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Reflexão — Bráulia Ribeiro

A relevância da irrelevância

Quando chegamos, a família Abrahamson já estava por aqui há muito tempo. Eram, apesar de estrangeiros, craques em Amazônia, escolados nas malárias, nos piuns, nos rios, nos índios. Mas já não trabalhavam com índios nesta época. Montaram uma missão numa fazenda beira-rio e ali tinham uma escola e uma igreja para a população local. Esta população, a maioria vinda dos rios dos interiores da selva, migrava para a cidade à procura de uma vida melhor e só achava a miséria. Pelo menos na selva não falta comida. Para a população do bairro Nacional faltava e ainda falta tudo.

Seu Arnaldo, o patriarca da família, durante os dez anos em que convivemos com ele, dirigia quase todos os dias um ônibus que transportava as crianças do bairro e da beira-rio para a escola que a mulher dele, dona Joyce, dirigia na fazenda. Ia cedo de manhã, voltava à tarde, e às vezes à noite lá estava ele enfrentando os buracos da estrada barrenta para levar e trazer a turma de mães, pais e meninos catarrentos para a igrejinha que funcionava no mesmo local, pastoreada por seu filho.

Havia dois problemas neste vai-e-vem. Tempos atrás, seu Arnaldo tivera um tumor no cérebro. Foi removido por cirurgia, mas uma parte da frente de sua cabeça ficou sem osso. Debaixo da pele fina, marcada por manchas de sol, podia-se ver o cérebro recebendo suas descargas de eletricidade e sangue, indo pra cima e pra baixo. Não era uma visão agradável. Quando ele não usava boné, criava em nós um sentimento meio que de desespero diante de tanta fragilidade: “Por que um homem destes se submete a esta vida de dirigir ônibus?” Engraçado que essa fragilidade se opunha diretamente à sua figura alta, forte, imponente, americana.

Este homem já havia feito muito mais coisas além disso. Passou vários anos com toda a família numa luta para encontrar uma tribo isolada, os Juma, nos primórdios da colonização da Amazônia, época áurea dos grandes massacres. Os Juma chegaram a ser cerca de 1 milhão de índios. Na época em que seu Arnaldo e dona Joyce serpenteavam pelos rios e selvas atrás deles, eram apenas 300. Com dificuldade, acabaram por encontrar a tribo, ajudando a Funai na atração. Isso significou anos a fio sem nada em volta a não ser mata fechada, separação total dos quatro maiores de seus seis filhos, que já freqüentavam escola em Manaus. Quando finalmente o posto foi estabelecido, seu Arnaldo teve um importante papel, intermediando e aprendendo a língua. Mas os Juma eram inquietos e fugiam. Os colonos ao redor eram medrosos e matavam. E assim a triste história dos Juma em poucos anos estava terminada. Sobraram cinco ou seis, escondidos pelo mato. Seu Arnaldo ainda insistiu por alguns anos, para desistir depois de muito choro e lamento pelo sofrimento do povo que havia escolhido para amar e que tinha desaparecido do mapa e da preocupação dos colonos brasileiros que desvirginavam a selva.

Em meus tempos de peregrinação pelas vilas do médio Purus, eu mesma conheci um dos mandantes do massacre dos Juma. Não me convém lembrar seu nome nem que até hoje ele tem poder político e econômico na região.

Vinte e tantos anos de Juma, selva, o alvo de traduzir a Bíblia. E agora o ônibus. Isso nos leva ao segundo problema, que é mais uma confissão minha que um problema dele. Quando chegamos para nos estabelecer neste Oeste amazônico, nos encontramos com um grupo de missionários antigos na região, alguns já arquejados pelos anos, outros amargos, cansados do muito sol e das muitas chuvas, outros reclusos em suas tarefas missionárias. De alguma forma, a nossa alma jovem esperava uma recepção melhor. Esperávamos uma espécie de suspiro de alívio, como o daquele atleta que corre 200 metros e passa rapidamente o bastão para o outro atleta fresquinho, pronto para voar. Uma parceria com pais e mães na fé e nas aflições, que acabou não acontecendo. Nossa relação com os mais velhos foi marcada por uma indiferença que perdura até hoje.

Em nosso afã de jovens tupiniquins, não nos importamos. Afinal nosso jeito brasileiro de fazer missões não era igual ao deles mesmo. Tínhamos de ser independentes e trabalhar sozinhos para crescer, aprender a pensar e a “missiologar” de nossa própria maneira. Crescemos, fizemos missões entre índios e aldeias ribeirinhas distantes muitas centenas de quilômetros, formamos missionários fiéis a partir dos “Joões e Marias Ninguéns” que Deus nos mandou. Fracassamos com alguns, acertamos com outros.

Enquanto isso, seu Arnaldo dirigia seu ônibus pra cima e pra baixo na estrada barrenta. Anos depois, ele morreu. Passaram-se alguns meses, nos tornamos amigos da dona Joyce. A missão que eles fundaram precisava de ajuda. Começamos um trabalho em parceria. Além disso, um de nossos casais missionários encontrou a última família Juma na tribo onde trabalha. Um homem, umas duas mulheres. Isso os aproximou de dona Joyce. Viram as fotos e conheceram a história de perseverança e dor, que marcaram os 20 anos dos Abrahamson com os Juma.

Quero voltar ao segundo problema que ainda não defini. Todos nós, em nosso desejo de acertar sempre, erramos. Hoje sei que o trabalho do seu Arnaldo, que julgávamos irrelevante e até paternalista, aos nossos olhos missiológicos, era um trabalho de amor. Ele amou pessoas que nós não fomos capazes de amar — nossos vizinhos de estrada. Amou as crianças, que víamos passar na nossa frente e ao nosso lado, como se fossem parte da paisagem. Amou o violento bairro Nacional, que sempre fomos obrigados a cruzar em meio a lamentos e medo. Amou famílias aleijadas, crianças abusadas e prostituídas, homens desocupados e sem esperança, depois que o garimpo se foi da região.

Seu Arnaldo e dona Joyce, com seu ônibus e sua escola, nos deram uma lição sobre o que é o verdadeiro amor. O amor não busca glória nem reconhecimento missiológico nem auto-realização — amor abnegado, que encara rotinas intermináveis e tediosas apenas para se tornar um pouco mais concreto, com cheiro do diesel do ônibus que pára ao lado de uma casa de palha para pegar uma criança, que de outra maneira não teria nem acesso à educação. Amor brotando de um cérebro saltitante coberto por uma fina camada de pele.

Que Deus nos ensine a relevância de sermos irrelevantes aos olhos dos homens, mas dignos de confiança aos seus olhos.


Bráulia Inês Ribeiro é missionária em Porto Velho, RO, onde leciona lingüística e missiologia na Escola de Treinamento Transcultural da JOCUM — Jovens Com Uma Missão.
braulia_ribeiro@yahoo.com


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