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Reflexão — Valdir Steuernagel

Diagnóstico e processamento

O artigo O vírus da destruição e o gene da construção (“Reflexão”, mar./abr.) nasceu sob o impacto do seqüestro e assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel. A essa morte seguiu-se uma espécie de comoção nacional e uma ira coletiva. A nação brasileira queria dizer basta. Até os políticos deram uma mobilizada nas coisas e houve arroubos verbais que indicavam a necessidade de se abordar seriamente a crise da segurança nacional. Entretanto, o problema continua, a agenda das prioridades políticas foi estabelecida e os políticos estão muito preocupados com as eleições de outubro. O fato é que precisamos fazer da segurança um item prioritário de todos nós. Assim, quem sabe até os políticos procurem olhar para a situação com seriedade e com vontade política transformadora.

Neste artigo eu proponho dar continuidade a esse assunto. Inspirado no texto bíblico, quero perguntar pela atitude do cristão diante da crise, da dificuldade e do sofrimento. A personagem bíblica que irá nos acompanhar é Neemias. A sua relevância vem do fato de ele precisar optar entre manter a sua posição confortável no palácio real persa ou arregaçar as mangas e fazer algo na sua decrépita Jerusalém. Para fazer alguma coisa, no entanto, é preciso querer saber, e saber, o que está acontecendo.



O cidadão do reino de Deus não é avestruz

Dizem que o avestruz tem um “estômago de ferro”, capaz de absorver qualquer coisa. Outra característica dessa ave é a estranha atitude de enfiar a cabeça na terra diante do perigo; assim ele nos diz que não quer ver nem saber.

Há muito cristão-avestruz por aí. Enfia a cabeça na terra para não precisar, ou por não querer, ver nada. E às vezes a igreja acaba sendo esse lugar onde “nos enfiamos” para não ver nada, para não participar dos conflitos do mundo. A própria igreja, como estrutura, pode até fomentar essa atitude. Ela se anuncia como “um lugar de paz” e enche a nossa agenda de atividades. Assim, vivemos na igreja e não vemos o que acontece lá fora. Aliás, nem temos tempo para isso, pois estamos sempre em cima da hora para mais uma reunião da igreja...

Essa espiritualidade da fuga é doentia. É alienante. Não nos permite olhar a vida como ela é. Todavia Deus não faz isso nem concorda com essa atitude. Já pensou se Ele desse uma de avestruz diante do nosso pecado? Pois com avestruz não há cruz.




O cidadão do reino quer saber das coisas

Quem entra em meu escritório dá de cara com um quadro que focaliza a janela de uma igreja. Ele me foi dado por alguns irmãos, sinalizando o seu apoio ao meu chamado para servir por meio da Visão Mundial Internacional. O quadro mostra a foto de uma janela da igreja, tirada de dentro para fora, da igreja para o mundo. A igreja precisa ter janelas, não apenas para ser iluminada pela claridade que vem de fora, mas para enxergar o mundo do qual ela faz parte. É preciso saber e ver o que acontece lá fora. Aliás, precisamos ir lá fora.

De descendência judaica, Neemias vive no exílio. Mas vive bem. Como copeiro do rei da Pérsia, conseguiu uma boa posição. Tranqüila. De bom reconhecimento e com bom nível social. Mas quando seu irmão Hanani vem visitá-lo ele quer saber das coisas. Quer saber do seu povo e das suas condições de vida. Ele não dá uma de avestruz. Assim diz o texto:

As palavras de Neemias, filho de Hacalias. No mês de quisleu, no ano vigésimo, estando eu na cidadela de Susã, veio Hanani, um de meus irmãos, com alguns de Judá; então, lhes perguntei pelos judeus que escaparam e que não foram levados para o exílio e acerca de Jerusalém. Disseram-me: Os restantes, que não foram levados para o exílio e se acham lá na província, estão em grande miséria e desprezo; os muros de Jerusalém estão derribados, e as suas portas, queimadas. (Ne 1.1-3.)

Neemias olha para fora da janela do seu quarto, no palácio, e vê o seu povo sofrendo, passando por crise de identidade e segurança. Os muros estão caídos e as portas, queimadas. O povo já não sabe direito quem é e se percebe à mercê dos inimigos. Neemias vê tudo isso com muita clareza.

O cidadão do reino de Deus precisa ser um bom cidadão do mundo. Precisa estar ao lado de Neemias na janela que lhe mostra a realidade do outro: pobreza, insegurança e destruição. A fé cristã não fecha os olhos, ela os abre. Não nos leva a uma espiritualidade zen, mas a uma postura que reflete encarnação. É cristão de olho aberto. Postura de avestruz é coisa do capeta.




O cidadão do reino senta-se, curva-se e chora

Quando cheguei à cidade de Bombaim, na Índia, já era madrugada. Assim, no caminho do aeroporto para o hotel, não dava para ver muita coisa. Aos poucos, porém, fui percebendo que o cenário era de pobreza absoluta. Fui vislumbrando corpos ao relento, estendidos aqui e ali, tentando dormir sobre tábuas. Coisa triste de ver. Coisa de chorar.

