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Reflexão — Valdir Steuernagel

A voz que vem do frio

Já nos disseram que chegar à Noruega no inverno não é a melhor coisa. O inverno neste país é longo e rigoroso. E este ano, dizem, foi especialmente intenso. Estou aqui em Oslo, mas penso no Brasil. Não simplesmente porque continuo vendo as notícias do Brasil, mas também porque creio ser importante que a igreja brasileira vá aprendendo com outras experiências. É verdade que a Noruega é um país muito diferente do nosso. Além de ser um lugar frio, é também um país rico.

A igreja que aqui existe tem um desenho que para nós é não somente estranho, mas de difícil digestão. A grande igreja na Noruega é estatal e luterana. Assim, o rei, o Estado e a igreja representam um casamento que temos dificuldade de ver funcionando bem e de aceitar. As outras igrejas, chamadas “livres”, são pequenas e não têm a experiência de crescimento que experimentamos no Brasil.

Mas este arranjo não significa que a igreja esteja morta. É fato que o nominalismo aqui campeia à solta. A freqüência nos cultos é baixa, porém o país tem experimentado forte avivamento no decorrer de sua história. Ao lado das igrejas estatais, existem numerosos lugares, ora intitulados “casas de missão”, ora “casas de oração”. Enquanto as igrejas representam o espaço do clero oficial, estas “casas” representam o espaço do leigo e da ministração espiritual mais profunda. O domingo de manhã é dedicado à igreja, mas o estudo bíblico, a reunião de oração e os encontros de evangelização e edificação acontecem nessas casas especiais. Além disso, existem no país muitas agências missionárias e milhares de grupos de missão. Alguns funcionam há mais de cem anos, reúnem-se mensalmente e mantêm vivo um compromisso de retaguarda com uma missão ou um missionário em algum lugar, que pode até ser o Brasil.

A nossa experiência aqui, portanto, está indo além do gelo, que teima em não derreter, mas nos permite ver e aprender muitas coisas. Permite-nos olhar para uma realidade e pensar na outra: a nossa realidade.


Portas abertas e portas fechadas

Faz anos que escutei: “Esta é a hora de Deus para a América Latina” — uma expressão que mastiguei por muito tempo, sem saber bem se podia concordar. Mas hoje estou em paz com essa afirmação, desde que a gente não se orgulhe dela. Tenho percebido que é verdadeira e expressa uma oportunidade. Afinal, esta é uma hora de evangelização fácil no nosso continente. É uma hora fértil para o estabelecimento de novas igrejas entre nós. Quase sempre, a firme decisão de fazer alguma coisa é o suficiente para que isso aconteça. Se uma igreja local decide implantar uma igreja noutro lugar, o resultado depende muito mais

da dedicação de quem a implanta do que da reação do lugar, que é quase sempre relativamente positiva. Mas aqui na velha Europa isso nem sempre acontece. O chão aqui soa duro, as pessoas são mais céticas e a igreja parece ser considerada uma “coisa” do passado.

A Europa de hoje é um campo missionário difícil. É um lugar onde se encontram muitas portas fechadas. A sociedade olha para a igreja sem esperança, a considera uma grandeza do passado, destituída de respostas para o futuro e para a nova geração. E temos de admitir que a própria igreja é uma das causadoras dessa realidade. Ela integra a cultura local de forma tão intestina que não consegue articular uma palavra que represente esperança para a sociedade. Tornou-se estrutura e cultura, tradição e costume.

Já estive na Europa algumas vezes. Tenho conversado com pessoas e falado em encontros e conferências. Celebro as forças vivas da igreja daqui e honro os seus esforços missionários. Mas sinto no coração um peso pela igreja européia. Compartilho da sua dificuldade de sair do marasmo e de encontrar caminhos de alegria e de esperança.

