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Frade franciscano troca três nós por três dobras

Existem pecados sexuais e pecados contra o sexo. Os primeiros violam o lugar e a dimensão do sexo. Os segundos violam a santidade e a força do sexo. Foi o Criador quem inventou o sexo e lhe deu a força que ele tem. Deus fez isso antes da queda. O sexo unia o homem à sua mulher e esta ao seu marido. Pecados sexuais e pecados contra o sexo são dois extremos e ambos desfiguram a beleza da criação e trazem conseqüências danosas.

Criado na ignorância sexual (ele nem sequer sabia por que uma viúva não podia ter filhos), o menino cearense Carlos Almeida Pereira cedo aprendeu que “perder-se” na linguagem beata significava despertar-se para o amor e para o sexo. Se um seminarista católico fizesse isso era considerado definitivamente perdido para o celibato e para a vocação sacerdotal. Por essa razão, quando aluno do Colégio Seráfico de Rio Negro, Carlos foi aconselhado a não ler romances como “Iracema”, de José de Alencar, e “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo. Na cabeça dele, desde a infância, sexo era “coisa feia”, “imoralidade”, “safadeza”,“sem-vergonhice”, a tal “lei do pecado” de que fala Paulo (Rm 7.23).

A caminho de Rio Negro, Carlos e outros candidatos ao sacerdócio tiveram de se hospedar num convento em São Paulo, depois de uma longa viagem de navio de Fortaleza a Santos. Ali aconteceu uma coisa da qual ele não se esquece até hoje: uma pessoa do convento aparentando 30 anos de idade entrou em seu quarto e tentou abusar sexualmente dele.

Mais tarde, já no seminário em Rio Negro, Carlos viu um colega de classe apaixonar-se loucamente por outro seminarista de idade menor. Não demorou muito tempo para que ele mesmo, Carlos, começasse a sentir forte afeição e atração por um menino louro de sobrenome alemão, sentimentos logo abafados. Hoje, Carlos sabe muito bem que existem dois tipos de homossexualismo: o homossexualismo profundo e o homossexualismo de superfície. Este floresce sobretudo em ambiente onde não há pessoas do sexo oposto, como internatos, quartéis, prisões etc. Carlos aprendeu isso ao traduzir do alemão o livro “Pessoas Homossexuais”, da Editora Vozes.

Um dos colegas de classe de Carlos chamava-se Paulo. Depois de ordenado sacerdote, este colega doutorou-se em teologia pela Sorbonne e cresceu de tal modo que tornou-se cardeal-arcebispo de São Paulo. Trata-se de Dom Paulo Evaristo Arns.

Carlos tinha uma vocação autêntica e desejava muito ter uma vida abundante. Para romper a monótona cadeia de quedas e confissões, adotou uma estratégia curiosa, que se aproxima muito do ensino de Jesus de que “basta a cada dia o seu próprio mal” (Mt 6.34). Assim, a cada dia ele adiava para o dia seguinte os planos de auto-satisfação. “Com isto consegui quebrar o círculo vicioso, a tal ponto que, nos últimos meses, pude evitar inteiramente as quedas”, explica.

Nascido em Fortaleza em 1923, o último filho “dos que se criaram” (dos doze filhos, apenas cinco sobreviveram), Carlos Almeida Pereira estudou na Casa de São Francisco, em Canindé (Ceará), no Colégio Seráfico de João Pessoa (Paraíba) e de Rio Negro (Paraná), e recebeu a “vestição”, isto é, ingressou efetivamente no noviciado, em 1939, dois meses antes de completar 16 anos. Durante a cerimônia, o padre celebrante o fez vestir o hábito e o capuz franciscano sobre a roupa secular e lhe deu o novo nome de frei Filipe. Em seguida, um dos irmãos raspou-lhe a cabeça, deixando apenas uma tira de uns três dedos de largura de cabelos curtos acima das orelhas e da nuca. A partir daí, o frei Filipe passou a usar uma túnica de casimira cingida por um duplo cordão grosso em torno da cintura. Numa das duas extremidades pendentes do lado direito, o cordão apresentava três nós que diariamente traziam à sua memória os três votos de obediência, pobreza e castidade. O primeiro obrigava-o a entregar sua liberdade pessoal a Deus; o segundo obrigava-o a abrir mão de qualquer bem material, a não receber nem ter dinheiro de espécie alguma; o terceiro obrigava-o a renunciar ao casamento.

Depois de estudar filosofia (“a serva da teologia”) em Olinda e teologia em Salvador, Carlos (frei Filipe) recebeu a ordenação sacerdotal (1945) e tornou-se professor do Seminário da Província Franciscana, em Ipuarana, nas proximidades de Campina Grande, na Paraíba, em cujo posto permaneceu por longos 30 anos. Como professor de física, obteve permissão para graduar-se nessa ciência, primeiro em Recife e depois na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro.

