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Colunas — Política

Os evangélicos e a nova realidade política

Paul Freston

Eleições comentadas e evangélicos comentados

Não foram só os brasileiros que acompanharam as eleições no Brasil em 2002. O mundo também se interessou pelo fato de um partido de esquerda tomar o poder em uma das democracias mais importantes do Terceiro Mundo. A mídia internacional até se interessou pela existência no Brasil de uma esquerda evangélica articulada, e percebeu que os evangélicos como um todo tiveram um papel menos conservador do que muitos esperavam.

As reportagens sobre religião e eleições praticamente se resumiram a notícias sobre evangélicos. Mas essa visibilidade não se traduz ainda no papel determinante que muitos evangélicos almejam. Como a margem de vitória no segundo turno foi grande, obviamente o voto evangélico não foi decisivo. E, no primeiro turno, o voto evangélico foi responsável não só por Garotinho ter chegado tão perto do segundo lugar, como também por ele não ter ido mais longe! Os evangélicos, em sua maioria, decidiram que o mais importante não é ter um “presidente evangélico”.



Vergonha de ser evangélico

Como sempre acontece em épocas eleitorais, houve momentos em que senti vergonha de ser evangélico, por vários motivos. Primeiro, por causa dos boatos absurdos circulados para convencer as pessoas a votarem, no primeiro turno, em Garotinho e, no segundo turno, em Serra.

É plenamente legítimo incentivar o voto em Garotinho ou em Serra com boas razões. Mas os boatos infundiam o medo. Ou eram pura mentira, ou confundiam as esferas de competência. Se os responsáveis agiram por ignorância ou de má-fé, não sei. Com certeza, houve evangélicos que, por ignorância, os levaram a sério. Certamente, Garotinho não queria que as pessoas votassem nele movidas por crendices e mentiras; e a sua campanha presidencial de 2006 bem poderia começar com uma declaração clara de repúdio a tais estratégias. A comunidade evangélica precisa desenvolver um consenso em torno de estratégias eleitorais aceitáveis, de forma que essas manifestações doentias sejam unanimemente repudiadas e ridicularizadas. Só assim nos veremos livres de reportagens na grande imprensa que dão a entender que a maioria evangélica acredita, por exemplo, que homem pode engravidar.

Mas senti vergonha também com os rumores a respeito de quantias em dinheiro pagas para que determinadas lideranças evangélicas aderissem a um certo candidato. No primeiro turno, falava-se em valores muito altos (e em não-pagamento desses valores, provocando reviravoltas no apoio dado). No segundo turno, falava-se em 500 mil, 1 milhão de reais… Os rumores não devem ter fundamento, pois provocariam uma revolta dos pastores das denominações envolvidas. Ou será que eles acham que, desde que o dinheiro seja colocado “a serviço do evangelho”, não há problemas? Como diz Romanos 1, pior do que quem faz é quem aprova.

As adesões não devem ter rendido muito para o candidato agraciado, pois as denominações estavam divididas – alguns líderes querendo uma opção oficial pelo outro candidato e outros pela neutralidade. Mas, apesar disso, essas adesões trazem vergonha para a causa evangélica. O problema não é que o líder tenha suas preferências políticas. Mas uma coisa é um líder declarar sua preferência eleitoral; outra é fazer um acordo com um candidato, supostamente comprometendo o voto dos membros. Isso é traição à causa de Cristo, por várias razões. Primeiro, porque esses líderes inflacionam, de forma vergonhosa, as estatísticas das suas igrejas. Em segundo lugar, porque o apoio é dado em troca de alguma coisa (e a população sabe disso). Em terceiro lugar, porque o líder engana o candidato apoiado, dizendo que controla o voto dos membros quando na realidade não controla. E, finalmente, porque tenta manter os membros na imaturidade numa área importante do discipulado, que é a participação cidadã. Saiu em um jornal que um líder denominacional falou que “não existe a possibilidade de liberar os membros para votarem em quem quiserem” – uma frase que retrata bem as pretensões desses homens que querem ter “domínio sobre a vossa fé” (2 Co 1.24), em vez de nos levarem à liberdade e maturidade cristãs.

Graças a Deus, quando o sentimento de vergonha estava ficando insuportável, apareceu a Associação Evangélica Brasileira (AEVB), cumprindo admiravelmente o seu papel de voz ponderada, ao resgatar a imagem evangélica tão conspurcada por alguns líderes denominacionais.



A eleição presidencial evangélica: Garotinho versus Lula

A eleição destruiu dois mitos a respeito dos evangélicos: de que votam em bloco e de que são um reduto conservador.

