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Reflexão — Valdir Steuernagel

Deus nos chama pelo nome... e para o serviço

Já andei escrevendo sobre os nossos nomes e a sua pronunciação na boca de Deus. Daí veio o assunto dos nossos 500 anos e a conversa sobre os nomes ficou pendurada. Mas eu não havia terminado e gostaria de voltar ao assunto. E, como vou acabar lembrando nomes de pessoas e citando vários textos bíblicos, não seria uma má idéia fazer-nos acompanhar do nosso bom livro.

Deus nos chama para a salvação
Uma das coisas bonitas acerca de Deus é que Ele é simultaneamente particular e inclusivo. Ele abraça um, sem deixar de abraçar o outro. Um abraço sem exclusão. Um abraço de braços compridos.

Mas é importante ressaltar que, se Deus nos quer junto dele, não é porque Ele seja humanamente egoísta. Ele não é um Deus ciumento. Deus nos chama para junto dele porque este é o melhor lugar para nós. Ou seja, alcançamos a nossa verdadeira e total humanidade quando nos assentamos aos pés da divindade. A nossa humanidade se alimenta da bênção do eterno.

Deus é, por assim dizer, obcecado pela nossa salvação. Não pensa em outra coisa. Vira e mexe, está falando sobre isso. Deita e levanta pensando na sua e na minha salvação. Quando Paulo escreve a Timóteo, ele ressalta que Deus “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1 Tm 2.4).

É muito bom saber que Deus não tem prazer na perdição e só castiga quando não há outro jeito. E até no castigo está embutida a esperança de ouvirmos a sua voz e voltarmos ao seu aconchego e à nossa humanidade:“Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu.” (Is 43.1.)

Deus nos chama para o serviço
Lá em casa há uma brincadeira que já nos acompanha por vários anos. Ao ver os quatro meninos crescendo e se tornando homens, eu sempre digo que eles têm toda a liberdade para fazer suas escolhas. Quanto a mim, só quero a prerrogativa de fazer três escolhas por eles: o time de futebol pelo qual torcer, a mulher com quem se casar e a profissão a seguir... É claro que a coisa não dá certo e eles riem na minha cara!

Mas, falando sério, o caminho a seguir na vida, a vocação e, até mesmo, a profissão a exercer não são coisas com as quais brincar. E muito mais séria é essa história de vocação de Deus. Eu tinha lá os meus doze anos quando comecei a aventar a possibilidade de seguir o exercício do pastorado. Algo que passava longe do horizonte dos meus pais, mas acabou se tornando realidade.

Ser chamado por Deus é algo muito bonito, extremamente significativo e, muitas vezes, difícil e confuso. O profeta Jeremias é uma dessas pessoas que parecem estar sempre brigando com e contra a sua vocação. Ele quer sumir do mapa e amaldiçoa o seu próprio nascimento. Mas não consegue fugir da sua vocação e, quando tenta fazê-lo, a coisa queima dentro dele. Como ele mesmo diz: “Quando pensei: Não lembrarei dele e já não falarei no seu nome, então isso me foi no coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; já desfaleço de sofrer, e não posso mais” (Jr 20.9).

A vocação se vive assim, com determinada predestinação e na dependência absoluta de Deus. Jeremias (vamos ficar um pouquinho mais com ele) sabe ter sido chamado por Deus antes mesmo da sua concepção e gestação. E a palavra que ele é chamado a proclamar lhe é dada pelo próprio Deus, enfiada goela abaixo, ele querendo ou não. Assim Deus diz a Jeremias: “Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e antes que saísses da madre, te consagrei e te constituí profeta às nações” (Jr 1.5). E logo adiante (v. 9) o texto diz: “Depois estendeu o Senhor a mão, tocou-me na boca e me disse: Eis que ponho na tua boca as minhas palavras”.

É claro que poderíamos conversar ainda um bom bocado sobre essa história da vocação. E, se estou falando nela, é porque creio que precisamos recuperar a sua dignidade. A dignidade da vocação nasce da obediência e do sofrimento. Essa é a “dignidade do cargo” do profeta. A obediência pode nos colocar na contramão do nosso próprio anseio e dos nossos próprios planos. E o sofrimento é inerente à proclamação de uma palavra que convoca para o arrependimento e a conversão, sem meias palavras.

Mas hoje me parece que a vocação é percebida como carreira, a obediência é vista como uma opção light e o sofrimento é substituído pelo aplauso e pelo sucesso. Pois afinal, como se diz, “ninguém é de ferro”... Nessa lógica, o critério da autenticidade da vocação é o bem-estar eo sucesso. Falsa lógica, nos diria Jeremias, e acrescentaria: “Olhe para mim. Leia a minha história e verá o que significa vocação.”

