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Sociólogo brasileiro assassina frade capuchinho em Paris

É preciso ter fôlego para ler “Os Filhos do Cardeal”, um livro de 204 páginas publicado pela Paralelo 15 Editores, de Brasília, em 1997. São fatos históricos que pertencem a um passado não muito distante, que nos levam à primeira metade do século passado, que a geração atual desconhece e não quer conhecer. São quadros anteriores ao Concílio Vaticano II (1962-1965), quem sabe também responsáveis por sua convocação. Assim como a leitura dos temas relacionados à escravatura e dos temas relacionados ao Holocausto arrepia, a leitura de “Os Filhos do Cardeal” também causa horror.

Malgrado a revolta ainda agasalhada na alma e, pior que isso, malgrado o autor ter jogado fora a fé junto com a água suja, o livro do sociólogo gaúcho Eugênio Pedro Giovenardi é uma espada de dois gumes: tanto pode arrancar a pequena fé de quem tem fé tênue como pode enviar acenos para a liderança visível da igreja invisível, seja ela católica, ortodoxa ou protestante.

Eugênio, 69 anos, casado, uma filha e duas netas, vive em Brasília. Licenciado em ciências sociais pela Universidade de Ijuí, RS, é pós-graduado em sociologia do desenvolvimento pela Universidade de Paris e em economia do desenvolvimento pela Universidade de Loughborough, na Inglaterra.

Trabalhou como consultor de várias organizações nacionais e internacionais, como o Banco Internacional do Desenvolvimento (BID), Organização Internacional do Trabalho (OIT), Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Instituto Interamericano de Ciências Agrárias (IICA).

Hoje aposentado, dedica-se a escrever livros.

O livro de Eugênio é cheio de provocações, a partir da dedicatória: “A Hilkka Mäki [a esposa finlandesa de família luterana], que, antes de mim, disse ao pastor que não o queria em seu enterro” e “A Aino Alexandra [a filha única], gerada sem pecado original”.

Traduzido para o espanhol e para o finlandês, “Os Filhos do Cardeal” conta com os pingos nos is, os dramas íntimos do autor, desde quando foi enviado pelos pais ao Seminário Seráfico dos capuchinhos em Veranópolis, RS, em 1944, quando tinha 10 anos, até quando fugiu do Convento dos Capuchinhos, na rua Boissonade, em Paris, em 1968, aos 34 anos.

Para suprir as paróquias de padres, missionários italianos visitavam as famílias em busca de vocações. As comunidades italianas eram verdadeiros ninhos de incubação das vocações religiosas. Eles e as freiras, denuncia Eugênio, “recrutavam os filhos dos outros para oferecê-los a Deus”. E o seminário de Veranópolis era a “fábrica de padres”. Sacrificar um filho a Deus era motivo de muito orgulho e também uma espécie de comércio religioso com a hipoteca do filho. Uma das crianças “raptadas” de Charqueada, uma fazenda no município de Caçador, Santa Catarina, no ano de 1944, era exatamente Eugênio. “Quando cheguei ao seminário”, lembra o sociólogo, “éramos 213 hipotecas de Deus nas mãos dos frades”. O internato era “uma concentração de meninos mal acabados, que não tiveram tempo de terminar sua infância, governados com mão dura por adultos que haviam crescido sem mãe nem pai, dedicados a obedecer à lei indiscutível de Deus”.

Além de ficar sob vigilância contínua, dia e noite, em todas as dependências do seminário, principalmente nos banheiros, os adolescentes deviam se esquecer dos familiares e evitar amizades particulares, em favor de um amor exclusivo à virgem Maria e a Jesus. Durante os três primeiros anos de seminário, Eugênio recebeu no máximo três cartas da família. Quando completou 15 anos, no dia 28 de junho de 1949, ninguém se lembrou dele, nem por carta nem telegrama. Também não recebeu nem um aperto de mão da parte dos padres ou dos colegas. Eugênio só conheceu os dois irmãos gêmeos dez anos depois do nascimento deles. Pelo regulamento, ele só poderia escrever à família três vezes ao ano e as cartas tinham de ser autorizadas e revisadas pelo reitor.

Por ter machucado sem querer um colega, Eugênio recebeu uma bofetada no rosto da parte do reitor e foi trancado por três dias numa cela, sem direito a comida. Ali, encostado ao vidro da janela, viu uma senhora de guarda-chuva aproximando-se da entrada principal do seminário. Teve a vívida e alegre impressão de que era sua mãe, a chamado do reitor. Então — que beleza! — poderia contar-lhe tudo e pedir que ela o levasse de volta para casa, para junto de seus irmãos, para perto do gado, para perto das andorinhas, para perto do riacho, para a fazenda em Charqueada. Mas aquela mulher não era a mãe dele...

O reitor, quase sempre de óculos escuros, certa vez convidou Eugênio para uma conversa. Depois de chamar a atenção do adolescente sobre o prazer solitário “que apodrece as pessoas”, aconselhou-o: “Quando o fogo da paixão te assaltar, recorra à proteção da Virgem Imaculada. Fuja da tentação. A mulher é uma diabólica fonte de desejos, evite olhá-las”.

Não olhar para mulher nem em sonhos? De vez em quando, Eugênio sonhava com uma colega de escola que tivera em Charqueada, a qual fora sua namoradinha. Num desses sonhos, ele viu a italianinha Mafalda Borghetti bem vestida, de cabelos compridos, da mesma idade dele (15 anos), com um olhar de quem espera um convite ou de quem convida. Ela também seria uma fonte diabólica de desejos? Outras vezes, ele acordava no meio da noite “com o pijama molhado e a lembrança de um rosto feminino, de um seio descoberto, de olhares aliciadores”. Uma das medidas para expulsar os pensamentos libidinosos era entregar-se nas mãos de Maria. O pior é que o rosto de Maria começava a parecer-se com o de Mafalda Borghetti.

