda consciência desses temas, e inclui a luta pela justiça, pelo bem-estar, e pela transformação em todas as áreas da vida”.



Nosso país

Os últimos 20 anos presenciaram o ressurgimento, no Brasil, de um evangelicalismo progressista, desejoso de conciliar a sua fé com a prática e de resgatar a herança dos evangélicos abolicionistas, republicanos, democratas e socialistas. Após a eleição presidencial de 1989 (29 anos depois da anterior), surgiu o MEP — Movimento Evangélico Progressista, com o sentimento de continuidade e aprofundamento de um discipulado integral (fruto da missão integral da igreja), que inclui o exercício responsável, ético, comprometido e transformador da cidadania. Essa geração pagou um preço de incompreensões tanto na igreja, quanto nos espaços progressistas secularizados.

Lamentavelmente, grande parte dessa geração nem sequer foi lembrada pela presente administração federal, que tem abrigado evangélicos fisiológicos e adesistas, históricos adversários da sua proposta. Uma ética de resultados substituiu uma ética de princípios? O realismo tomou o lugar do idealismo? Não seriam os evangélicos progressistas “indesejáveis” agora, porque são principistas, pluralistas e coerentes?

Parece que vinte anos de experiência pedagógica, acumulação de estudos e propostas, formação de quadros, campanhas memoráveis (“sem medo de ser feliz”) foram abandonados, sem um debate amplo e transparente. Uma “amplíssima aliança” contentou os poderes e poderosos do mundo e do país, em nome de um “projeto estratégico” que ninguém sabe qual é e que rotula de “radical” quem pretende ser coerente com a história e a identidade. Parece que a prostração venceu a esperança.

No quadro atual, encontramos os evangélicos progressistas nas seguintes situações: a) os que estão no governo cooptados e acomodados; b) os que estão no governo incomodados, desconfortáveis; c) os que procuram se equilibrar entre um apoio crítico e uma discordância propositiva; d) os que se sentem empurrados para a oposição, em nome da história e da coerência.

O quadro é surpreendente e confuso. As correntes progressistas vivem uma das mais profundas crises da sua história, e não adianta fazer de conta que não é assim. Há dor, há decepção, há frustração. Diante dessa situação, que o Senhor da história nos dê visão, discernimento, lucidez, determinação e coragem. Coragem para ser, para falar, para sofrer, para criar, para propor.

Nossa lealdade única e absoluta é a Jesus Cristo e aos valores do seu reino. Jesus rejeitou a opção adesista e fisiológica dos herodianos, o racionalismo pragmático dos saduceus, o formalismo conservador dos fariseus, a alienação isolacionista dos essênios e a luta armada dos zelotes. Nenhum partido político, ideologia ou governo pode ser identificado com o reino de Deus. A postura da igreja, como instituição, deverá ser sempre, em todas as épocas e regimes, de independência.

Os cristãos progressistas resistem à tentação do poder, participam criticamente, reelaboram utopias, se inconformam, reabrem a história, devolvem esperanças, afirmando a providência.

Queremos o bem-estar da Pátria. Não somos chamados a bem gerir o capitalismo, mas a lutar por sua substituição por uma economia de justiça e solidariedade.

A luta continua, companheiros irmãos!


Dom Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese Anglicana do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios a uma fé engajada.
www.ieabrecife.com.br


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