Pela primeira vez, havia um forte candidato evangélico a presidente da República, mas apenas 37% dos evangélicos votaram nele. É verdade que proporcionalmente ele foi muito mais votado entre evangélicos do que entre não-evangélicos. Mesmo assim, ficou longe do índice com que sonhava (e que talvez lhe desse uma vaga no segundo turno). E isso, apesar de a composição social evangélica favorecer bastante o voto em Garotinho, e não o voto em Lula. Ou seja, na população em geral, Lula foi mais votado nas classes mais altas e entre os homens, ao passo que Garotinho foi mais votado na classe baixa (e os evangélicos são desproporcionalmente de classe baixa) e entre as mulheres (e a comunidade evangélica é desproporcionalmente feminina). Acrescente-se a isso o fator corporativo (o apelo de um “presidente evangélico”) e explica-se a grande votação evangélica em Garotinho.

Diante disso, o voto evangélico em Lula foi surpreendentemente alto: mais de 6 milhões no primeiro turno. O voto evangélico ficou dividido entre o candidato evangélico e Lula. Só o eleitorado evangélico pró-Lula resistiu ao arrastão da candidatura Garotinho, que tanto debilitou as candidaturas de Serra e Ciro no meio evangélico. Poucos dias antes do primeiro turno, o Datafolha revelou que 37,5% dos evangélicos votariam em Garotinho, 31,5% em Lula, 14,7% em Serra e 8,6% em Ciro. O fator classe social se revelava na diferença entre pentecostais (mais Garotinho) e evangélicos históricos (mais Lula).

Logo após o primeiro turno, recebi um telefonema de um leitor de Ultimato, irado com a eliminação de Garotinho. Como não estava em casa, ele transmitiu ao meu filho todas as suas críticas aos meus artigos. Segundo ele, eu deveria ter incentivado o voto em Garotinho como candidato evangélico, pois “não porás sobre ti um que não seja dentre teus irmãos”. Infelizmente não ligou de novo, pois eu queria perguntar-lhe se votaria nulo no segundo turno, já que não havia mais candidato “irmão”, e se votou nulo em 1998 e 1994. E se em 1989 pretendia votar no micro-candidato evangélico Armando Corrêa!

No segundo turno, um leque amplo de líderes evangélicos declarou sua preferência por Lula. Para alguns, o momento marcou a superação de antigos preconceitos anti-Lula. Outros talvez tenham percebido o desejo de mudança entre suas bases eclesiásticas. E ainda outros foram, provavelmente, motivados pelo velho adesismo evangélico, de estar do lado certo do governo, seja quem for ele.



Destaques evangélicos na eleição

Além da candidatura de Garotinho, sua mulher Rosinha, também evangélica, se elegeu governadora do Rio de Janeiro no primeiro turno. Destino diferente tiveram os três candidatos evangélicos ao governo de São Paulo, cuja votação somada foi ínfima.

Para o Senado, Marina Silva, a petista que se converteu há 6 anos, se reelegeu em primeiro lugar no Acre; e Magno Malta alcançou o primeiro lugar no Espírito Santo. Mas o que mais chamou atenção foi a eleição do bispo Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus, no Rio de Janeiro.

O destaque evangélico na eleição para deputado foi a dra. Havanir, do PRONA, que se elegeu deputada estadual em São Paulo com 670 mil votos.



A nova bancada evangélica no Congresso

Os jornais noticiam a eleição de 60 evangélicos para o novo Congresso. Até agora, consegui detectar 54 deputados federais e quatro senadores. Dois terços foram eleitos como candidatos oficiais de suas denominações, um modelo que traz muitos malefícios. Mas, em comparação com bancadas evangélicas anteriores, a bancada eleita provavelmente dará maior ênfase em questões sociais. A metade foi eleita em partidos que estão em oposição ao governo FHC. Com relação ao novo governo, 39 dos 58 congressistas estão nos partidos que provavelmente darão suporte a Lula (uma média mais alta do que no novo Congresso como um todo).

A Assembléia de Deus (Missão) se organizou muito mais do que em eleições anteriores, em franca imitação da Universal. Aumentou para 16 os seus congressistas. A Universal também aumentou, mas ficou aquém do que esperava. A grande novidade da Universal em 2002 foi ter elegido seu primeiro senador. Os mais de 3 milhões de votos de Marcelo Crivella obviamente incluíram muitos de evangélicos de outras igrejas e de não-evangélicos. Crivella foi a escolha perfeita para ser o primeiro político da IURD num cargo para o qual os votos dos membros da igreja não bastam. Ele representa a face mais socialmente “respeitável” da Universal, e seu trabalho social foi importante na conquista dessa respeitabilidade. É necessário ter um papel social ousado para conseguir uma aceitação política maior: esta é a lição que a IURD aprendeu quando fundou a Associação Beneficente Cristã e, mais tarde, a Fazenda Canaã. Outros grupos evangélicos que almejem um papel político maior do que a simples eleição de deputados “despachantes de igreja” deverão seguir o mesmo caminho. É um sinal positivo: o próprio sistema político está obrigando a política evangélica a se tornar menos interesseira e mais voltada para o bem-estar da população.