Depois de sete anos de seminário menor, Eugênio Giovenardi, então com 17 anos, supôs que o desprezo e o medo da mulher já haviam substituído seus sentimentos de afeto por qualquer “Eva”. O futuro, porém, diria que não era bem assim.

Sua ignorância sexual diminuiu quando ele começou a ler toda a Bíblia aos 20 anos, o que era proibido aos noviços, por serem neófitos. Então, ele tomou conhecimento, “entre perplexo e perturbado, que um homem casado podia ter mais de uma relação com sua mulher se ela não concebesse na primeira”.

A malvada Mafalda Borghetti continuava atrás dele, provocante, mas em silêncio, paciente, com a maçã na mão, sempre disposta a oferecê-la. Em sonhos, naturalmente. Eugênio não podia nem sonhar, mas alguns frades faziam, às escondidas, muito mais do que sonhar.

O pobre seminarista, então estudante de filosofia, não sabia conviver com as mulheres, nem com as próprias primas nem com as amigas de suas irmãs. Não sabia conviver com mulheres decotadas nem de pernas cruzadas. Tudo, em grande parte, por causa daqueles muitos anos de isolamento. A mulher, continuavam a dizer-lhe os professores, tem uma força diabólica capaz de arrancar um frade de dentro do convento e das mãos de Deus.

Eugênio fez teologia em Porto Alegre, onde foi ordenado padre, em 1960, aos 25 anos, já com o nome de frei Leonardo de Módena. Foi uma vitória alcançada pela família (a mãe o levou até o altar no dia da cerimônia) e pelos missionários catadores de vocações sacerdotais, mas não pelo próprio ordenando. Para ele, “o dia da ordenação foi, ao mesmo tempo, a apoteose da chegada e o começo do fim”.

O fim não demorou muito. Chegou sete anos depois da ordenação, em 1968, de modo brusco, sem os processos canônicos, o que o transformou num apóstata. A essa altura, Eugênio fazia pós-graduação na Universidade de Paris e morava num mosteiro com outros frades. Estava com 34 anos. Foram 24 anos aparentemente jogados fora, desde a longa viagem de trem de Charqueada para o Seminário Seráfico até aquela manhã. Não foi necessariamente a “força diabólica da mulher” que o fez desertar. Não foi Mafalda Borghetti, a namoradinha dos bancos escolares. Não foi Ana Terra, a “alma inquieta, doce e melancólica” que ele conheceu e amou no Eugênio C, quando atravessava o Atlântico rumo à Europa. Não foi Graciela, aquela chilena restauradora de quadros que estava fazendo estágio no Museu do Prado, em Madri, com a qual ele se encantou. Não foi Helena, aquela colega da Aliança Francesa, em Paris, que acertou-lhe um beijo grosso na boca (o primeiro em 32 anos que o frade gaúcho recebeu e devolveu). Não foi a finlandesa Hilkka Mäki, correspondente do jornal “Helsinki Sanomat”, o maior jornal da Finlândia, que estava cobrindo as manifestações do Movimento de Maio de 1968, com a qual Eugênio se encontrou por acaso numa rua em Paris e com a qual veio a se casar no dia 22 de julho de 1969, em Helsinki, ele com 35 anos e ela com 33.

Foram, talvez, na análise do próprio desertor, aquele “turbilhão de cânones, decretos, bulas e encíclicas que me atormentaram o espírito por mais de mil dias”. Foi a pedagogia errada de seus mentores espirituais, que falavam mais da lei do que da graça, mais do medo do que do amor, mais das obras do que da fé, mais dos dogmas do que da Bíblia, mais do sexo do que dos mandamentos relacionados a outros aspectos, mais do inferno do que do céu, mais da severidade de Deus do que da sua misericórdia, mais da cobrança do que do perdão de Deus. Os capuchinhos usaram mais a imposição do que a persuasão. Tiveram pressa demais e não deram lugar ao Espírito Santo. Esqueceram-se daquela preciosa advertência do profeta Zacarias: “Não será por meio de um poderoso exército nem pela sua própria força que você fará o que tem de fazer, mas pelo poder do meu Espírito” (Zc 4.6, NTLH). Além de tudo, ensinaram os futuros padres a discriminar a mulher e a colocar nela a culpa de toda desgraça, à semelhança de Adão: “Foi a mulher que me deste por companheira que me deu do fruto da árvore, e eu comi” (Gn 3.12, NVI).

Por causa desse acúmulo de equívocos, o sociólogo Eugênio Pedro Giovenardi cometeu um crime de morte à margem do rio Sena, em Paris, na manhã do dia 2 de dezembro de 1968, há 34 anos — ele assassinou o frei Leonardo de Módena, da sua idade, da sua altura, do seu peso e da sua imagem!

A porta da graça não está fechada para o sociólogo que deveria ter jogado fora nos esgotos de Paris apenas a água suja. Eugênio Pedro Giovenardi “precisa recuperar” a fé!



Fontes:

1. “Os Filhos do Cardeal”, de Eugênio Giovenardi. Pedidos ao autor: eugenio.hilkka@uol.com.br

2. Correspondência entre o editor de Ultimato e Eugênio Giovenardi.


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