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Reflexão — Valdir Steuernagel

Os olhos em busca de “outro” horizonte

Cheiro de festa no ar!

Outro dia um amigo me pegou de surpresa ao falar do “efeito Lula”, do significado e do impacto que a sua eleição como presidente do Brasil tem para a nossa nação e o nosso povo. Ao ouvi-lo dizer que o resultado da nossa eleição presidencial teria o valor e o significado que a abolição dos escravos teve para o nosso país e para a nossa história, eu achei que ele estava exagerando. Provavelmente porque eu nunca havia pensado nesses termos. Percebi, então, que estávamos diante de algo significativo. De algo profundo. De algo intenso.

Não estou querendo entrar em nenhum mérito quanto a candidatos ou partidos. Não tenho intenção político-partidária. De um ponto de vista muito humano, fico pensando no Lula, imaginando a agonia pela qual ele estará passando ao se confrontar, cada vez mais, com o real e difícil quadro brasileiro, as suas promessas de campanha política, as demandas do seu partido e a expectativa de toda uma nação de muita gente e de muitíssimos pobres. Mas que há um clima de festa no ar, isso é inegável.

Não sabemos ao certo como a história avaliará este momento nacional que estamos vivendo, nem qual será o nosso próprio comportamento e avaliação dentro de alguns anos. Mas o fato é que a nossa nação viveu uma coisa intensa e bonita. Fazia tempo que não se via uma manifestação popular tão popular! Multidões reunidas com tanta espontaneidade e expectativa.

Parece que o Brasil inteiro está descobrindo Lula e Marisa. Nem as revistas Gente e Quem querem ficar de fora. Até parece (me desculpem a brincadeira!) que todo o Brasil foi Lula desde criancinha!



Não quero estragar a festa, mas...

Todos sabemos que a festa vai acabar. Que o novo governo tomará contato com a realidade e que não poderá atender as demandas de tantos brasileiros que nele colocaram suas expectativas. A agenda está simplesmente sobrecarregada. No entanto, todos esperamos que a agenda deste governo faça diferença – positiva e construtiva – para o povo brasileiro, especialmente para os mais pobres.

Há um jeito bíblico de olhar para este momento. Há uma forma saudável e uma forma doentia de se canalizar a esperança. Na forma doentia, canalizamos a nossa expectativa numa pessoa, numa transição, num momento político, numa plataforma de governo. Então sobrecarregamos o outro de expectativas, muitas até impossíveis, e colhemos as nossas próprias frustrações.

A Bíblia nos ensina que este é um caminho perigoso, superestimado e até mesmo enganador. O autor do Salmo 146 coloca isso de uma forma muito clara e intensa: “Não confiem em príncipes, em meros mortais, incapazes de salvar. Quando o espírito deles se vai, eles voltam ao pó; naquele mesmo dia acabam-se os seus planos” (Sl 146.3, 4, NVI).

Não estou querendo estragar a festa de ninguém. Mas encarar a realidade é muito libertador, seja para o governo, seja para a população. Precisamos, sempre, desconfiar de nós mesmos. Das nossas propostas e dos nossos planos. Da nossa possibilidade e da nossa intencionalidade. Convém lembrar que o máximo que podemos fazer, quando queremos fazer o máximo, é sempre um cobertor muito curto, tendo em vista toda a necessidade humana. Por mais respostas que ofereçamos, no campo da realidade humana, tanto mais saberemos que elas não suprem todas as necessidades da vida humana, seja em sua expressão pessoal ou coletiva.

O salmista sabe de tudo isso. Ele nos mostra a pequenez e a relatividade, tanto da nossa natureza como das nossas propostas políticas, econômicas ou mesmo religiosas. Somos pó e voltaremos ao pó, o que nos fala da nossa natureza finita como seres criados por Deus. Além disso, somos, nas palavras do profeta Isaías, pessoas de “lábios impuros” vivendo no meio de um “povo de lábios impuros” (Is 6.5); e isso nos remete à nossa pecaminosidade.

Esta me parece ser uma contribuição importante que podemos dar neste momento. Ou seja, devemos relativizar a expectativa para torná-la mais humana. Mais realista. Mais executável. Assim, tornamos a esperança mais real e as possibilidades de mudança mais administráveis.

Há outra palavra, no entanto, que precisamos saber pronunciar: é a palavra da esperança que vem dos olhos fixos em Deus.