Como será o primeiro senador da IURD? Terá de olhar para os seus eleitores, que incluem muitos não-evangélicos. Por isso, não poderá estar muito ligado a interesses meramente institucionais da Universal. Terá de provar que a IURD é capaz de produzir políticos para o país, e não só para a igreja. O seu desempenho nesse sentido será fundamental para mostrar que políticos da Universal têm condições de concorrer a cargos majoritários.



O MEP diante do novo governo

O novo Congresso terá três membros do Movimento Evangélico Progressista (MEP): a senadora Marina Silva, o deputado Walter Pinheiro (muito bem votado na Bahia) e o deputado Gilmar Machado, de Minas Gerais. Outros dois ficaram numa primeira suplência: Wasny de Roure, no Distrito Federal, e Joaquim Brito, em Alagoas.

As eleições representaram a realização parcial do sonho que o MEP acalenta desde sua formação em 1990. Mas o MEP é comprometido com um projeto de transformação do país e com um projeto de amadurecimento político da igreja. Embora a grande maioria de seus integrantes venha votando em Lula e esteja otimista quanto à nova situação, isso não significa que o MEP considere concluída a sua missão, nem que vá apoiar cegamente o novo governo. O compromisso básico do MEP, enquanto movimento, é com a transparência democrática, justiça social e honestidade administrativa, mais do que com qualquer candidato, partido ou governo. Além do mais, a visão bíblica do ser humano nos ensina que os homens e os partidos podem decepcionar, seja pela incompetência, seja pelo efeito corruptor do poder. O que importa é a visão, e não o portador da visão, que pode até mudar ao longo do tempo.



O futuro da política evangélica

O país se vê diante de uma realidade inédita. Todos os atores políticos levarão tempo para se adequar a essa realidade. Como os evangélicos vão se posicionar dependerá, em boa parte, do desempenho do novo governo. Mas tenho certeza de que nenhum líder evangélico está realmente preocupado com um possível fechamento ou “perseguição” de igrejas.

Se o governo Lula for razoavelmente bom, a cultura política do país passará por modificações em que antigas práticas passarão a ser vistas como inaceitáveis, e antigas preocupações, como irrelevantes. A comunidade evangélica não está muito bem preparada para isso, mas está melhor do que alguns anos atrás. A história talvez mostre que dois fatores colaboraram para transformar parcialmente a face pública dos evangélicos e, assim, salvar o seu bom nome em um Brasil politicamente mais maduro e socialmente mais justo. O primeiro fator foi a expansão das igrejas nos anos 90, abarcando novos setores sociais, inclusive militantes de esquerda. E o segundo fator foi o trabalho sério e paciente do MEP, caracterizando a existência de uma política evangélica comprometida com a justiça social e as normas democráticas, e não com interesses particulares ou eclesiásticos.

Outro efeito de uma possível mudança de cultura política causada por um bom governo Lula seria menos espaço para idéias messiânicas a respeito dos evangélicos como salvadores políticos da pátria.

A nova realidade do país será de interesse global. O tamanho da comunidade evangélica e a existência de uma esquerda evangélica articulada significam que a atuação evangélica também despertará interesse de cristãos em outros países. Para a comunidade evangélica do Terceiro Mundo, os evangélicos brasileiros têm a responsabilidade de ser pioneiros, mostrando a possibilidade de mudanças sociais substanciais em países pobres, com o apoio da igreja. Para os cristãos do Primeiro Mundo, principalmente dos Estados Unidos, os evangélicos brasileiros podem ter um papel importante como grupo de pressão transnacional em favor de políticas internacionais que ajudem a transformação brasileira. É importante que os evangélicos americanos dialoguem com os seus irmãos brasileiros e entendam os seus anseios, não enxergando o novo governo como um “novo eixo do mal” (idéia já expressa em carta para George Bush, escrita por um senador republicano muito querido da “direita cristã”), nem pelas perspectivas estreitas dos organismos financeiros internacionais.

A comunidade evangélica brasileira, portanto, pode contribuir para a transformação do país, não só por meio de sua ação direta aqui, mas também ajudando a diminuir a oposição externa. Como parte de uma comunidade global, que transpõe países pobres e ricos, podemos educar os nossos irmãos, incentivando-os a fazer um lobby favorável ao Brasil junto ao seu governo e aos organismos internacionais. Não deve ser coincidência o fato de que, depois dos Estados Unidos, a maior comunidade de evangélicos praticantes do mundo está justamente no Brasil; e o Brasil agora está democraticamente optando por uma sociedade mais justa do que aquela criada em todas as partes pela globalização neoliberal. Se der certo, será um modelo de esperança para o Terceiro Mundo; e se os evangélicos brasileiros tiverem um papel responsável nisso (local e globalmente), se tornarão exemplo e esperança para a multidão cada vez maior de evangélicos espalhados pelos países pobres do globo.




Paul Freston é doutor em sociologia e professor na Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo. É autor de, entre outros, Evangélicos na Política Brasileira – história ambígua e desafios éticos.
pfreston@sigmabbs.com.br






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