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Reflexão — Ricardo Gondim

Inquietações imediatas

Recentemente participei de um encontro de teólogos, embora não seja teólogo. Ali, espicacei a chamada igreja evangélica brasileira com seus disparates teológicos e éticos. Outros me acompanharam, igualmente revoltados. Denunciamos as agendas furadas das igrejas neopentecostais. Um dos participantes chegou a cogitar a convocação de um Concílio para que se definisse qual é o genuíno movimento evangélico, herdeiro da Reforma. Esbravejei mais que todos contra as excrescências dos neopentecostais.

Voltei para casa e comecei a sentir-me um verdadeiro fariseu. Daqueles que se indignam com um til e uma vírgula da lei que foi quebrada, mas que faz enormes concessões no essencial.

Inquietei-me por lembrar que já preguei em ambientes em que seria desconfortável falar contra a injustiça social, que condena milhões a viverem numa miséria vergonhosa. E, para não perturbar, discursei sobre assuntos esterilizados, insípidos e que não perturbam a complacência burguesa. Subiram à tona de minha memória muitas outras ocasiões em que preferi não balançar muito o barco em que velejei por águas mansas.

Confesso que continuo calado diante dos grandes debates e não me engajo pelas causas humanas. É aí que confronto a mim mesmo: Será que me adeqüei ao sistema e acho que já não posso e nem quero mexer em vespeiros? Sinto-me confortável? Começo a pensar que essas acomodações éticas não são um desvio apenas de minha própria vida, mas também do contexto religioso em que vivo. Convivo com uma religião rápida e ágil para denunciar o que é de menor importância, elástica e lenta para detectar o que é inconveniente, e sempre silenciosa no profetismo real e genuíno. Acredito que nem sequer conhecemos o verdadeiro caráter do ofício profético. A camisa de força da teologia sistemática não me deixa ser criativo, as cataratas espirituais do dogmatismo cristão já milenar obscurecem minha visão e o patrulhamento do gueto me ameaça quando quero pensar com liberdade.

A turma da teologia ortodoxa se indigna com as aberrações neopentecostais, mas não se ouve dela uma só denúncia contra o nacionalismo evangélico norte-americano, que abençoou a invasão do Iraque, acreditando numa das maiores mentiras já contadas em toda a história da humanidade (onde estão as armas de destruição em massa?). Essa guerra matou — e ainda matará — muita gente inocente, infelizmente meros efeitos colaterais de um militarismo beligerante e sem propósito. Daqueles que deveriam defender a vida, a paz e a verdade não se ouve nada, percebe-se apenas um silêncio hesitante.

Participo de um meio que denuncia o Benny Hinn e Kenneth Hagin, mas se cala com o fundamentalismo de direita do status quo evangélico; tememos confrontar o quintal de famosos como Franklin Graham, Pat Robertson, John McArthur e Chuck Colson. Quando os militares dominaram a cena política brasileira, fizemos com eles um acordo tácito. Eles nos deixavam pregar, realizar nossas campanhas evangelísticas, e nós os deixávamos em paz, torturando nos porões e enriquecendo as elites. Por que eu tenho dificuldades de me sentar à mesa dos neopentecostais e não tenho escrúpulos para participar da roda dos ricos pastores do Primeiro Mundo, que, sob o manto do conservadorismo teológico, empurram a agenda da direita conservadora americana? Eles certamente lêem na cartilha do Bush. A Maioria Moral batalha contra o aborto, contra os homossexuais, mas defende a pena de morte e apóia o discurso da National Rifle Association, uma das mais anacrônicas entidades que defendem o uso de armas.

Será que nos vemos como guardiões da inerrância, vigilantes da ortodoxia apostólica, contudo perpetuadores de uma religiosidade cada vez mais desconexa do mundo real, cada vez mais insípida?

A grande verdade é que nós, os evangélicos, continuamos nos especializando no irrelevante. Nossa agenda não tem o menor desdobramento na luta contra o preconceito racial ou de gênero. Não alteramos a sorte de milhões de crianças que vivem nas periferias fétidas das metrópoles brasileiras. Porém, convocamos mais fóruns para discutir nossa identidade evangélica e, indignados com aqueles cuja cartilha teológica difere da nossa, esbravejamos nosso furor farisaico.

Acredito que há enormes defeitos genéticos em nossa identidade; a cultura que nos formou vinha com anomalias. Nossa cosmovisão nasceu de uma aberração da natureza espiritual: religião sem alma. Acabo concluindo: adoeceram minha alma e eu não me dou conta sequer de que doença sofro...

Soli Deo Gloria.


Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesta no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Orgulho de Ser Evangélico — por que continuar na igreja e Artesãos de Uma Nova História.
www.ricardogondim.com.br


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