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Reflexão — Valdir Steuernagel

Eu creio, ajuda-me na minha falta de fé

Foi coisa normal. Coisa de sala de aula. Eu estava ensinando na Faculdade de Teologia Evangélica de Curitiba, do nosso Centro de Pastoral e Missão. No módulo, chamado Construção Teológica, os alunos são desafiados a pensar e expressar de forma articulada a própria fé. Esse exercício, sempre interessante, trata de algo com que normalmente temos dificuldades. Reflete a forma como relacionamos nossa experiência de vida, inclusive nossa chegada à fé cristã, com a nossa teologia, ou seja, como integramos o que vivemos com o que cremos. Fazer isso não é tão natural e muitas vezes o nosso credo tem poucos vínculos com a nossa história e o nosso cotidiano.

Levei no coração, dessa experiência, a rápida conversa que tive com Elaine e Juliana. Eu as menciono com a devida autorização e devo dizer que, ao falarem de si, elas falaram também de mim.

A Elaine veio me dizer que não seria fácil escrever esse credo pessoal à luz da experiência com doença e acidente que tinha vivido. Lidar com a realidade da não-cura e com a atitude de tantos amigos e irmãos que desapareceram na hora da dor e da ausência de “vitória” espiritual não era fácil. Percebi um pouco da sua angústia e estou ansioso para ler o trabalho que ela escreveu como requisito do módulo.

A Juliana veio de outro jeito e falou da impossibilidade de escrever sobre o que ela crê, “pois estou cheia de dúvidas”. Eu a incentivei a escrever sobre essas dúvidas e tentar estabelecer uma relação entre elas e a visão clássica e histórica da fé cristã. Esse é outro trabalho que estou curioso para ver.

Olhei para essas duas jovens com empatia e identificação. Afinal, elas são eu, com o meu sentimento de ambigüidade e carência de respostas. Precisamos aprofundar e enraizar a nossa fé de maneira que ela possa ter uma relação real e profunda com nossas experiências de vida, sejam as cotidianas, sejam as invasivas, aquelas que não nos deixam dormir. Assim evitamos que a nossa experiência de fé tenha um forte toque de aparência e procuramos cobrir a longa distância que existe entre os lábios e o coração, entre as palavras e a vida.

Muitas vezes nossas igrejas, onde encontramos uns aos outros, transformam-se numa espécie de passarela de edição e de engano. Um lugar onde só podemos compartilhar de vitórias, onde temos de viver repetindo que estamos bem e como a vida vai bem. Em casa as dificuldades estão saindo pelos poros; no emprego a instabilidade está gerando uma terrível ansiedade; não conseguimos parar de correr atrás das contas; à noite temos dificuldade de colocar nossos medos para dormir e o nosso coração teima em se incomodar com o silêncio de Deus. Mas esses angustiantes segredos são guardados no cofre das nossas perguntas não respondidas e das situações não resolvidas. E esse cofre é guardado longe do alcance dos irmãos, do grupo de estudo ou dos olhos do pastor. Assim, somos cristãos, mas não sabemos o que fazer com nossas dúvidas. Estamos cercados de irmãos e irmãs, mas nos sentimos sozinhos. Dizemos que Deus cuida de nós, mas carregamos conosco um sentimento de abandono. Afirmamos crer em Deus, mas sabemos muito mais acerca da sua ausência do que da sua presença.

Nos Evangelhos, percebo que Jesus olha para nós de um jeito tranqüilo. Seu olhar não pretende nem pede edição alguma da nossa parte. Ele nos abraça em meio às nossas dúvidas e não se afasta de nós quando não conseguimos acompanhá-lo no que Ele diz e faz.

Lembro-me daquela história em que um homem confuso e fragilizado apresenta a Jesus o seu filho possesso. Mesmo sem conseguir esconder sua relutância, ele se aproxima de Jesus na esperança de encontrar o seu olhar acolhedor, seu toque restaurador e sua palavra transformadora.

