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Reflexão — Robinson Cavalcanti

O Brasil não será evangélico?

A antropóloga Regina Novaes, coordenadora de pesquisas do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e editora da revista Religião & Sociedade, escreveu: “Exercitando um certo profetismo sociológico, podemos até dizer que os evangélicos ainda vão crescer mais. Nas favelas e periferias mudarão outras trajetórias pessoais. Terão peso no jogo político, como eleitores e candidatos. ‘Nos próximos 500 anos’ podem até chegar a somar uma terça parte da população brasileira.” Entretanto, ela conclui: “Mas a cultura brasileira não perderá a sua marca católica. Aspectos da cultura brasileira — sempre definida como inclusiva, sincrética e pouco afeita a fronteiras fixas — se potencializarão no futuro que tende aser sempre mais exigente em termos de comunicação e reinvenções culturais. Enfim, podemos até deixar de ser o maior país católico do mundo. Mas o Brasil do futuro não será evangélico.”

Novaes analisa a mudança da situação de mera “minoria religiosa” alcançada pelas igrejas históricas em nosso primeiro século de presença protestante, o crescimento espantoso dos pentecostais, hoje com emissoras de rádio e televisão, votos e bancadas, seu impacto sobre vidas individuais e comunitárias, e discorda de cientistas sociais que atribuem esse crescimento à falta de políticas públicas: falta de políticas geradoras de emprego, falta de presença de agências do Estado nas áreas mais pobres e conflituadas pela presença do narcotráfico, falta de políticas de segurança pública, falta de sentido da vida e de perspectivas de futuro. Para a autora, seremos derrotados no aspecto “cultura brasileira”.

Os “desviados”
Essa análise se torna mais relevante no ano da comemoração do centenário de um dos mais famosos “desviados” brasileiros: o sociólogo e antropólogo Gilberto Freire, autor de Casa grande & senzala e Sobrados & mocambos, que é um ex-batista.

Freyre, um dos mais influentes intelectuais brasileiros de todos os tempos, foi membro da Primeira Igreja Batista do Recife, aluno do Colégio Batista e foi para os Estados Unidos estudar na Universidade de Baylor com a intenção de se tornar pastor. Devemos a Mário Ribeiro Martins o melhor estudo sobre o episódio. Mas foi o próprio Gilberto Freyre quem explicou a sua crise religiosa: o racismo do “cinturão da Bíblia” do Sul dos Estados Unidos, as igrejas evangélicas racialmente segregadas, o linchamento de um negro liderado por diáconos. Em sua avaliação, ele não queria para o seu país uma religião da intolerância e de uma lamentável pobreza estética.

Para ele, “o protestantismo brasileiro gera gramáticos, e não literatos”, por faltar-nos a liberdade para criar, a liberdade para a arte que reflete o humano e a vida com suas ambigüidades, sendo os romances evangélicos transformados em apenas outra forma de sermão, com personagens estereotipados e final previsível.

Cremos que chegou a hora de fazermos o inventário dessa lista — numerosa e crescente — de “desviados ilustres”: romancistas, poetas, teatrólogos, cantores, artistas plásticos e cênicos, jornalistas, cientistas, ou seja, os formadores de opinião, os que habitam nos “lugares altos” da sociedade, os plasmadores de cultura, erudita ou popular. Seriam eles, todos e sempre, os culpados, os “carnais”? Poderiam eles desabrochar as suas vocações, ser o que foram — ou são —, dar a contribuição que deram — ou têm dado — continuando em suas igrejas? Pode haver compatibilidade entre a subcultura protestante brasileira, separatista, exclusivista e sectária, com aquelas atividades ou profissões? Ou o rompimento com a nossa cultura (“mundo”) exigido dos fiéis não estaria sendo indulgente para com o colonialismo branco, que roubou, matoue estuprou, com a Inquisição e as fogueiras de Salém (ou de Genebra)? Ainda, a demonização generalizada e indiscriminada de todo o afro e o ameríndio não seria conseqüência desse rompimento?

Os “desviados” perderam a comunhão da igreja (não necessariamente comDeus) para que pudessem se realizar e servir à pátria e ao próximo.

O dilema
Confundindo igreja com reino de Deus, com um Jesus que não é também humano (e com cristãos que não podem ser humanos), com um “evangelho” queé mais lei que graça, mais julgamento que amor, com a atividade filosófica e científica sob suspeita, com as artes sob censura, com os pensadores sob patrulha, com o temor do plástico e do lúdico, com a “ética do trabalho capitalista”, com a ignorância histórica, com o literalismo bíblico, com o asfixiante controle social, com o desrespeito à privacidade, com a rigidez das personalidades, com o silêncio dos dissidentes, com a repressão aos desviantes e o ostracismo aos desviados, com o ódio aos pecadores, e não só ao pecado, conforme o falso discurso oficial, essa igreja torna-se uma igreja sem memória, sem projetos, sem vontade de participar, de interagir, de aculturar/inculturar. Assim, Regina Novaes parece ter razão quando diz que “o Brasil do futuro não será evangélico”.

No futuro, teremos apenas um número maior de isolados, uma multidão que teme, que tem preconceito, ou que não quer “salgar” e “iluminar” a cultura brasileira, não conseguindo entendê-la, aceitá-la ou estimá-la, apenas confrontando-a com os aspectos fundamentalistas da cultura anglo-saxã, equivocadamente identificada com a cultura “bíblica”.

É muito provável que no juízo final tenhamos surpresas. Quem serão os “benditos do meu Pai”, os “desviados” construtores da cultura — em obediência ao “mandato cultural” — ou os mutiladores de suas vidas espirituais?

Na dor permanente da censura e da auto-censura, na dor terrível do silêncio imposto, do discurso proibido, da pesquisa desqualificada, da opinião desmoralizada, da obra mutilada, alguns resistem e prosseguem na encarnação, nas pegadas do Cristo Ágape.

O Brasil não será fundamentalista, graças a Deus. Poderia ser evangélico, seo nosso protestantismo o fosse, e católico (reformado), se o espírito da Reformaaqui existisse latinizado ou, na expressão de Freyre, lusotropicalizado (lusoafroamerindizado).

Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese Anglicana do Recife e autor de, entre outros, A igreja, o país e o mundo — desafios a uma fé engajada.

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