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Reflexão — Robinson Cavalcanti

As chamadas “seitas” protestantes

É muito freqüente as denominações evangélicas serem chamadas, na imprensa, de “seitas protestantes”. Percebe-se um quê de pejorativo nessa atitude. Implicitamente fica a noção de que “igreja” seria apenas a Romana. Do ponto de vista jornalístico, não resta dúvida de que trata-se de algo “politicamente incorreto” e que deve ser combatido. Do ponto de vista científico (ciências sociais), contudo, a diferenciação entre “igreja” e “seita” se faz sem juízo de valor, mas com objetividade, em uma tipologia das manifestações religiosas.

Dedicaram-se a esse estudo nomes respeitados como Max Weber (Economia e Sociedade, Ensaios de Sociologia), Richard Niebuhr (As Origens Sociais das Denominações Cristãs), Joaquim Wach (Sociologia da Religião), Roger Mehl (Tratado de Sociologia do Protestantismo), Ernst Troetsch (Igreja e Seita, O Ensino Social da Igreja Cristã), entre outros.



As igrejas

Para Troetsch, igreja “é uma instituição que foi, como resultado da obra da redenção, dotada de graça e salvação; pode receber as massas e ajustar-se ao mundo”. A igreja é marcada pelo “sagrado objetivo” e incorpora todas as classes sociais.

Nebuhr, um crítico do denominacionalismo gerado pela cultura religiosa norte-americana (por contrastar com a proposta de unidade original do cristianismo), entende que a igreja é portadora de um “projeto civilizatório”. Isso coincide com a análise de Nebuhr, para quem a igreja pretende participar do mundo e direcioná-lo, e se vê como uma instituição.

Weber destaca como elementos constitutivos de uma igreja: a) um estamento sacerdotal; b) uma pretensão de continuidade “histórica” e de universalidade; c) escritos sagrados com base para a instrução; d) institucionalização. A igreja, como uma sociedade, tende a ter relações mais impessoais, com menor grau de solidariedade, mas também com maior controle social.

Percebe-se o amilenismo e o pós-milenismo como posições escatológicas predominantes nas igrejas.




As seitas

Para Troetsch, seita “é uma sociedade voluntária, composta de crentes cristãos, religiosos e explícitos”, indiferentes ou hostis ao “mundo” (Sociedade, Cultura, Estado), tendente a atitudes radicais e inflexíveis, ao exclusivismo, ao divisionismo, ao separatismo, ao individualismo, com o “sagrado subjetivo” e reduzida submissão às autoridades religiosas.

Weber destaca como elementos constitutivos de uma seita: a) sectarização; b) congregacionalismo; c) rejeição do batismo infantil; d) rigor disciplinar moral; e) rigor na admissão à Ceia do Senhor, além de uma “qualificação religiosa” para a adesão (baseada no ascetismo puritano) e o emocionalismo. Suas relações são mais pessoais, com maior solidariedade, mas também com maior controle social. Ele estabelece uma relação individualismo–classes médias–seitas ascéticas–capitalismo.

Wach aponta para o rigorismo das seitas e seus pormenores externos (modo de vestir, usos, costumes, linguagem), o interminável divisionismo, o personalismo de figuras carismáticas, a relativização da tradição e a pretensão de ser a retomada do projeto original da igreja.

Nebuhr afirma que a seita oferece “um escape psicológico efetivo das labutas enfadonhas de uma vida sem estética”, e que, com sua moralidade de autodisciplina, ela “é incapaz de desenvolver paixão e esperança pela justiça social; seus mártires morrem pela liberdade, não pela fraternidade e igualdade; seus santos são patronos do empreendimento individual em religião, política e economia, não grandes benfeitores da humanidade ou arautos da fraternidade”.

Roger Mehl destaca o caráter anti-igreja (“movimento”, e não “instituição”), exclusivista, fechado, proselitista, fundamentalista, anti-ecumênico e anti-litúrgico das seitas, que se recusam em um “refúgio” ou “oásis” dentro do mundo.

Percebe-se o pré-milenismo como escatologia predominante nas seitas.




Transitoriedade

A maioria dos autores ressalta o caráter transitório das seitas. As igrejas de hoje foram as seitas ontem. As seitas de hoje serão as igrejas de amanhã. Para Mehl, “a institucionalização é inevitável”. Para Nebuhr, as seitas valem por uma geração. A segunda geração, na busca da maturidade, tende a transformar as seitas em igrejas.

Fatores como grau de instrução (de elementar a superior), nível de renda (de pobres as classes médias e altas), a auto-percepção não como um grupo “puro”, mas como parcela de um todo, a revalorização da história e da teologia, o conhecimento da diversidade cultural, a participação em áreas sociais ou profissionais antes proibidas (esportes, artes, política, ciência etc.) concorrem para a transformação de seitas em igrejas.



E no Brasil?

À luz do que descrevem os sociólogos da religião, estarão de todo errados os jornalistas quando falam das “seitas protestantes” no Brasil?

Temos em nosso país as seguintes situações: a) igrejas; b) igrejas que estão se tornando seitas; c) seitas; d) seitas que estão se tornando igrejas; e) instituições divididas entre setores eclesiásticos e setores sectários.

Já tivemos entre nós: a) A Era dos Missionários (1855-1933); b) A Era da Confederação Evangélica (1934-1964); c) A Era dos Velhos Caciques (1965-1980); e d) A Era Caio Fábio (anos 80-90). E agora, na Era Pós-Caio, o que temos? Como classificaríamos a atualidade: a) Era tem-de-tudo?; b) Era vale-tudo?; c) Era cada-um-por-si-e-Deus-por-todos (e o demônio-por-alguns)?

Denominação não é conceito teológico, mas sociológico, vago, que nada diz. Ministério é eufemismo para denominação ou seita (para igreja é que não é). Com o divisionismo confuso, caótico e exótico que vai proliferando por aí, a nossa questão central, sem dúvida, é a eclesiologia.

Estarão as igrejas históricas (de forma dinâmica e superando o tradicionalismo) preparadas para a reconstrução do rescaldo, com o inevitável declínio (ou transformação) das seitas protestantes?




Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese Anglicana do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política — teoria bíblica e prática histórica, lançamento da Editora Ultimato.

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