Caminhar por entre as linhas e entrelinhas de Marcos 9.14-29 possibilita um encontro com a dubiedade e a fragilidade da nossa fé. Mas a passagem diz que as nossas fraquezas e dúvidas não determinam o encontro de Deus conosco, pois trata-se de um encontro que acontece de lá para cá. Não precisamos enfeitar nem podemos esconder nada, e mesmo assim um sorriso da parte de Deus nos deixa graciosamente encabulados e acolhedoramente abraçados. Eu me coloco ao lado desse pai que já não sabe o que fazer com o filho possesso e então, de mãos vazias e coração ambíguo, apresenta-o a Jesus. Convido a Elaine e a Juliana para virem comigo e me ajudarem a olhar para esse texto e o seu contexto. Poderíamos falar de um quadro de três cores.

A primeira cor é opaca e aparece quando olho no espelho e me confronto com a palidez da minha fé. Como no caso dos discípulos, só posso dizer o que não consigo, o que não discirno bem e o que não entendo. Quando olhamos o texto, vemos os discípulos tentando expressar uma liderança espiritual que eles não tinham. Eles não puderam oferecer ajuda, como denuncia o próprio pai: “Roguei a teus discípulos que o expelissem, e eles não puderam” (v. 18). Encabulado, vejo esse homem erguer os olhos e dizer a Jesus justamente aquilo que eu tanto tento esconder: “Eu creio, ajuda-me na minha falta de fé” (v. 24). E, cabisbaixo, ouço Jesus dizer acerca de mim: “Ó geração incrédula! Até quando vos sofrerei?” (v. 19).

A segunda cor é leve, bonita e saltitante. Ela vem do mesmo contexto e contrasta com a imagem do pai preocupado com seu filho. Agora são as crianças que tomam conta da cena (vv. 33-37). Correm em volta de Jesus, riem sem razão aparente e se sentem profundamente aceitas, amadas e incluídas por Ele. Jesus as coloca no meio da roda e faz delas o centro de compreensão e acesso ao próprio reino de Deus — o seu reino. Elas são o referencial e o modelo. Eu fico boquiaberto e só consigo dizer: “Ah! Então é assim!” E eu, que queria transformar a fé numa coisa de adulto! Questão da lógica, da compreensão e da argumentação. Agora só consigo responder com uma oração: “Senhor, estou viciado na problematização da adultidade! Preciso que me ajude a ser como criança, a confiar, me entregar, crer e brincar como uma criança.” Elaine e Juliana, vocês oram comigo?

A última cor é mais séria. Ela traz sombra para dentro do campo de visão e me diz para não brincar, nem com Deus, nem com o outro. Diz para eu não ser pedra de tropeço para o outro, para o pequeno e para o fraco. Assim, a fé cristã passa a ser uma questão profundamente relacional e se mede no jeito de receber, abraçar e servir ao pequeno e ao fraco, ao doente e ao carente. O evangelista fala disso logo a seguir (vv. 42-48), quando exorta a não sermos pedra de tropeço para quem quer chegar perto de Jesus, seja o pai aflito, seja a criançada alegre e feliz. Nós, pois, somos convidados a chegar lá, aos pés de Jesus, e a convidar outros a se aproximarem dele e a caminharem para dentro do Corpo de Cristo, que é essa igreja de Deus, que tem tanto da nossa cara e do nosso jeito.


Depois de cinco anos na presidência da diretoria da World Vision International, o pastor Valdir R. Steuernagel, teólogo brasileiro e conhecido colunista desta revista, aceitou o convite para tornar-se o representante da organização na área de Engajamento Cristão e Renovação Espiritual em âmbito global. Atuando junto com um grupo de Impacto Cristão, Valdir é responsável por promover e cultivar no seio da organização um espaço de reflexão bíblica, mentoria espiritual e cultivo de uma vida familiar saudável; e, no âmbito global, promover o engajamento de líderes cristãos por meio de conferências, encontros e diálogos.

Valdir assume este ministério depois de muitos anos servindo fielmente como um dos líderes do Movimento Encontrão (movimento de renovação espiritual da IECLB) e particularmente na direção do Centro de Pastoral e Missão e Faculdade Teológica Evangélica de Curitiba, onde continuará dando a sua contribuição.


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