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Reflexão — Ricardo Gondim

Orgulho de ser evangélico

Gosto de correr pelas ruas de São Paulo com uma camiseta que adquiri em Recife. Ostento em meu peito a expressão em letras garrafais: “Orgulho de ser nordestino”. Em uma parede de meu apartamento emoldurei uma foto de meu pai, dos tempos em que jogou futebol pelo Corintians. Sua postura de braços cruzados, com todo o time, diante de um Pacaembu lotado, me envaidece. Sinto orgulho de seu porte atlético, sua confiança de campeão. Orgulho-me ainda de ele ter sido preso político. Não abriu mão de suas convicções para agradar os militares de 1964. Guardo também vários outros orgulhos, principalmente o de ser evangélico.

Quando me converti, na adolescência, encantei-me com o desprendimento de homens e mulheres crentes. Dedicavam-se à escola dominical para que jovens como eu — sem berço religioso — aprendessem a Bíblia. Lembro-me afetuosamente daquele presbítero que passava na porta de minha casa para me levar aos cultos e devotava-me o mesmo carinho que tinha por seus filhos. Não conseguia entender por que mais de quarenta pessoas gastavam até trêshoras em uma noite ensaiando para cantar apenas dois hinos no domingo à noite. Boquiaberto, compareci a uma classe bíblica em uma favela, onde jovens investiam suas tardes de domingo cuidando de crianças carentes. Orgulho-me saudosamente de haver engatinhado na fé em uma Igreja Presbiteriana.

Anos depois, passei a orgulhar-me também de ser pentecostal. Minha primeira incursão no mundo pentecostal aconteceu em uma campanha evangelística, cena tão comum nos primórdios do movimento. O palanque era um tablado de madeira apoiado sobre tambores de óleo vazios. O grupo musical tocava hinos que estimulavam a fé. Enfaticamente cantava: “Conta para Jesus onde é a tua dor. Ele te ajuda a carregar a cruz. Com insistência ora, que tu vais vencer. O que tu precisas, conta para Jesus.” O pregador levantou-se e proferiu um sermão veemente, evangelístico, bíblico. Prometeu que ao final de sua prédica faria duas orações: a primeira para que pessoas se convertessem, a segunda pelos enfermos. Depois do evento, saí orgulhoso com a intrepidez daquele jovem evangelista. Parecia desafiar o inferno, queria povoar o céu. Acreditava em um Deus de milagres.

Orgulho-me também de ter alicerçado minha fé no ambiente da Aliança Bíblica Universitária. Sentávamos no chão, com a Bíblia no colo e, com o famosíssimo método indutivo de estudo, mergulhávamos na Palavra. As horas se passavam, confrontávamos o que sabíamos sobre Deus com os argumentos de nossos professores. A ABU, marco importantíssimo na história evangélica brasileira, me deixa embevecido. Meu orgulho evangélico, entretanto, não me impede de perceber as idiossincrasias do movimento. Há muitas distorções, imaturidades e desvios no evangelicalismo nacional.

Por um lado, a igreja ainda está presa ao fundamentalismo norte-americano. Ainda copia a moralidade ianque. O cânon da literatura evangélica ainda é o dos Estados Unidos. Há algum tempo, eu e outros brasileiros fomos convidados para pregar em uma conferência em que dividiríamos o tempo com alguns nomes expressivos da igreja evangélica norte-americana. O tratamento que recebemos e o comportamento deles foram sintomáticos. Eles se hospedaram em um hotel cinco estrelas e nós, em um com categoria de pensão. Quando eles falaram evidenciou-se o colonialismo. Embora no auditório houvesse pastores e líderes de expressão nacional, falavam como a adolescentes numa classe de catecúmenos.

Por outro lado, os evangélicos vêm construindo a sua identidade sem raízes históricas. Embora já possuam uma identidade bem brasileira, desprezam o labor teológico de séculos. Assim,tornam-se vulneráveis ao sincretismo, refratários às heresias, cismáticos; vão se expandindo anarquicamente. Infelizmente, hoje muitas igrejas se multiplicam nos arredores das grandes cidades por mero capricho. Desprovidos de projetos, sem percepção nítida de sua razão de ser, novos líderes vão abrindo novas comunidades que acabam se enveredando por práticas bizarras.

