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Reflexão — Ricardo Gondim

Os perigos do crescimento numérico

Fui apresentado com reverência. Havia uma aura de respeito e curiosidade no ambiente. Senti-me superior, importante como preletor de um congresso na Holanda. Rodeado das mais lúcidas expressões do movimento evangélico mundial, eu, totalmente desconhecido, gerava toda aquela expectativa. As pessoas queriam me ouvir não por eu ser famoso nos círculos internacionais (o que decididamente não sou), mas porque eu era o preletor brasileiro que abordaria o fenomenal avivamento religioso que varre o Brasil e a América Latina. Entrava em campo com a mesma superioridade dos craques do futebol tetracampeão.

Enquanto a Europa cristã perde nos censos demográficos e outros países mal conseguem empatar com magros crescimentos vegetativos, os evangélicos brasileiros goleiam todos os anos com avanços numéricos impressionantes. David Stoll, sociólogo norte-americano, escreveu Is Latin America Turning Protestant? (A América Latina está se tornando protestante?) com estatísticas repletas de superlativos. Convém citar um parágrafo: “No continente latino-americano, os dois países mais evangélicos até recentemente eram o Brasil, em que os protestantes dizem ser até 18% da população, e o Chile, onde chegam a 25 %. Os supostos 22 milhões de evangélicos brasileiros representam três em cada cinco dos evangélicos de toda a América Latina e do Caribe... No Brasil, de acordo com a World Evangelization Crusade, o crescimento ainda é ‘espantoso’. Entre 1960 e 1970 o crescimento evangélico foi de 77%; entre 1970 e 1980 foi de 155%.”

Depois de fornecer mapas sobre o crescimento protestante em diversos países latino-americanos, David Stoll brinca com os números: “Se extrapolarmos com objetivos retóricos as taxas de crescimento de 1960 a 1985 para mais 25 anos, o Brasil terá 57% de evangélicos, Porto Rico, 75% e a Guatemala, 127%”.

Devido a estatísticas como essas, o mundo se impressiona e os brasileiros se envaidecem: “Estamos numa verdadeira piracema espiritual”; “Logo poderemos eleger o próximo presidente”. Jargões como esses demonstram como a comunidade evangélica brasileira foi tomada, durante as décadas de 80 e 90, de um grande ufanismo.

Não querendo discutir se o vertiginoso crescimento da população evangélica brasileira realmente caracteriza um avivamento, há de se meditar nos perigos que ele representa, alguns já evidentes e exuberantes. 

O enfraquecimento doutrinário
Os evangélicos, quando minoria, precisavam argumentar sua fé até por uma questão de sobrevivência. Agora, maiores e mais inseridos na cultura, há menos necessidade de dar boa razão do que crêem. Os conceitos de evangelização deixam de possuir um diferenciador teológico. A argumentação fica desprovida de apologia. Com uma expansão acelerada, já existem evangélicos nominais, semelhantes àqueles que observávamos entre os católicos e denunciávamos veementemente. Em alguns programas “evangelísticos” veiculados pelo rádio e pela televisão, depois de ouvir a “pregação” e o apelo final dos pastores, pergunto-me: As pessoas se converterão de que para que?

Crescer é perigoso também pela fragilização ética; pelo açodamento de colocar neófitos com responsabilidades acima de sua maturidade — presas fáceis da soberba e da condenação do diabo (1 Tm 3.6); pela tentação de se confundir sucesso com bênção; pelos messianismos; por se instrumentalizar pessoas como meros peões em projetos pessoais. No Brasil, todos essas ameaças nos fragilizam. 

A secularização
A multiplicação dos evangélicos brasileiros pode ser faca de dois gumes. Aqui, quanto maiores as fatias demográficas abocanhadas, mais fundo o fosso que separa a igreja dos formadores de opinião. Os frágeis conteúdos apologéticos alienam os protestantes dos meios acadêmicos. Quem são os evangelistas dos professores universitários? Quem escreve com argumentos pertinentes aos cientistas brasileiros? Quantos escritores cristãos são respeitados pela crítica literária nacional? Infelizmente a produção cultural evangélica só empolga os próprios evangélicos. Só nós nos embriagamos com a exuberância de nossos discursos. Os seminários, infelizmente, não conseguem mais formar eruditos. Os jovens pastores passam anos estudando numa camisa de força institucional. Formam-se para repetir o discurso da denominação a que pertencem.