Quando se olha para a história de vários países europeus não é muito difícil concluir que as portas estiveram abertas ontem, mas estão emperradas hoje. Olho então para a América Latina e penso na hora de oportunidade que Deus nos tem dado. Estamos vivendo esta hora com zelo, alegria e responsabilidade? Estamos honrando as portas abertas de hoje e edificando uma igreja que continue crescendo amanhã, que represente esperança para a nova geração e que seja

significativa para a sociedade, especialmente para os pobres e pequenos?

Portas abertas são sempre uma graça de Deus e nunca podem ser encaradas como óbvias. Só podem ser adentradas com o sagrado sentimento de temor ao Senhor.


Buscando o encontro entre o rito e o significado

Somos mais rotineiros do que imaginamos. Uma geração acaba fazendo as coisas de forma bastante parecida com a anterior. As coisas na vida são simultaneamente simples e complexas; simples, porque a natureza humana é a mesma e os caminhos que escolhemos são bastante comuns; complexas, porque temos uma grande facilidade de nos enredar nos fios da nossa própria caminhada.

É normal que também a igreja crie suas formas e estruturas, seus ritos e costumes. Afinal, ela precisa de algum tipo de calendário, programa e forma — disso ninguém consegue fugir, por mais diferente que seja a porta dessa entrada para a estrutura e o rito. Quando começamos, muitas vezes não queremos nada disso, mas o que acabamos criando nem sempre é tão diferente ou melhor.

A igreja brasileira tem encontrado suas formas: um jeito de se estruturar e um ritual que dê significado ao nosso encontro e ao encontro de Deus conosco. É possível que isso aconteça de forma tranqüila e significativa? Haverá um jeito de fazê-lo de tal forma que a semente da renovação seja plantada na nossa caminhada histórica?

Na igreja da Europa, as estruturas que hoje existem procuraram responder a um desafio que se viveu ontem; um jeito de dar corpo à obediência de fé, em muitos casos. Hoje, por exemplo, não vemos muito sentido numa igreja estatal, mas quem está dizendo isso é um brasileiro. A igreja européia se configurou desse jeito porque os cristãos eram muitos, impactaram e forjaram a sociedade e queriam encontrar uma forma em que a fé cristã marcasse toda a vida, inclusive a vida pública. Muitos anos se passaram e hoje se percebe que a estrutura ficou, mas o conteúdo parece ter ido embora de muitos lugares. Essa mesma estrutura parece ter dificuldades de apelar para o coração das pessoas e para a nova geração, embora ainda cumpra um papel na sociedade. Ou seja, as pessoas procuram a igreja para a realização dos ritos religiosos, o que é importante. Mas isso não significa que elas tenham qualquer outra participação na vida comunitária ou vejam na igreja um significado profundamente relacional, ou que ela seja portadora de uma mensagem salvífica que as pessoas precisam conhecer e abraçar. O rito, que não deixa de ser importante, ficou, mas o significado que o moldou foi embora e não é desejado de volta.

É muito fácil para nós, que vivemos numa igreja jovem, criticar e descartar esse modelo de sociedade e propor algo mais vivo e rápido. Aliás, esta me parece ser uma das coisas que a igreja daqui precisa: um pouco do nosso barulho, da nossa adrenalina, da nossa inventividade e da nossa relacionalidade. O que não significa dizer que nós não estejamos construindo nossos ritos e formas. Nem que, com o passar dos anos, o significado que cria o rito vai continuar lhe conferindo legitimidade. No decorrer da história e no passar das gerações, os ritos tendem a permanecer por muito mais tempo do que o significado.

Precisamos aprender com os outros e com a história. Mas não somente para repetir, pois a história não é determinista, por mais que acabemos repetindo as coisas. O desafio que experimentamos hoje visa encontrar formas, estruturas e ritos que mantenham e alimentem o significado. Aliás, o desafio maior é vivermos o significado de tal maneira que a próxima geração tenha sede de significado, e não apenas pratique o rito destituído de significado. Estamos fazendo isso? Estamos ouvindo nossos filhos e dando espaço para as novas gerações?



(Continua na próxima edição.)


Valdir Steuernagel é pastor luterano e professor no Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas.

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