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Padre redentorista sai da trincheira e se casa com freira teóloga

O Português Luís Guerreiro Pinto Cacais é como Deus o fez: um homem “especialmente sensível à beleza e encantamento feminino”. Mas como harmonizar esse dote com a vocação sacerdotal, dada também por Deus? Desiste do amor e se ordena padre? Ou desiste da vocação e se une a uma mulher pelos laços do casamento?

Não deveria haver impasse nem desgaste emocional nem perda de tempo nessa questão. Porque ambas as vozes — a voz do amor e a voz do ministério — saem da boca do mesmo Deus. Mas, já que a aderência acidental do celibato obrigatório ainda não foi retirada da mensagem original e fundamental, Luís Guerreiro abdicou teoricamente o amor e abraçou praticamente a carreira sacerdotal. Ele mesmo testemunha: “Cônscio de minha fragilidade, entrincheirei-me, em relação à mulher, numa atitude fria, aparentemente invulnerável”.

Nascido em 1929 no norte de Portugal, Luís Guerreiro entrou para o Seminário de Cristo Rei (da ordem dos redentoristas, fundada em 1732), em Vila Nova de Gaia, aos 14 anos. Depois, fez filosofia e teologia na Espanha. Uma tuberculose que tomou dois anos de seus estudos não o desanimou. Ordenado presbítero em 1956, aos 27 anos, tornou-se sucessivamente professor, reitor e diretor do Seminário de Cristo Rei, em Portugal. Sete anos mais tarde, fez um curso de pedagogia no Pontifício Ateneu Salesiano e outro de meios de comunicação social na Universidade Pro Deo, ambos em Roma. Então voltou para Portugal com o encargo de abrir e dirigir o Seminário Maior Redentorista na cidade de Castelo Branco, onde permaneceu por três anos. Em 1967, aos 38 anos, partiu para Angola, então ainda colônia de Portugal, como superior das missões redentoristas naquele país. Na época, os redentoristas tinham seis missões, o grande hospital de Vouga e a paróquia da Sagrada Família na capital angolana. No ano em que os militares portugueses depuseram o governo de Marcelo Caetano e 16 meses antes de Angola tornar-se independente de Portugal (11 de novembro de 1975), Luís Guerreiro deu por encerrado seu trabalho missionário de sete anos na África e voou para o Brasil, depois de dizer consigo mesmo:

Estou farto de viver o homem de renúncia segundo um modelo que me foi imposto e que não aceito mais. A alma é a mesma, a crença e os sonhos também. Quero, porém, senti-los e vivê-los em liberdade, à minha maneira. Rejeito o mito alienante em que a Igreja transformou o padre. Renuncio ao herói para ser um homem comum. Quero assumir minha identidade.

A partir de então, o padre-professor-missionário inverteu a opção anterior: abdicou teoricamente a carreira sacerdotal e abraçou praticamente o amor.

Era difícil viver sem amor, sobretudo como missionário, num país humilhado e dominado por seus patrícios, em meio à solidão provocada pela distância e pela ausência de “Eva”. Luís Guerreiro foi sentindo aos poucos “o drama inútil e desumanizante da solidão clerical, a debilidade do mito do padre celibatário, a ausência e silêncio da hierarquia em face da guerra e das injustiças, a alienação de certas doutrinas, a falta de liberdade na Igreja”. O padre Romeu, seu ex-colega de seminário na Espanha e também missionário em Angola, já havia desabafado com ele: “Sou um homem normal e a solidão é um peso que carrego cada dia com maior dificuldade”.

Foi muito difícil para Luís Guerreiro entrincheirar-se em relação à mulher a vida inteira. Quando estudante na Espanha, conseguiu apagar o fogo da paixão por uma enfermeira sevilhana. Em Angola, esvaziou muitas cisternas para apagar outras paixões. Carmem, também espanhola, missionária como ele, “de rosto lindo mas um tanto pálido”, foi uma tentação. Ela também se sentia sozinha, ela também era como Deus a fez, especialmente sensível à figura masculina. Tanto que, numa viagem de jipe, ao lado de Luís Guerreiro, ambos de hábitos brancos, Carmem não agüentou e pousou repentinamente a mão esquerda sobre a mão direita de Luís, quando ele segurava o câmbio para reduzir a velocidade do carro. Os dois se entreolharam e sorriram, mas ela foi retirando pausadamente a mão.

Rosália foi mais difícil que as duas espanholas. Era uma mulata de traços europeus, em cujo corpo havia “um maravilhoso equilíbrio e sintonia de linhas e formas”. Numa festa, ela “dançava e sorria, sorria e dançava” e, “malgrado o gira-gira de passos e rodopios, parecia olhar em um ponto fixo no auditório, na direção de alguém”. Esse alguém era o quarentão Luís Guerreiro. A moça, ligada à missão, era filha de uma cafuza e de um comerciante branco. Depois de algumas semanas de amizade, certo dia, Luís Guerreiro, sem saber o que estava fazendo, perguntou a Rosália: “És linda! Queres casar comigo?” A resposta da jovem professora o deixou mais surpreso que a própria pergunta: “Não, o senhor deve ficar onde está”.