O cristão chora. Ele chora pelo outro. Chora de dor e chora por misericórdia. Jesus chorou quando contemplou Jerusalém, e com Ele devemos aprender a chorar. O cristão não pode não chorar — pelas vítimas e pelos vitimadores. Pelas crianças, pelas mulheres e pelos assaltados. Pelos meninos de rua, pelas viúvas e por aqueles que vivem com medo. Pelos seqüestrados, ameaçados e violentados. Por aqueles que choram — por dentro e por fora.

Da janela do seu quarto Neemias caminha para a cama. Joga-se sobre ela e soluça. Ele chora o choro convulsivo do coração de Deus. Hanani, ao seu lado, não sabe o que fazer e decide ficar quieto. É preciso que ele fique quieto para que Neemias possa chorar. A nossa fé deve levar-nos a chorar, e deixar-nos chorar. Uma espiritualidade que não deixa chorar é superficial e, portanto, supérflua. Engana a alma e nos desvia de um verdadeiro encontro com Deus.

Infelizmente a igreja dos nossos dias não nos convida a chorar pelo outro. Ela quer se especializar em enxugar lágrimas, e não em produzir lágrimas. Mas não se pode enxugar o que não existe. E o que não há, muitas e muitas vezes, são as lágrimas pelo outro. Na igreja devemos ser desafiados e convidados a chorar lágrimas de compaixão e de misericórdia. Temos conseguido ouvir o soluço de Neemias?




O cidadão do reino vive o luto, jejua e ora

Neemias está inconsolável. Está de luto. Perdeu o apetite — e que ninguém insista em colocar um prato diante dele. Do soluço, portanto, ele caminha para o luto e soluça uma oração. Oração das entranhas. Oração segundo o coração de Deus. Oração com as palavras das promessas de Deus. Oração que gesta esperança.

A oração de Neemias é muito rica, mas está marcada pelas lágrimas:

E disse: ah! Senhor, Deus dos céus, Deus grande e temível, que guardas a aliança e a misericórdia para com aqueles que te amam e guardam os teus mandamentos! Estejam, pois, atentos os teus ouvidos, e os teus olhos, abertos, para acudires à oração do teu servo, que hoje faço à tua presença, dia e noite, pelos filhos de Israel, teus servos; e faço confissão pelos pecados dos filhos de Israel, os quais temos cometido contra ti; pois eu e a casa de meu pai temos pecado. Temos procedido de todo corruptamente contra ti, não temos guardado os mandamentos, nem os estatutos, nem os juízos que ordenaste a Moisés, teu servo. Lembra-te da palavra que ordenaste a Moisés, teu servo, dizendo: Se transgredirdes, eu vos espalharei por entre os povos; mas, se vos converterdes a mim, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes, então, ainda que os vossos rejeitados estejam pelas extremidades do céu, de lá os ajuntarei e os trarei para o lugar que tenho escolhido para ali fazer habitar o meu nome. Estes ainda são teus servos e o teu povo que resgataste com teu grande poder e com tua mão poderosa. Ah! Senhor, estejam, pois, atentos os teus ouvidos à oração do teu servo e à dos teus servos que se agradam de temer o teu nome; concede que seja bem sucedido hoje o teu servo e dá-lhe mercê perante este homem. Nesse tempo eu era copeiro do rei. (Ne 1.5-11.)

Gostaria de apontar para alguns aspectos dessa oração. Primeiro, temos a reverente invocação de Neemias; afinal, ele está falando com Deus. Segundo, ele faz uma oração de confissão; é uma confissão coletiva em que ele se percebe um co-agente do pecado. Terceiro, vemos Neemias orando as promessas de Deus. O conteúdo da sua oração traz à memória aquilo que Deus já falou no passado. E, por último, vemos nascer a oração do compromisso. Neemias torna-se aquele que vê a sua vida entrando na resposta de Deus. E lá está ele se preparando para ser resposta à sua própria oração.

Confesso que tenho saudade de orações assim: uma oração molhada em lágrimas, curtida na reverência, alimentada pela própria Palavra de Deus e gestando caminhos de obediência. O Brasil precisa de orações assim. O Brasil precisa de menos “nhenhenhém” espiritual e mais luto. Menos busca de “coração apaziguado” e mais disponibilidade ativa para fazer diferença na sociedade.

A história de Neemias continua e nós vamos continuar olhando para ela. Hoje, no entanto, ele nos convida a ver, soluçar e orar. Ver o que acontece, soluçar pelo que vemos e orar para que Deus transforme as circunstâncias ao nosso redor. Não é para isso que nós, como igreja, estamos aqui?




Valdir Steuernagel é pastor luterano e diretor do Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba, Paraná. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas.

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