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Especial Brasil — Eleazar de Castro Ribeiro

Banalização da injustiça social

Muito se tem discutido a respeito do impacto da chamada globalização na vida dos países e indivíduos. Há uma polêmica que está acesa principalmente nos últimos 10 anos que diz respeito ao aumento da pobreza, da desigualdade e da exclusão social que a economia global tem provocado no mundo, além das contradições políticas doneoliberalismo, regime predominante nos países do Ocidente e que tem sido associado à própria globalização.

Pela primeira vez, um autor traz a análise para o campo das organizações. Christophe Dejours, psiquiatra, psicanalista, professor do Conservatório Nacional de Artes e Ofícios e diretor do Laboratório de Psicologia do Trabalho da França, escreveu A banalização da injustiça social, onde traça um retrato do impacto neoliberal sobre o mundo do trabalho.
Dejours fala de uma guerra que acontece no mundo do trabalho em nome da competitividade e do projeto neoliberal em todo o mundo, presente nos últimos 10 anos da história mundial. Nessa guerra, utiliza-se um processo de exclusão em massa de pessoas, sem precedentes no mundo pós-revolução industrial. Nessa guerra, são excluídos os velhos que perderam a agilidade, os jovens mal preparados, os vacilantes. Exige-se daqueles que ficam desempenhos sempre superiores em termos de produtividade, de disponibilidade, de disciplina e de abnegação, com o objetivo de superar seus concorrentes, em nome da razão econômica. Os novos métodos de gestão nas empresas se traduzem pelo questionamento progressivo do direito do trabalho e das conquistas sociais, fazendo-se acompanhar não apenas de demissões, mas também de uma brutalidade nas relações trabalhistas que gera muito sofrimento.

Para Dejours, essa guerra começou e se prolongou não só porque a lógica do novo capitalismo exige uma obediência ao sistema econômico mundial, mas também porque os homens e mulheres consentem e se submetem a ela, como parte de umaestratégia de sobrevivência, como resposta ao medo de serem excluídos, demitidos.

Para que seja aceitável a submissão a esse estado de coisas, é necessária uma postura de resignação, como se a crise do emprego em todo o mundo fosse uma fatalidade, comparável a uma epidemia, à peste, à cólera e até à Aids.

Dejours criou a expressão banalização do mal com o mesmo sentido que Hannah Arendt a empregou no passado, com relação à sociedade alemã, que multiplicou a barbárie nazista nos atos civis comuns, contribuindo para excluir parcelas cada vez maiores da população. Da mesma forma, a adesão à causa neoliberal por parte dos trabalhadores seria uma forma de defesa contra a consciência dolorosa da própria cumplicidade, da própria colaboração e da própria responsabilidade no agravamento da adversidade social. Dejours desenvolve essa reflexão como resposta a uma pergunta que faz durante todo seu livro: por que os empregados acabam por colaborar com essas práticas dentro da empresa?

A resposta parece ser a seguinte: a participação consciente do sujeito em atos injustos é resultado de uma atitude calculista. Para manter seu lugar, conservar seu cargo, sua posição, seu salário, suas vantagens e não comprometer seu futuro e até sua carreira, ele precisa aceitar “colaborar”, mesmo que seja dotado de um senso moral.

Assim, eles são envolvidas na prática dos trabalhos “sujos”, que são traduzidos, dentre outros, pela divulgação de informações distorcidas na mídia interna e o exercício da crueldade contra os demais empregados. A essa última prática, Dejours chama de “virilidade”, ou seja, mede-se a virilidade de uma pessoa “pela violência que se é capaz de cometer contra outrem, especialmente contra os que são dominados, a começar pelas mulheres”. Um homem verdadeiramente viril é aquele que não hesita em infligir sofrimento ou dor a outrem em nome do trabalho. Não ser reconhecido como um homem viril significa ser um “frouxo”. Eis a razão, diz o autor, porque se perdoa, com muita facilidade, o assédio sexual dos homens às mulheres, especialmente os líderes.

