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A reinvenção cotidiana do mal

Ageu Heringer Lisboa

“... mas livra-nos do mal”.

Inicialmente preciso confessar aos leitores o quanto me foi custoso emocionalmente me colocar sob este tema existencialmente e tratá-lo não como mera ocupação acadêmica. Senti-me como quem, atravessando um rio, descobre súbitas correntezas e fundos falsos desequilibradores.

Descubro em mim mesmo o pertubador mistério da presença do mal em meu íntimo — aquela resposta rude a um filho ou à esposa, que depois me dói tanto o coração; o reflexo raivoso e violento no trânsito da cidade; a pressa diante de mais um pedinte. É uma mescla de desejos conscientes com impulsos inconscientes. São muitas as situações a me revelar um delicado equilíbrio entre minha vida e a de outros — a disputa por espaço e oportunidades, a necessidade de ser recebido, aceito e amado, e, ao mesmo tempo, as queixas e os sofrimentos daqueles a quem feri, desconsiderei, passei distante. Quantas faltas, meu Deus!

Diversos autores e enfoques da psicologia descrevem uma natureza humana com força simultaneamente destrutiva e criadora: Thanatos e Eros. As civilizações e tantas construções culturais revelam uma humanidade criadora. Os meios de sobrevivência, as artes, as ciências são magníficas expressões do espírito humano.

Observando a natureza, outros animais, seres sem autonomia espiritual, constatamos que não instrumentalizam a violência, não são agentes do mal. Falamos de um raio violento, uma fera devoradora, um terremoto arrasador, mas não faz sentido julgá-los moralmente. O mal é uma dimensão constitutiva do humano, que nasce com o pecado, fruto de nossa parceria com o demoníaco.

Parece-me que o teólogo e reformador João Calvino e o criador da psicanálise, Sigmund Freud, distanciados em mais de 300 anos e com instrumentos de observação distintos, descobriram uma mesma realidade. Em sua construção teológica, Calvino nos confronta com uma antropologia considerada por muitos como radicalmente pessimista. Ao homem resta apenas ser tocado pela arbitrária e soberana decisão de Deus em salvá-lo, tal o seu estado natural de depravação. Por sua vez, Freud não tinha razões de ser otimista ingênuo com suas descobertas da alma humana. Atraiu tremenda fúria contra sua pessoa ao nos descrever como “perversos polimorfos” quando infantes.

No livro O Gene Egoísta, o biólogo Richard Dawkins revela que na intimidade de nossas origens temos uma energia egoísta e agressiva. Já o psicanalista suíço Carl Gustav usou o termo sombra para designar essa potência do mal constitutiva do nosso ser. É como uma natureza demoníaca entranhada em nossa intimidade mais inicial, sempre invasora, querendo dominar toda a nossa casa. Revela-se como traços obscuros do nosso caráter, com relativa autonomia e, por isso mesmo, de caráter obsessivo e possessivo. No filme O Médico e o Monstro, vemos uma mesma pessoa contendo e atuando ora com qualidades morais, ora possuído pela barbárie.

A Dra. Nise Silveira comenta que “a sombra pode e deve ser integrada na personalidade, mas via de regra opõe obstinada resistência ao controle moral. Ocorre dentro de todos nós um dinamismo inconsciente de projeção; daí nossa relação ilusória com o mundo externo”. É o que Jesus falou sobre a dinâmica argueiro-trave. Localizamos o mal fora de nós, em outros sujeitos, e fechamo-nos em auto-justificativas, como exemplificado na oração do publicano. Isso nos conduz a um isolamento, a um “estado de auto-erotismo ou autismo”. Com esse mal interior — a “carne de pecado”, o “corpo da morte” — atingimos o diferente de nós, o concorrente político, a pessoa de outra religião, raça ou condição social, o homossexual e até mesmo uma figura simbólica, como o demônio.

Dessa mesma região do inconsciente, emergem também conteúdos e potenciais evolutivos. A energia psíquica indiferenciada e altamente inflamável pode ser beneficiada por uma força organizadora — o self — ou totalidade psíquica. Somos portadores da centelha divina — a imago Dei — e sua força transcendente. Em meio ao caos pulsional e em nossas trevas interiores, também paira e age o Espírito de Deus, que ordena: “haja luz”.

