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Colunas — Ponto final

Entra no teu quarto

Os ensinamentos de Krishnamurti estão em voga. Tenho assistido, pela televisão, a palestras de seus discípulos, expondo seus pensamentos, devotados ao resgate e à propagação de sua doutrina. Escolas teosóficas o citam. Também alguns mestres budistas, da ioga e da doutrina zen.

E o que estão a ensinar? Pelo que pude perceber, estão preocupados com uma das enfermidades do homem moderno: a superficialidade. Um homem sem vida interior. Um homem voltado para fora, incapaz de suportar o silêncio, a solitude, o “deserto”. Dessa preocupação, surgem escolas voltadas à prática da meditação, caminho para a profundeza interior, envolvendo o silenciar dos pensamentos, do “ego psicológico”, silêncio esse que propiciará a harmonização de tudo aquilo que não é caótico nem confuso — como o pensamento e o ego —, com o cosmo, entendido esse momento como o encontro com o sagrado, com a religião.

Quedei-me a pensar: têm razão, em sua preocupação. De fato, o homem moderno é voltado para fora, para as coisas, para as ações e realizações, para os bens e seu valor material. Esqueceu-se de sua alma. O silêncio já lhe é insuportável, pois teme um encontro com sua alma, sem saber o que lhe dizer. Apressa-se, então, a ligar a televisão — mesmo que não seja para assistir ao programa —, o rádio, o computador. Isso, se não puder sair rapidamente de casa, ir a um shopping cheio de gente, ou, se for crente piedoso, visitar algum necessitado — tudo, menos ficar sozinho consigo mesmo.

Esses pensamentos me levaram ao meu povo. E pensei: como se darão, na vida de um crente, os processos de arrependimento, perdão ou gratidão — para citar apenas alguns fenômenos centrais da vida cristã — sem vida interior, sem uma conversa franca com sua alma? Como seremos convencidos de nosso erro, ou resolveremos nossas dúvidas, sem o diálogo interno entre o “Grilo Falante” e o “Pinóquio”? Reagiremos aos fatos como néscios, para quem o sábio recomenda uma argola no nariz, pela qual seremos conduzidos para todo lado? De onde virão as ações de graça se não dissermos à nossa alma que o livramento não veio de nosso esforço, mas da parte do Senhor?

Comparando Krishnamurti com Davi, percebi uma grande diferença: Davi, acostumado ao “deserto”, à solitude do pastor, aprendeu a conversar com sua alma. No entanto, não mantinha conversas “a dois”. Sempre incluía um terceiro: Deus. Vi grande vantagem nisso, pois jamais a solidão o levou por caminhos perdidos. A Palavra que ele havia guardado no coração, bem como a presença do próprio Deus, agora lhe seriam guia e companhia nessa conversa com sua alma.

De fato, na dinâmica vida interior desse poeta, ora ele se dirige à sua alma, ora a Deus. A ela diz: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei” (Sl 42.5). A seqüência dessa conversa íntima envolve o Senhor — “lembro-me, portanto, de ti, nas terras do Jordão” (verso 6) —, a quem Davi afirma: “fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo” (Sl 131.2).

Nossa geração, esquecida desse diálogo interno, abre mão de uma das mais ricas disciplinas cristãs: a oração meditativa; e a entrega a quem medita sem orar; a buscar, quase instintivamente, sobreviver em um mundo tecnológico. Sem ela, dificilmente uma experiência, uma exortação, um ensino serão incorporados à nossa vida como algo genuinamente nosso, pessoal.

Estou convencido de que Jesus propunha encontros com nossa alma, ao nos exortar a entrar em nosso quarto e, fechada a porta, orar ao Pai que está em secreto (Mt 6.6). Para nós, seres modernos, apressados e superficiais, esse encontro a três talvez seja mais difícil e temível do que o próprio ato de perdoar.


Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Meta-História — a história por trás da história da salvação e Icabode — da mente de Cristo à consciência moderna.

rubem@amorese.com.br


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