Olhando além das possibilidades e do nosso horizonte

O salmista não é um mero desconstrutor de esperanças. Ele diz não para poder pronunciar o sim com mais significado e relevância. O sim que ele pronuncia está carregado de uma transcendência que se mostrou essencial na história. Ele diz: “Como é feliz aquele cujo auxílio é o Deus de Jacó, cuja esperança está no Senhor, no seu Deus, que fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e que mantém a sua fidelidade para sempre!” (Sl 146.5, 6, NVI).

Aqui somos todos iguais diante de Deus e todos podemos nos saber criados e cuidados por Ele. Olhando para o Deus que não apenas criou todas as coisas, mas que tem manifestado o seu zelo, o seu carinho e o seu propósito no decorrer da história, a nossa vida ganha um novo significado. Os nossos olhos aprendem a olhar para além das nossas próprias propostas e encaminhamentos. Além dos nossos planos, intenções e programas de ação. O sim do salmista nos remete aos braços de Deus. Encaminha o nosso olhar para o horizonte de Deus e nos permite olhar o desenrolar da história desde a perspectiva da soberania e do cuidado de Deus. Precisamos deixar isso claro mais uma vez hoje. Tanto para nós como para o outro.



O horizonte de Deus constrói o nosso presente

O salmista ainda não terminou, o que é fundamental. Afinal, Deus não nos convida para algum tipo de “atitude zen”, de quem só quer sentir-se bem e não se importa com o outro e o seu meio ambiente. Muitas vezes, no decorrer da história, os cristãos foram chamados de escapistas. Têm sido caracterizados como pessoas que só se preocupam com o futuro e não se dispõem a arregaçar as mangas frente aos desafios do seu momento e contexto de vida. Este tipo de atitude não pode ter espaço em nossos dias.

Convém acentuar também que os cristãos não podem ser meros desconstrutores de esforços de esperança. Desconstrutores de vida. Gente que só sabe dizer não ou “não é bem assim”. Gente que é especialista em relativizar sonhos, apresentando um atestado de conformidade com as injustiças e os sofrimentos do mundo.

O salmista passa a descrever um pouco mais da natureza divina, fazendo-nos perceber onde Deus está e o que Ele está fazendo. A ação de Deus nos fala da sua natureza, da sua atuação histórica e das suas prioridades. Assim, pois, o salmo continua: “Ele defende a causa dos oprimidos e dá alimento aos famintos. O Senhor liberta os presos, o Senhor dá vista aos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama os justos. O Senhor protege o estrangeiro e sustém o órfão e a viúva, mas frustra o propósito dos ímpios” (Sl 146.7-9, NVI).

Que coisa interessante! Intrigante! Deus nos convida a relativizar os nossos planos e as nossas ações e a olhar para Ele, confiar nele e perceber o que Ele tem feito na história e nas nossas vidas. Mais do que isso, Deus nos diz quem Ele é e nos deixa ver com quem Ele está e o que Ele faz — um sutil convite para reavaliarmos os nossos sonhos e projetos à luz da sua ação e do seu engajamento ao lado dos que detêm os maiores índices de carência, falta de suprimento, espaço de vida e colo.

Precisamos relativizar a esperança em torno deste novo governo que toma posse e se encaminha a conduzir os rumos do nosso país por 4 anos. Mais do que isso, a nossa postura cristã, inspirada pelas Escrituras, deve ser livre e desinteressada. Devemos, inclusive, estar prontos para exercer o ministério da crítica construtiva. Isso é bom e necessário, tanto para os que exercem o governo como para os governados, e particularmente o povo de Deus que se chama pelo seu nome.

Mas não podemos relativizar que se dê demasiada atenção ao pequeno, ao pobre e ao sofredor. Não precisamos temer que se dê excessivo cuidado aos problemas humanos, sociais e econômicos da nossa gente. Na atenção a esses desafios, no zelo para com essas demandas e no carinho para com esses grupos humanos carentes e solitários, nunca se peca pelo excesso. Aliás, Deus nos diz que tal atenção é prioritária e que Ele mesmo faz isso. Se quisermos segui-lo, esse é o lugar onde devemos estar. Essa é a forma saudável de vivenciarmos a esperança, hoje e amanhã.




Valdir Steuernagel é pastor luterano e professor no Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas.

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