Muita coisa mudou na Igreja Católica com o Concílio Vaticano II (11 de outubro de 1962 a 8 de dezembro de 1965). A essa altura, Carlos era um quarentão. Os três nós do cordão que dividia em duas partes o seu hábito de frade franciscano começaram a folgar cada vez mais. No que diz respeito ao “primeiro” nó (obediência a Deus, manifestada pela submissão ao superior da ordem), ele percebeu que a não-aceitação e a aversão inata aos superiores eram crescentes. No que diz respeito ao “segundo” nó (pobreza), ele foi se decepcionando com a falta de coerência entre o discurso e a prática. No que diz respeito ao “terceiro” nó (castidade), ele ainda se sentia firme, embora, no final dos anos 60, elevado número de confrades tivesse se casado, após ou não a necessária dispensa de votos concedida pelo Vaticano.

Desobrigado da tonsura e do hábito franciscanos pelas novas regras, Carlos deixou o cabelo crescer e vestiu-se à paisana. Recuperou também o nome antigo — deixou de ser frei Filipe para ser frei Carlos. Em 1973, a conselho do provincial, Carlos começou a lecionar em Campina Grande, pertinho de Ipuarana, primeiro no Colégio Estadual de Prata e depois na Universidade Federal da Paraíba. Foi nessa ocasião que ele organizou o Gabinete de Física no Colégio Redentorista e fez licenciatura em física na Universidade Regional do Nordeste. Como o Seminário de Ipuarana entrou em decadência (de 243 seminaristas em 1960 para apenas 64 em 1971), Carlos acabou se transferindo de vez para Campina Grande em outubro de 1974. Não mais fechado dentro de quatro paredes, passou a se relacionar com muita gente e o terceiro nó ficou mais fácil de desatar.

Perto do convento morava o alfaiate Ulisses, que costurava calças, camisas e ternos para os frades — não mais obrigados a usar roupas religiosas —, muito católico e membro do Conselho Paroquial. A filha dele chamava-se Socorro e era professora do Colégio Estadual, onde Carlos também ensinava. Como este tinha carro e aquela não, vez e outra a moça ia para a escola de carona com o frade. Outros encontros acidentais e não acidentais, na paróquia, no convento, no salão paroquial, na escola, no hospital, no Chope do Alemão e até mesmo no circo foram desatando o terceiro e último nó do cordão. Carlos percebeu o “perigo”, mas, a essa altura, já podia afirmar sem medo de errar que “a vocação natural do homem é o casamento e a vocação religiosa, uma exceção”. Chegou também à conclusão de que a possibilidade de casar-se não era “nenhuma opção entre o bem e o mal, entre ser fiel e infiel a Cristo, mas sim entre uma escolha existencial e um compromisso com uma instituição que, no final das contas, por mais respeitável que fosse, era uma instituição humana”.

No dia 10 de junho de 1975 o nó se soltou de vez. Foi quando Carlos contou a Socorro a sua luta interior e a conclusão a que havia chegado, e lhe perguntou: “Então, você quer casar comigo?” A professora, 24 anos mais nova, respondeu de imediato: “Quero”.

Um ano depois, no dia 17 de julho de 1976, já oficialmente dispensado do celibato pelo papa Paulo VI, Carlos Almeida Pereira, então com 53 anos, e Maria do Socorro Guedes de Araújo, com 29, casaram-se na pequena igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Campina Grande. A cerimônia religiosa com efeito civil foi celebrada por dois ex-alunos de Carlos (Frei Arnaldo Motta e Sá e Frei Moisés Rocha de Almeida) e por um colega de seminário (Frei José Maria Limeira Alves).

Nesse dia, Carlos trocou os três nós pelas três dobras, de acordo com o Eclesiastes: “Um homem sozinho pode ser vencido, mais dois [ele e a esposa] conseguem defender-se. Um cordão de três dobras [o marido, a esposa e a bênção de Deus] não se rompe com facilidade” (Ec 4.12).

Ao contrário do que as fofoqueiras queriam que acontecesse, o primeiro filho nasceu exatos nove meses e 21 dias depois do casamento. Recebeu o nome de Filipe, em homenagem ao antigo nome religioso do pai. Depois veio Isabel Luisa.

Por ter convivido no convento com padres alemães de 1939 a 1976, Carlos fala fluentemente o alemão, o que o tornou um exímio tradutor. Desde que se aposentou como professor universitário, já traduziu cerca de 200 artigos e mais de quarenta livros para várias editoras (Vozes, Nova Fronteira, Record, Paulinas, Contraponto).

Carlos Almeida Pereira não é o único padre casado de Campina Grande. Ao todo são umas duas dezenas. O maior contingente é o dos antigos franciscanos.

Hoje com 80 anos (a esposa tem 51), o ex-frade Filipe vive muito distanciado de qualquer atividade religiosa, a não ser um curso de Bíblia que ministra há dez anos. Aliás, foi só aos 21 anos, quando cursava teologia em Salvador (1944), que Carlos fez uma leitura completa da Bíblia. A descoberta da Palavra de Deus como fonte de alimento espiritual só aconteceu 16 anos depois (1960), quando ele lia as Escrituras para consolar a mãe no leito de morte.



Fontes:

1. “Sombras e Luzes do Meu Caminho”, de Carlos Almeida Pereira, publicado em Belém, PA, em 2002. Pedidos ao autor:
Rua Manoel Sérgio de Oliveira, 244, 58102-408 – Campina Grande, PB – tel.: 83 321-0084
e-mail: carlostrad@aol.com

2. Correspondência entre o editor de Ultimato e Carlos Pereira.


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