Há muitos erros no modelo evangélico. Entretanto ele não está falido. Historicamente ainda somos adolescentes. A presença evangélica no Brasil ainda não tem 150 anos (o primeiro casal protestante de caráter permanente — Sarah e Robert Kalley — chegou ao Brasil em 10 de maio de 1855). Ainda cometeremos muitos deslizes até chegarmos a uma maturidade histórica. Se a igreja evangélica neste país perdeu alguns valores da ética protestante, ela conseguiu enormes avanços em outras dimensões da Reforma, como, por exemplo, em relação ao sacerdócio universal de todos os crentes.

A igreja evangélica brasileira caminha com os leigos. Enquanto algumas lideranças denominacionais perdem tempo com a política interna, homens e mulheres sobem os morros, embrenham-se pelos igarapés amazônicos, varam os sertões nordestinos com a paixão de evangelizar. Orgulho-me de já ter pregado em cultos familiares realizados na calçada. A mesa da cozinha, coberta com uma toalha e ornada com um buquê de flores artificiais, servia de púlpito. Falei com o microfone dando choque. Minha voz era amplificada numa corneta de som, chiando. Sem instrumento musical algum, cantamos, desafinados, sobre o Calvário: “Foi na cruz, foi na cruz, onde um dia eu vi meu pecado castigado em Jesus. Foi ali, pela fé, que meus olhos abri e agora me alegro em sua luz.”

Quando viajo pelas redondezas das grandes cidades, vejo famílias caminhando a pé pelos acostamentos das estradas. Identifico os crentes e, com os olhos marejados de lágrimas, sinto-me orgulhoso. O pai, de paletó e gravata, carrega a Bíblia triunfantemente contra o peito, segurando um filho pela mão. A mãe segue com mais dois outros filhos. O evangelho lhes dá uma dignidade que as estruturas sociais iníquas lhes impedem de ter. Percebo-os felizes. Altivos, vão cultuar a Deus.

Tenho orgulho do missionários transculturais. Já me encontrei com verdadeiras heroínas e autênticos heróis que trabalham pela causa de Cristo em circunstâncias dificílimas. Gente que investe o melhor de seus anos na Índia, Moçambique, Peru, Filipinas, Sibéria. Às vezes, ouço críticas aos modelos evangélicos vindas de pessoas que desfrutam uma vida confortável. Suas críticas carecem de legitimidade. O modelo com o qual nossos missionários lutam talvez não seja o melhor, mas dentro de suas possibilidades e do que sabem, eles excedem. Orgulho-me das missionárias solteiras, dos pilotos que voam sobre a Amazônia, dos lingüistas que investem décadas nas traduções da Bíblia, dos médicos e dentistas que abrem mão da possibilidade de ficarem ricos para alcançarem os pobres. Há fidalguia no sacrifício dos heróis da fé contemporâneos.

Orgulho-me dos professores de pequenos seminários e institutos bíblicos deste país. Por todo o Brasil há pequenos centros de formação teológica. Geralmente ocupam as mal equipadas salas da Escola Dominical. Louvo a Deus por esses professores que gastam suas noites lecionando para rapazes e moças. Muitos não recebem salário algum. Desdobram-se para que os livros de teologia sistemática, história da igreja ou pneumatologia sejam conhecidos por seus pupilos.

A igreja evangélica brasileira é ao mesmo tempo uma construção social e espiritual. Jesus afirmou: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. Ele chamou para si a responsabilidade de edificar sua igreja, bem como nos convocou amorosamente para sermos seus parceiros. Eis a razão de haver, ao mesmo tempo, tanta beleza e imperfeição. Nesta ambigüidade, devemos nos arrepender de nossos defeitos e celebrar nossa beleza. Creio na fidelidade de Deus. Ele terminará a boa obra que começou em nós. Acredito que ainda vamos amadurecer e nos aprimorar no projeto do reino. Estou disposto a investir minha vida pela Igreja. Pensando bem, acho que vou mandar fazer uma camiseta com os dizeres: “Orgulho de ser evangélico”. 

Soli Deo Gloria.


Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesda, em São Paulo, presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos e autor de É proibido, da Editora Mundo Cristão.

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