Outra professora da missão era Carminda. Numa longa viagem de Land Rover, ela, Rosália e mais alguém fizeram companhia a Luís Guerreiro. Depois de muito bate-papo o dia inteiro, quando entrou a noite a conversa esmoreceu e a escuridão encorajou Carminda a se aconchegar mais do missionário motorista. “Destarte”, conta o próprio Luís Guerreiro, “o meu braço roçava-lhe o seio, sempre que um desvio ou curva exigiam um movimento súbito do volante”. Foi necessário recolher a água de todos os rios de Angola para apagar o incêndio. O redentorista não a acompanhou “nessa tangência agônica dos limites”, mas cedeu ao enlevo: “Deixei-me ir num estranho e difuso sentimento de bem-estar e harmonia que, excedendo as barreiras do definível, se confundia no infinito”.

Em 1973, há exatos 30 anos, Luís Guerreiro, como superior da missão, recebeu em Angola mais uma missionária, a irmã Reingard, das Irmãs Beneditinas Missionárias de Tutzing, na Alemanha. Era uma teóloga alemã formada no Regina Mundi, uma instituição agregada à Universidade Gregoriana, e com mestrado pela Gregoriana, em Roma. Ela fora para Angola para trabalhar na Escola de Catequistas de Menongue. Tinha, então, 33 anos e chamava-se Irene Ortlieb.

Luís Guerreiro queria saber cada vez mais quem era a irmã Reingard. Logo percebeu que ela também queria saber cada vez mais sobre ele. Numa viagem a Lubango, o missionário português, acompanhado da irmã Reingard e de uma freira brasileira, um pouco mais velha, fez uma parada em Dongo para os três tomarem uma refeição. Luís Guerreiro e Reingard encontraram-se casualmente no lavabo do restaurante e seus olhares se cruzaram por um instante no espelho. O redentorista explica: “Dois rostos impassíveis se miraram. Nenhum gesto, nem um sorriso sequer. Só o olhar. Nele, porém, duas almas se desnudavam e revelavam: um homem e uma mulher.” Nesse dia de calor e cansaço, Luís Guerreiro começou a poupar as águas dos rios e a sair da trincheira na qual estava havia 30 anos, como ele mesmo registra: “Nessa convergência de olhares, dois destinos se encontraram e começaram a caminhar juntos. Nada seria igual a partir desse instante. Era o abscôndito que irrompia com o encanto e resplendor da aurora.”

A notícia de que seu nome havia sido colocado como candidato ao bispado de Menongue na lista tríplice enviada a Roma não alterou nada. “Há muito”, explica Luís Guerreiro, “se ia degradando em mim a idéia de continuar a ser padre. Não era a minha fé que estava em causa nem tampouco o devotamento que sempre dedicara à Igreja. Era a minha liberdade que se insurgia contra as condições de alienação a que o padre se vê sujeito.”

Luís Guerreiro e Reingard eram duas cabeças pensantes e críticas. Era isso que os aproximava cada vez mais. Os dois entendiam que “endeusou-se a pessoa do papa como se endeusou a dos monarcas de antanho. Caiu o absolutismo dos reis, mas subsistiu e se consolidou ainda mais o do bispo de Roma. Esse continua a dominar sobre uma Igreja submissa, muitas vezes alienada. Salva-se, assim, a unidade, não, porém, a verdade.” Foram essas discordâncias críticas e a falta de sintonia com a instituição que roubaram todo o encanto pelo ministério até então realizado pelo redentorista português e pela beneditina alemã.

Luís Guerreiro nunca se esquece do discurso do bispo angolano Dom Tadeu Milonga, dirigido aos missionários católicos em Angola:

Que é que vocês vieram fazer aqui? Que é que os trouxe para o meio de nós? A compaixão pelo negro? Impressionou-os a nossa pobreza, o atraso das nossas gentes e da nossa cultura? Vão-se, não queremos compaixão... Basta de colonização, de imposições de padrões culturais supostamente superiores aos nossos. Deixem-nos lavrar o nosso próprio destino, escolher o nosso caminho... Deixem a África com os africanos. Não venham mais dizer-nos o que devemos fazer. Não somos crianças. O sofrimento nos fez adultos.

Por determinação superior, Reingard voltou para a Alemanha, em 1974. Um mês depois, o português Luís Guerreiro veio para o Brasil, onde estavam seu pai e um irmão, empresário. Separados por uma grande distância, os dois missionários de nacionalidades diferentes e de sexos opostos deram tempo ao tempo para saber se deveriam reunir as trouxas, as experiências, as insatisfações, as frustrações, as esperanças e os amores. Um ano depois, não na Alemanha nem em Portugal, mas aqui no Brasil, a ex-freira alemã e o ex-missionário português casaram-se no dia 18 de outubro de 1975, ele com 46 anos e ela com 35.

O casal mora em Brasília. Hoje, aos 74 anos, Luís Guerreiro Pinto Cacais é tradutor autônomo e escritor. Presta serviços para as editoras da Universidade de Brasília, Vozes, Nova Fronteira, Santuário e Pioneira. Já Irene Ortlieb Guerreiro Cacais (a irmã Reingard), aos 63, trabalha como secretária na Embaixada da Alemanha. Ambos nunca mais se integraram em qualquer trabalho específico de Igreja, mas participam ativamente da Associação Rumos, que reúne mais de 4 mil padres casados no Brasil. Três anos depois da celebração do casamento, o casal Cacais ganhou o filho único, André Ortlieb Guerreiro Cacais, formado em biologia pela Universidade de Brasília. Hoje André mora em Estocolmo, na Suécia, onde faz doutorado em imunologia.



Fontes:

1. “Caminhos de Liberdade e Solidão”, de Luís Guerreiro (169 páginas), publicado em 1992. Pedidos ao autor: SQS 103 – bloco G – apto. 607, 70342-070 – Brasília, DF

2. Correspondência entre o editor de Ultimato e Luís Guerreiro.


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