Minha filha estuda arquitetura em uma instituição que ostenta o nome de uma grande denominação brasileira. Mas é só isso. Nos três anos de seu curso nunca viu nem ouviu resíduo cristão no seu dia-a-dia universitário. Sem alcançar poetas, cronistas, arquitetos, cientistas políticos, sociólogos, físicos, juristas, músicos, filósofos, jamais conseguiremos causar impacto em nossa geração. Cresceremos com índices empolgantes, mas sempre na marginalidade. Pior, afugentaremos os formadores de opinião. Corroboraremos com o senso comum de que os pastores são manipuladores de auditório, as igrejas, meros espaços para extorquir dinheiro e os cristãos não passam de massa de manobra.

Soren Kierkgaard (1813-1855), teólogo dinamarquês, brindou-nos com uma parábola que ilustra bem esse conceito. Conta-nos que um grande circo acampou nas cercanias de uma cidade. Na tarde que antecedeu a estréia, quando saltimbancos, mágicos e trapezistas se preparavam para o espetáculo, começou um incêndio no circo. O palhaço, já trajado e pintado, correu para a cidade em busca de socorro. Desesperado, ele gritava em praça pública, clamando por auxílio. Porém, quanto mais elevava sua voz e corria de um lado para o outro, mais as pessoas se divertiam. Pensavam que ele usava de um ardil excelente para lotar o circo. Exausto e em desespero, caiu de joelhos: “Por Deus, por Deus! Ajudem-nos! O circo está em chamas.” Os meninos gargalhavam. Os mais velhos se maravilhavam dizendo: “Quão extraordinário ator se mostra o figurante do circo, que sabe chorar para fazer graça”. E o circo foi destruído pelas chamas.

A moral da história é que, se perder o testemunho, a igreja perde também a autoridade para falar. Não custa perguntar: Será que não devemos nos preocupar quando pessoas passam a enxergar os pastores como aproveitadores da boa índole do povo? Será que não notamos o desdém dos formadores de opinião para com esse cristianismo esquálido que nada mais tem a dizer senão uma promessa mesquinha de riqueza e prosperidade? 

Um novo anticlericalismo
Preocupo-me com o rescaldo que deixaremos para os cristãos do próximo milênio. Terão de lidar com uma nação totalmente antipática à simples menção do nome de Cristo. É possível que aconteça aqui o mesmo anticlericalismo que varreu a Europa no século passado, esvaziando as igrejas. Proponho repensarmos a igreja a partir dos conceitos comunitários do Novo Testamento e não das exigências mercadológicas; revermos o papel dos pastores consagrados à oração e ao ministério da palavra (At 6.4); reconceituarmos o que entendemos por evangelização, explicitando sempre verdades fundamentais como graça, justificação, redenção e santificação; retomarmos o papel profético de denúncia do pecado como um estilo de vida que adoece todas as dimensões de nossa humanidade; reafirmarmos a mensagem bíblica do arrependimento, demonstrando que há uma rebelião ostensiva do ser humano contra um Deus amoroso e bom; buscarmos encarnar a compaixão de Deus para com os pobres, os desesperados e pecadores, sendo igreja terapêutica. Só assim a expansão evangélica conseguirá refletir o reino de Deus no Brasil.

Kierkgaard expressou seu clamor numa oração que precisa ser nossa também: “Pai Celeste! Caminha conosco como antigamente caminhavas com os hebreus. Oh, não nos faças crer que nos tornamos grandes demais para menosprezar tua educação, mas faze que cresçamos para nos conformarmos a ela. Que possamos crescer sob ela como um trigo bom cresce sem pressa: que não nos esqueçamos quanto Tu fizeste por nós! E, quando tua ajuda nos tiver assistido solicitamente com um milagre, faze que não voltemos a procurá-la como criaturas ingratas, porque comemos e nos saciamos. Faze-nos sentir que sem ti para nada prestamos, mas não permitas que o sintamos em vil impotência e, sim, em confiança vigorosa, com a certeza feliz de que Tu és forte nos fracos.”

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim é pastor da igreja Assembléia de Deus Betesda, em São Paulo, e autor de, entre outros, É proibido (Editora Mundo Cristão).

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