Um homem inquieto, desenraizado, fazendo perguntas sobre sua identidade, em um dado momento age sob a sombra de Caim. Comete um assassinato. Descoberto, foge errante pelo deserto em busca de si mesmo. Uma existência terrivelmente monótona como o próprio deserto, se depara com o insólito — um arbusto envolto em chamas sem se queimar. É a auto-revelação de Deus, o Eterno lhe nomeando e apontando para o futuro. Chamado a liderar um povo incerto de sua identidade e futuro, sofre todo um processo de transformação que envolve perdas, tensões, desânimo, provocações e revoltas. Chamado à presença de Deus, recebe as pedras com a inscrição da Lei. Literalmente se torna o primeiro a quebrá-la de maneira violenta, censurando a multidão idólatra. Recebe a segunda edição e a conserva para transmissão. O primitivo justiceiro chamado pela esposa de “homem sanguinário”, que se submete à lei de Deus, é convertido no homem “mais manso da terra”. A Lei, esse organizador simbólico da realidade, quando internalizada, igualmente transforma a multidão de escravos no povo chamado pelo nome do Senhor. Dá-lhes consciência de sua identidadee futuro.

Além da sombra individual, enfrentamos também a sombra coletiva. São guerras santas e ódios sagrados, vândalos nas ruas, abuso sexual de crianças, suicídios coletivos. Homens cultos em meio à massa sucumbem aos seus preconceitos. Sob agradável sedução ou sob pressão de grupo, o indivíduo sacrifica sua integridade. Fragiliza-se e se dobra às manipulações religiosas e ideológicas. Enquanto indivíduos se apequenam na multidão, líderes são possuídos pelo arquétipo do charlatão, do falso profeta e do falso messias. Realizam uma identificação patológica com a divindade. Egos inflados, adoradores de si mesmos, grandes narcisos, caminham para a tragédia.

Atos e ritos violentos marcam a construção da revelação bíblica. No Gênesis, iniciamos a civilização com um fratricídio. E dois sacrifícios cruentos nos chocam com seus mistérios fundadores: Abraão sacrificando seu filho Isaque — é sustado pelo anjo que lhe mostra um cordeiro substitutivo — e Cristo, “o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, gritando sua angústia e dor pendurado na cruz.

Analisando a história, Freud fala do mal-estar da civilização como efeito colateral da repressão da barbárie e da violência que todos abrigamos. Com um assassinato mítico, um parricídio, nasce a sociedade e a cultura. “O processo civilizatório consiste das transformações e novas emergências da violência que não cessa de retornar”, afirma Caterina Koltai. Pagamos um alto preço para não nos entredevorar-nos totalmente.

“A violência é a parteira da história”, diagnosticou K. Marx, apontando para uma trágica constante da história de qualquer grupo humano. Tendemos a nos organizar por identidade étnica, religiosa, ideológica, classe social e em base de conveniência. Qualquer outro é potencialmente um inimigo.

Filósofos-políticos refletiram sobre o “homem lobo do homem”, justificando a necessidade de contenção da cobiça individual pela força do Estado de Direito, obra sempre imperfeita. Grupos com mais força militar e econômica neste mesmo processo legislam em causa própria e se impõem “legalmente justificados”. Não convivemos com falácias, como “direitos adquiridos” de castas minoritárias que subtraem da população o direito natural e divino à sobrevivência digna? Supremos magistrados, deputados e senadores não manipulam leis e se beneficiam dos recursos públicos às custas dos idosos e das crianças?

Em outra direção temos os profetas bíblicos Moisés, Isaías, Amós, Ageu... instruindo o povo hebreu para uma caminhada solidária, responsável, santificada. Condenam as pecaminosas práticas egoísticas, que resultam em desigualdades, sofrimento e miséria. Ensinam que os projetos individuais devem estar subordinados ao interesse de todos, na vivência do amor.

Como temos visto, o mal, longe de se configurar apenas como princípio metafísico extra-temporal, se nos apresenta como multiforme fenômeno cultural e histórico. Em grande medida é previsível, sujeito a certas condições e leis, e, portanto, passível de ser compreendido, manipulado e transformado.

Entendemos que, a partir do anúncio de que o descendente de Eva esmagaria a cabeça da serpente, temos base para crer e agir a fim de evitar e eliminar processos de destruição e morte em pessoas, famílias e comunidades. Jesus nos deu a fórmula para sarar a nossa terra, trazendo-nos vida e justiça: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

Envenenados pelo onipresente desejo de poder — lugar de Deus —, odiamos nosso semelhante e todos morremos. O sangue de Cristo derramado na cruz é o antídoto. O Deus que absorve todo o mal e toda a violência de todos nós em si mesmo nos torna co-participantes de sua ressurreição e da recriação do mundo. Nele e por meio dele, como membros do seu corpo, podemos anular injustiças e abençoar pessoas e comunidades. Assim haverá glória a Deus nas alturas e paz na terra a todos!


Ageu Heringer Lisboa, psicólogo, ministra seminários e vivências terapêuticas.

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