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Colunas — História

Zelo sem entendimento: os problemas do entusiasmo religioso na história do cristianismo

Alderi Souza de Matos

Em todas as religiões existe o fenômeno do fervor espiritual intenso, por vezes extremado, que caracteriza certos indivíduos, grupos e movimentos. O cristianismo não é uma exceção. Um termo técnico usado para descrever essa atitude é “entusiasmo”, palavra cujo sentido original é “ser possuído ou inspirado pela divindade” (de “en” = dentro + “theos” = deus). O entusiasta, em virtude da sua experiência profunda e arrebatadora com o divino, é com freqüência tomado de grande paixão e ardor nos seus sentimentos religiosos. Isso não é necessariamente algo negativo. Na verdade, ao longo dos séculos o fervor religioso tem produzido frutos admiráveis em áreas como a espiritualidade e a obra missionária. Alguns exemplos bem conhecidos são os místicos espanhóis do final da Idade Média e o conde protestante Nicolaus von Zinzendorf com seus seguidores morávios.

Infelizmente, a história demonstra que muitas vezes o entusiasmo religioso ultrapassa os limites do bom senso e manifesta extravagâncias comportamentais e teológicas. Em alguns casos extremos chega ao fanatismo, com as conseqüências negativas, até mesmo destrutivas, daí advindas. Ironicamente, o entusiasmo mal dirigido pode proceder de um desejo sincero de glorificar a Deus. Paulo, escrevendo aos romanos acerca de seus compatriotas judeus, afirmou que estes possuíam “zelo por Deus, porém não com entendimento” (Rm 10.2), e ele mesmo, antes de conhecer a Cristo, em seu zelo pela lei de Deus foi um perseguidor da igreja (Fp 3.6; ver Jo 16.2). Uma característica do entusiasmo religioso cristão é a sua freqüente associação com expectativas apocalípticas e com as experiências sobrenaturais a elas ligadas, tais como revelações, visões e profecias.

Cristandade antiga e medieval

A primeira ocorrência bem documentada de entusiasmo na igreja antiga foi o montanismo. Esse influente movimento teve início no ano 172 quando o jovem Montano começou a chamar a atenção como profeta na Frígia, Ásia Menor. Duas profetizas, Priscila e Maximila, logo se tornaram suas seguidoras e afirmavam ser porta-vozes do Paracleto, o Espírito Santo. Eles criam que às vezes Deus falava por meio deles na primeira pessoa, como por meio dos profetas do Antigo Testamento. A sua mensagem principal era a proximidade do fim do mundo e da segunda vinda de Cristo. Como preparação para isso, os cristãos eram exortados a praticar um rigoroso ascetismo, abstendo-se de relações conjugais e fazendo numerosos jejuns. Também eram exortados a receber de bom grado as perseguições.

A liderança da igreja sentiu-se ameaçada pela autodenominada “nova profecia” e os montanistas acabaram sendo excomungados. Alguns grupos sobreviveram até o século 5º na África e por mais tempo na Frígia. Apesar de alguns excessos, esses antigos cristãos chamaram a atenção da igreja para a pessoa do Espírito Santo e a importância de uma vida disciplinada. Esses fatores atraíram o grande intelectual cristão Tertuliano de Cartago, que se tornou montanista no final da sua vida. A partir dessa época, todas as reivindicações de inspiração direta foram firmemente desencorajadas pela igreja ocidental.

Ainda assim, durante a Idade Média ocorreram alguns casos de maior ou menor impacto. No final do século 12, Joaquim de Fiore, da Calábria, sul da Itália, ensinou que a era do Espírito iria começar no ano 1260 e esboçou com detalhes os eventos dos 60 anos precedentes. Começando com o Apocalipse, ele e seus muitos discípulos anunciaram novas revelações. Fiore atraiu a atenção de quatro papas e influenciou a nascente ordem franciscana, mas, quando suas predições não se confirmaram, seu movimento se extinguiu. Algum tempo depois, Guilhermina da Boêmia, uma entusiasta lombarda, afirmou ser uma encarnação do Espírito para salvar os judeus, os sarracenos e os falsos cristãos. Logo após a sua morte em 1281, sua seita foi exterminada.

Outros exemplos medievais são os flagelantes do norte da Europa (século 14), os taboritas da Boêmia (século 15) e os alumbrados ou illuminati da Espanha (século 16), todos os quais foram fortemente reprimidos pelos poderes constituídos. Os estudiosos apontam para o fato de que, além das motivações religiosas, esses movimentos refletiram reações populares a situações de grande tensão econômica e social.

O período da Reforma

A Reforma Protestante desencadeou forças latentes que em diversas ocasiões produziram manifestações de intensa excitação religiosa. No aspecto negativo, o caso mais notório ocorreu na cidade de Münster, na Westfália. Tudo começou com o curtidor Melchior Hofmann, que em 1529 chegou a Estrasburgo e anunciou o iminente fim do mundo, sendo que essa cidade seria a Nova Jerusalém. Dizendo ser o profeta Elias, ele viajou pelo norte da Alemanha e a Holanda, impregnando o movimento anabatista com fortes convicções milenistas. Após a sua prisão, ergueu-se um novo líder na pessoa do padeiro holandês Jan Matthys. Afirmando ser Enoque, ele anunciou que a Nova Jerusalém seria de fato Münster.