A virilidade é um dos temas preferidos das reuniões de confraternização dessas empresas, geralmente em restaurantes finos, onde se gasta muito dinheiro e se fazem brincadeiras picantes e vulgares, cuja característica comum é evidenciar o cinismo, reiterar a escolha do partido que se tomou na luta social, cultivar o desprezo pelas vítimas e reafirmar os chavões sobre a necessidade de reduzir os benefícios sociais como forma de salvar o país da derrocada econômica.

Uma outra característica dessas empresas é a opção pela contratação de jovens inexperientes ou a terceirização maciça de trabalhadores, o que leva a uma “reserva” de trabalhadores condenados à precariedade constante, à redução dos salários dos empregados efetivos e a uma flexibilidade alucinante de emprego. Em geral, arregimentam-se os jovens sem qualificação técnica, privados da transmissão da memória do passado e sem os vícios da “velha organização”. Com isso se pretende “apagar os vestígios” da velha ordem e provocar submissão dos novos empregados, desejosos de aprender e mostrar seu empenho. Os jovens acabam aceitando todas as tarefas polivalentes, sem regatear.

Para isso, é necessário, primeiro, remover todos os obstáculos do que chama de“teoria economicista” (que diz que é necessário precarizar as relações de trabalho em nome da urgência econômica de salvar as nações). Entre esses obstáculos estão aspessoas, excluídas por meio de demissões, enxugamentos, transferências e outras práticas do gênero: “...demitem-se prioritariamente os menos capazes, os velhos, os inflexíveis, os esclerosados, os que não podem acompanhar o progresso, os retardatários, os passadistas, os ultrapassados, os irrecuperáveis. Além disso, muitos deles são preguiçosos, aproveitadores e até maus-caracteres”.

O que isso tem a ver com os cristãos? Se analisarmos do ponto de vista estritamente empresarial, pouco. Afinal de contas, até bem pouco tempo, as organizações eram consideradas como entidades alienadoras do homem e restritas sociologicamente falando, em comparação com a própria sociedade. Além disso, estaria fora do campo de ação da Igreja, já que esta se preocupa mais com os indivíduos. Nos últimos15 anos, entretanto, as organizações assumiram um papel de destaque nas sociedades ao ponto de alguns estudiosos afirmarem que a sociedade futura será formada de organizações.

Assim, quando olhamos para a sociedade atual e todas as ramificações dos seus problemas, percebemos que os males das organizações fazem parte de um conjunto único de crenças e práticas que atingem a todos, indistintamente, e que podem ser sintomas de uma terrível variação no estilo de dominação do homem pelo homem, uma forma mais sutil em comparação com o fascismo e o nazismo, mas não menos atemorizante: a ditadura econômica, a ditadura do acesso à sobrevivência em nome da salvação da economia. Em nome da sobrevivência econômica, se constrói uma lógica na qual se desconsidera a ética e se aproveita para eliminar os inimigos pessoais e ideológicos, ou mesmo aqueles que discordam de suas práticas.

Olhando por esse prisma, os cristãos têm tudo a ver com o problema. Afinal de contas, opressão é opressão em qualquer lugar. É necessário abrir os olhos e não se deixar manipular pelos slogans, pelos métodos triunfalistas de obter resultados, pelas tendências de punição e exclusão empresariais que não estejam de acordo com os princípios de respeito à dignidade do homem.

É lembrar que a Bíblia continua profética. Todo o seu conteúdo, apesar das tentativas dos que “espiritualizam” suas palavras, revela um profundo engajamento nas causas sociais e econômicas, inclusive no que diz respeito à sobrevivência do homem. Como está escrito em Amós 5.12 e 8.4-6:

“Porque sei serem muitas as vossas transgressões e graves os vossos pecados; afligis o justo, tomais suborno e rejeitais os necessitados na porta.”

“Ouvi isto, vós que tendes gana contra o necessitado e destruís os miseráveis da terra... comprando os pobres por dinheiro e os necessitados por um par de sandálias...”


Eleazar de Castro Ribeiro é mestre em Gestão de Pessoas pela Universidade de São Paulo (USP), consultor de Recursos Humanos do Banco do Nordeste, professor da Universidade Estadual do Ceará e da Universidade de Fortaleza e presbítero da Igreja de Cristo em Fortaleza, CE.

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