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Reflexão — Ricardo Gondim

Os benefícios da guerra

A guerra não é totalmente ruim. Ela contribui em algumas áreas. Depois da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, viemos a ter a penicilina, a propulsão a jato e outros benefícios científicos. A guerra ajuda também em nossos conhecimentos de geografia. Agora sabemos onde ficam as cidades de Basra, Kirkuk e Umm Qasr. Esta recente guerra tem me ajudado muito porque me fez compreender algumas dimensões da vida que me passavam despercebidas.

Depois de tantas mortes eu compreendo...
Por que Albert Camus escreveu sobre a alienação humana e, indignado com a banalização da vida, mostrou-se tão niilista, e por que Sartre via o próximo como a causa de sua náusea. Agora entendo o suicídio de Ernest Hemingway. Ele identificou nas touradas espanholas o sinistro desejo humano de fazer da morte um espetáculo, de reduzir o adversário à humilhação máxima e de tornar o ritual de execução tão previsível que a platéia sinta o gosto da morte antes que ela chegue. Os três testemunharam as atrocidades da guerra de Franco, contemplaram as trincheiras transbordantes de sangue de uma guerra mundial. Perceberam que somos os lobos de nós mesmos.

Depois de tantas mortes eu compreendo...
Por que Pablo Picasso pintou a sua “Guernica”. Aqueles corpos torcidos, desfigurados e feios não faziam tanto sentido para mim. Agora entendo por que faziam sentido para ele, que respirou o ar mórbido de sua Espanha ferida. Picasso contemplou o inferno com um olhar de artista e o retratou com uma dor humana.

Depois de tantas mortes eu compreendo...
Por que os jovens da década de 60 rejeitaram os valores ocidentais. Agora sei por que os filhos da primeira metade do século 20 não toleravam o cristianismo dos seus pais, aquele cristianismo que não conseguia se concretizar em doçura e se contentava com rituais vazios. Era a fé com uma visão colonialista e hipócrita. Eles lembravam que duas bombas atômicas haviam dizimado centenas de milhares de civis. Perceberam que o discurso miúdo de amor e compaixão não se viabilizava no macro. Esse mundo não lhes servia. Desejavam paz e amor.

Depois de tantas mortes eu compreendo...
Por que é preciso manter uma atitude crítica quanto à imprensa e saber discernir a manipulação da máquina de propaganda. Agora entendo como o povo alemão foi seduzido e chegou a acreditar que os judeus eram vermes que precisavam ser riscados da humanidade. Entendo por que a grande maioria dos cristãos alemães se encantou com a eficiência administrativa, econômica e militar do nazismo e se calou quando deveria exercer o seu mandato profético.

Depois de tantas mortes eu compreendo...
Por que Jimmy Carter governou com tanta dificuldade em Washington. Agora entendo por que ele só floresceu em sua humanidade quando se tornou ex-presidente. A máquina e os interesses militaristas são desumanos demais para quem deseja viver o espírito da bem-aventurança: “Felizes as pessoas que trabalham pela paz, pois Deus as tratará como seus filhos” (Mt 5.9, NTLH).

Depois de tantas mortes eu compreendo...
Por que Francis Schaeffer propunha que a igreja deveria ser co-beligerante e fazer parcerias com outros segmentos que defendessem pontualmente os valores do reino de Deus. Agora compreendo que é possível concordar até mesmo com Paulo Coelho, quando ironicamente agradece ao presidente George W. Bush pelo que faz pela humanidade: “Agora que os tambores da guerra parecem soar de maneira irreversível, quero fazer minhas as palavras de um antigo rei europeu para um invasor: ‘Que sua manhã seja linda, que o sol brilhe nas armaduras de seus soldados, porque durante a tarde eu o derrotarei’. Obrigado por permitir a todos nós, um exército de anônimos que passeiam pelas ruas tentando parar um processo já em marcha, tomarmos conhecimento do que é a sensação de impotência, aprendermos a lidar com ela e a transformá-la. Portanto, aproveite sua manhã e o que ela ainda pode trazer de glória. Obrigado porque não nos escutastes e não nos levaste a sério. Pois saiba que nós o escutamos e não esqueceremos suas palavras. Obrigado, grande líder George W. Bush.”*

Depois de tantas mortes eu compreendo...
Por que John Stott propunha que a igreja fosse uma contracultura. Não podemos legitimar processos políticos contaminados pelo pecado. A igreja não pode se posicionar ao lado da espada, e sim da enxada; não justifica termos tanques, e sim arados.

Depois de tantas mortes eu compreendo...
Por que as pedras clamam quando o povo de Deus se cala. Agora entendo o peso dos argumentos de Maurício Pessoa no Estado de Minas em 24 de março de 2003: “Particularmente, não compreendo por que é mais glorioso bombardear de projéteis uma cidade assediada do que assassinar alguém a machadadas. A guerra é aquele monstro que se sustenta do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as cidades, as crianças e os velhos à destruição sem piedade. É a guerra aquela calamidade composta por todas as calamidades. A guerra não é um instinto, mas um invento. Os animais não a conhecem e é pura instituição humana como a ciência ou a administração. Diante dela o pacifismo está perdido e se transforma em pura beatice. Tal como os assassinatos, as guerras invariavelmente não passam de ataques de loucura. Mas, afinal, o que é a guerra? A guerra consiste em fazer o impossível para que imensos pedaços de ferro penetrem na carne viva em nome da honra e glória.”

Depois de tantas mortes eu compreendo...
A grandeza de Mahatma Ghandi, que pregava a não-violência mesmo quando o Império Britânico tripudiava a miséria indiana; a nobreza de Martin Luther King Junior, que não se deixou azedar pelo sistema e pela cultura que baniam os negros do convívio e da riqueza americana; a envergadura de Nelson Mandela, que não insuflou ódios e sim a reconciliação em seu país adoecido por tantos anos de preconceito racial. Agora entendo por que a Bíblia afirma que “são formosos os pés daqueles que anunciam a paz” (Rm 10.15, adaptado).

Depois de tantas mortes eu compreendo...
Por que a fábula do lobo e do cordeiro nunca se desatualizou. Quando o lobo determina matar o cordeiro, esgotam-se os argumentos. Agora entendo por que Jesus é descrito como o Cordeiro de Deus. O Príncipe da Paz não pactua com a lógica dos lobos. Quando os seus discípulos sugeriram que fizesse cair fogo do céu sobre os samaritanos, ele os repreendeu, pois aquele espírito não vinha de Deus.

Depois de tantas mortes eu compreendo...
Por que as mil razões para um povo atacar outro ainda são insuficientes para justificar o pânico de um menino que não consegue dormir com o barulho avassalador de bombas. Agora entendo que a promessa de uma paz futura não justifica a morte daquele idoso que não conseguiu arrastar os pés para fugir do calor do míssil que explodiu a cem metros de sua casa.

Depois de tantas mortes eu compreendo...
Por que Deus se arrependeu de haver prometido a destruição de Nínive. Ele ama as pessoas, e naquela cidade havia 120 mil homens que não sabiam discernir a mão esquerda da mão direita. Agora entendo com mais profundidade por que Ele deu o seu Filho com a missão de salvar, e não de condenar.

Depois de tantas mortes eu compreendo...
Por que devemos orar pela paz.

Soli Deo Gloria.



Nota
*http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u52622.shtml (ipsis litteris.)


Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesta no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Orgulho de Ser Evangélico — por que continuar na igreja e Artesãos de Uma Nova História.
www.ricardogondim.com.br


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