Eu queria ainda apontar para dois critérios que ajudam a atestar a legitimidade da nossa vocação.

O primeiro deles é que o chamado nos faz perceber a nossa pecaminosidade. Ser chamado por Deus é ser encontrado por Ele. E a presença de Deus revela toda a nossa vulnerabilidade e pecaminosidade. Nós gaguejamos, transpiramos, corremos para o banheiro... Sem dó, nem piedade. No chamado de Pedro, os barcos estão cheios de peixe, convocando a atenção e a adrenalina de Pedro, seja convidando-o a calcular o ganho, seja convocando-o a não deixar o barco afundar... Mas há um impulso que fala ainda mais forte e que indica outra direção. Assim, antes que se dê conta de todo o quadro e de todos os ângulos, ele está aos pés de Jesus: “Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador” (Lc 5.8).

O profeta Isaías, quando vocacionado, parece não conseguir deslumbrar-se com a presença da glória de Deus. Ele está preocupado é com os seus lábios. Lábios impuros. E, gemendo, considera-se perdido (Is 5.5).

Mas Deus convoca tanto um quanto o outro. Pedro é transformado em pescador de homens e Isaías tem os lábios purificados para logo ser enviado: “Vai, e dize a este povo...” (Is 5.9). Deus envia pecadores. Mas só os que se sabem pecadores.

O segundo critério que eu quero ressaltar é a entrega — essa coisa fácil de falar e dificílima de fazer. A gente sempre diz: “tudo a Deus entrego”, mas na realidade queremos controlar a geografia e a agenda da nossa vida... e das opções de Deus. É só olhar para a vida de Pedro. Um sujeito difícil de ser domado, mas que carece ouvir três vezes a pergunta de Jesus acerca do amor. E, como se isso não fosse suficientemente profundo e constrangedor, ele precisa ouvir mais: “Em verdade, em verdade te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as tuas mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres” (Jo 21.18). E conta a tradição que Pedro morreu em Roma, com o evangelho e pelo evangelho.

Por meio da vocação, Deus dignifica a nossa vida e a reorienta para a eternidade. E ainda a bagunça de uma forma incrível! Dá para imaginar isso? É só perguntar a Jeremias, Isaías, Pedro, Agostinho, Francisco de Assis e a tantos outros dos quais o mundo não foi digno (Hb 11.38). Eis a dignidade da vocação.

Deus nos chama para vermos a sua glória... com carinho!
O caminho da vocação é também o caminho da intimidade, que é fantástica. Isso pode ser visto de uma forma bonita e sublime no relacionamento de Moisés com Deus. Aliás, Moisés foi um homem que andou com Deus e, nessa rota, conheceu e achegou-se a Deus.

Aquela história do bezerro de ouro, da quebra das tábuas da lei e da ira do próprio Deus foi difícil e complicada para Moisés. E ao final desse processo ele estava um bagaço, cansado, muito cansado. Ansiava por um sinal de intimidade. Por um bom abraço. E neste contexto o livro de Êxodo nos relata este episódio, um diálogo profundamente marcado pela auréola da intimidade. É uma conversa entre Deus e Moisés. Eu tiro o chapéu, silencio e ouço essa conversa com profunda reverência: “Disse o Senhor a Moisés: Farei também isto que disseste; porque achaste graça aos meus olhos, e eu te conheço pelo teu nome. Então ele disse: Rogo- te que me mostres a tua glória. Respondeu-lhe: Farei passar toda a minha bondade diante de ti, e te proclamarei o nome do Senhor; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer. E acrescentou: Não me poderás ver a face, porquanto homem nenhum verá minha face, e viverá. Disse mais o Senhor: Eis aqui um lugar junto a mim; e tu estarás sobre a penha. Quando passar a minha glória eu te porei numa fenda da penha, e com a mão te cobrirei, até que eu tenha passado. Depois, em tirando eu a mão, tu me verás pelas costas; mas a minha face não se verá.”(Êx 33.17-23)

Isso é muito solene! Deus está passando. A glória está desfilando e Moisés, espiando. Coisa de menino velho que carece de um abraço de Deus antes de retomar a tarefa: lavrar duas novas tábuas e continuar no seu caminho de líder do povo de Deus. Deus o chama pelo nome, dá-lhe o almejado abraço e, sorrindo, vê Moisés caminhar novamente na obediência da vocação. E, assim como Davi (At 13.22), Moisés foi um “homem segundo o coração de Deus”. Um bom jeito de viver e ser chamado por Deus.

A vivência da vocação é o caminho da intimidade com Deus. 


Valdir Steuernagel é pastor luterano, diretor do Centro Pastoral e Missão, e presidente da Visão Mundial Internacional. Autor de Para falar das flores... e outras crônicas, da Editora Ultimato e Encontro Publicações.

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