Muitos anabatistas afluíram para essa cidade e eventualmente adquiriram o controle político dela, implantando uma teocracia.

Quando Matthys morreu numa batalha contra o exército do bispo, seu principal apóstolo, Jan de Leyden, foi logo reconhecido como profeta. Poucos meses depois, mediante uma profecia, ele foi declarado “rei de justiça” e o “governante da nova Sião”. No Ano Novo de 1535, promulgou um novo código legal, concluindo com as palavras: “A voz do Deus vivo declarou-me que esta é uma ordenança do Todo-Poderoso”. Alguns dos profetas do movimento proclamaram que a ética do Antigo Testamento ainda era válida e por isso sentiram-se autorizados a introduzir a poligamia. Em 25 de junho daquele ano, após um cerco prolongado e angustioso, a cidade foi tomada pelo exército episcopal e quase todos os habitantes foram massacrados.

Os reformadores foram críticos dos anabatistas por entenderem que eles ameaçavam a ordem social, uma vez que insistiam em manter-se separados tanto do Estado quanto da coletividade. Outra razão dessa hostilidade era teológica: a liberdade com que alguns grupos interpretavam as Escrituras e o seu apelo a revelações diretas pareciam relativizar a Palavra de Deus. João Calvino, por exemplo, escreveu várias obras contra o movimento, uma das quais intitulada Contra a fanática e furiosa seita dos libertinos que denominam a si mesmos espirituais (1545). Durante séculos, governos e igrejas exploraram os excessos cometidos por alguns anabatistas para fazerem do movimento como um todo um sinônimo de fanatismo e desordem.

Os grandes despertamentos

Como não poderia deixar de ser, os avivamentos religiosos, com seu poderoso conteúdo emocional, são um terreno fértil para a ocorrência de expressões entusiásticas. Isso se tornou especialmente inevitável no ambiente volátil da fronteira norte-americana nos séculos 18 e 19. No Primeiro Grande Despertamento (décadas de 1720 a 1740), pregadores como Theodore Frelinghuysen, Gilbert Tennent, Jonathan Edwards e George Whitefield souberam manter o equilíbrio e a sobriedade. O mesmo não aconteceu com outros avivalistas, como James Davenport, que apelaram fortemente para o emocionalismo. A conseqüência disto foi o surgimento de uma forte polarização entre os chamados “novas luzes” (favoráveis ao avivamento) e os “velhas luzes” (contrários ao avivamento).

No Segundo Grande Despertamento (1800-1830), mais vasto e explosivo, tornaram-se comuns as dramáticas manifestações físicas de êxtase religioso: desmaios, rodopios, gargalhadas, grunhidos, convulsões e danças. Mais que isto, o entusiasmo acabou gerando novos movimentos, alguns bastante divergentes do protestantismo histórico, como os experimentos comunitários e outros grupos heterodoxos, tais como shakers, mórmons e adventistas. Isso não quer dizer que não tenha havido muitos aspectos positivos nesses avivamentos. Jonathan Edwards (1703-1758), o pastor e teólogo que se tornou o grande estudioso desses fenômenos, concluiu que as manifestações podiam ser sinais do poder de Deus ou não. Para avaliar a autenticidade de um avivamento, era preciso procurar os frutos duradouros, pessoais e coletivos, que resultavam dessas intensas experiências espirituais.

Finalmente, o início do século 20 viu nascer o pentecostalismo, um movimento que, devido a suas peculiaridades intrínsecas, possui uma espiritualidade fervorosa, carregada de emotividade. A ênfase no Espírito Santo e seus dons extraordinários, a linguagem do poder e a expectativa do final dos tempos têm produzido inegável vitalidade e notáveis transformações, mas também podem, quando mal orientadas, gerar excessos como os associados com a “experiência de Toronto” e distorções teológicas, principalmente na área do culto e da escatologia.

Conclusão

É longa a história do entusiasmo religioso desordenado e seus riscos. Em alguns casos excepcionais, as conseqüências podem ser trágicas. Dois exemplos do Brasil do século 19 foram Canudos e seu profeta Antônio Conselheiro, na Bahia, e a revolta dos muckers, no Rio Grande do Sul. Dois episódios mais recentes em outros países foram o suicídio coletivo dos seguidores de Jim Jones, na Guiana, e a morte da David Koresh e seus simpatizantes em Waco, no Texas. Não se deseja aqui denunciar o entusiasmo religioso per se, que, como foi apontado, tem produzido frutos admiráveis na história do cristianismo. O próprio apóstolo Paulo disse: “No zelo não sejais remissos: sede fervorosos de espírito, servindo ao Senhor” (Rm 12.11). Mas o mesmo escritor inspirado, ao orientar os fiéis de Corinto quanto à sua espiritualidade, acrescentou: “Tudo, porém, seja feito com decência e ordem” (1 Co 14.40).


Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil.

asdm@mackenzie.com.br


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