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Reflexão — Valdir Steuernaguel

Impossíveis histórias de vida

Os caminhos de Deus vão além da miséria humana

Que tempos são esses?
Às vezes saio a caminhar com um amigo meu. Passos vão, passos vêm, há uma expressão que ele sempre diz: “Tempos difíceis, estes que vivemos!” É que nessa caminhada a gente fala das coisas da vida: de nós mesmos, da família e dos amigos. E, não raro, acaba-se chegando a alguma encruzilhada da perplexidade.

A verdade é que tanto você como eu temos dificuldade de processar o nosso tempo e os nossos dias. Depois de colocar os assuntos do dia no processador da vida, continuamos tendo em mãos duros pedaços, renitentes ao processamento. Os jovens, que não sonham além do consumo, a empregabilidade, que se constitui num pesadelo para tantos, a violência, que não pára de crescer, o individualismo, que insiste em expandir-se, os relacionamentos, que teimam em não se constituir, as famílias, que não param de se dividir e um governo que, no seu desencontro, povoa o espaço com uma qualidade de ar que nos produz grande mal-estar. E, cansados, suspiramos: “Tempos difíceis, estes!”

O sinal está verde?
Poucas vezes vi-me tão consciente de que vivo nestes dias. Sou filho do nosso tempo. O cristão não pode deixar de viver e experimentar o contexto de vida, como todos, sem exceção e opção, o fazem. Ele não está acima dos conflitos e das perplexidades. Ele também é assaltado e fica doente. Vive o desemprego e as crises. Enfrenta dificuldade na família e sofre o impacto de um Estado mal governado. (Ou o cristão não paga CPMF?)

Vivendo num outro contexto e experimentando a dificuldade da sua vocação, o apóstolo Paulo trabalhou essa relação entre a dificuldade e a esperança: “Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos” (2 Co 4.8-9).
O cristão vive no tempo, mas não pode entregar os pontos. Ele resiste. Sabe-se parte do contexto, vivendo as agruras da situação, mas a elas não se rende. Contra elas protesta. Busca caminhos de vida e esperança.

Olhando, pois, a minha vida, percebo e sinto as dificuldades da época que vivemos. Mas, ao mesmo tempo, preciso e quero dizer que Deus tem sido extremamente bondoso. O pedaço de pão e a xícara de café com leite sobre a mesa não têm faltado. A conversa com os meninos em torno da mesa e o carinho da esposa me têm animado. O abraço dos irmãos e irmãs na fé e a confirmação do caminho da vocação me têm sustentado. A confirmação do ministério e o alimento substancial que vem pela Palavra de Deus é algo de que não posso abrir mão. A presença dos sonhos na quietude e os milagrosos sinais do cuidado de Deus evidenciam seu amor e carinho.

O momento da nossa vida, as nossas experiências cotidianas e os sinais de decomposição que nos cercam podem testificar que vivemos tempos difíceis. Mas a graça de Deus, que brota como uma flor no deserto, é sinal não apenas da sua misericórdia, como também da possibilidade de se viver e compartilhar essa misericórdia em nossos dias e em nossa sociedade.

O apóstolo Paulo testemunha que a luz resplandece nas trevas e isso faz a diferença: “Porque Deus que disse: De trevas resplandecerá luz —, Ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo” (2 Co 4.6).

Não se esqueça de olhar. O sinal está verde.
O que quero resgatar hoje é essa misericórdia de Deus, que parece fazer de ingredientes tão sem graça um prato tão bonito! Nas palavras de Paulo, Deus enobrece o vaso ao colocar nele os seus tesouros (2 Co 4.7). E quanto mais impossível isso parece, tanto mais a sua glória resplandece e tanto mais o sinal — sinal de Deus — parece estar verde. Recentemente encontrei duas pessoas que, ao meu coração, foram sinais vivos dessa incrível graça de Deus. De fato, eu não poderia deixar de murmurar: “Só Deus faz isso!”

Olhe só a Kim! Ela está sorrindo!
É claro que não a reconheci. Isso, afinal, seria impossível. Até porque eu não a conhecia; tudo que eu havia visto era uma fotografia dela ainda menina. Mas o sorriso estampado em seu rosto dava testemunho de uma profunda transformação de vida.

Foi assim que a conheci: sorridente e falante em torno da mesa de jantar, às margens das Cataratas do Niágara, em pleno Canadá. Com muita liberdade, ela falava da sua história, da qual eu saberia um pouco mais ao ouvir seu testemunho de vida na conferência à noite.

Muitos de vocês hão de lembrar-se da história, expressa numa fotografia tirada na guerra do Vietnã: uma menina de nove anos de idade, correndo despida, consegue sair viva das bombas de napalm, incendiárias por natureza, que os americanos jogaram sobre civis. Uma cena terrível e trágica, que ganhou o mundo ao ser captada por um fotógrafo.

Enquanto corria, contou-nos Kim, ela arrancava a roupa em chamas. E, queimada, foi levada para o hospital pelo fotógrafo. E foi ali, internada no setor do hospital que acolhia os desenganados, que seus pais a encontraram. Ela testemunhou que as suas dores eram intensas, e quando se tornavam insuportáveis ela desmaiava.

Mas ela sobreviveu, mesmo que as dores tenham sido enormes e o custo, extremamente alto. Catorze meses e dezessete cirurgias depois, ela saiu do hospital. As marcas físicas e emocionais, no entanto, a acompanharam na saída e nos difíceis dias que se seguiram. Desfigurada para sempre, ela chorava.

Foi nesse contexto de vulnerabilidade e crise que, levada a uma igreja, ela aceitou o chamado de Deus. “Com o coração quebrantado eu respondi ao convite”, ela testemunhou, “e recebi o Senhor Jesus”.

Tendo percorrido vários caminhos, hoje vive no Canadá. Eu olhava para ela e pensava: “Só Deus pode fazer isso!” E foi isso mesmo que ela disse.

Nomeada embaixadora da UNESCO, ela tem tido a oportunidade de contar sua história em muitos lugares e convocar muitos à paz. Sonhando com a paz, ela diz que não pode mudar o passado, mas pode ajudar a buscar a paz no presente. E foi nessa perseguição que um dia ela se viu face a face com um homem que esteve envolvido na precipitação daquelas bombas e pôde estender-lhe o perdão. “Deus me preparou para esse encontro”, ela disse, “e eu pude lhe dizer que o perdoava”. Um perdão divino, porque humanamente impossível.

A hora avançava. Começava a fazer-se tarde e ela precisava terminar seu testemunho. Mas a forma como o fez me impactou. Uma vez mais, envolvendo o esposo, presente no jantar, e olhando para o futuro, ela se dispôs nas mãos de Deus. E visualizando o caminho missionário disse: “O nosso futuro é o compromisso com o Senhor”. E nós, aplaudindo, respeitamos a sua história, demos glória a Deus e reverenciamos a sua disposição para servir a Deus em missão e convocar o mundo à paz.

Uma trágica porém bonita história a dar testemunho da beleza e da profundidade da redenção de Deus. Os tempos são difíceis, sim, mas os caminhos de Deus vão além da miséria humana.

Conheça Jean-Baptiste e aposte na reconciliação
Encontrando gente aqui e ali e tendo oportunidade de conversar com um e com outro, a gente vai aprendendo algumas coisas. Hoje se aperta a mão de uma autoridade e amanhã se saúda um pobre pai de família. É nessa jornada, pois, que aprendi a reverenciar não tanto o que vai longe, mas o que vai fundo. O que experimenta a miséria e a dor de formas indescritíveis e, no final do dia, de pé procura encarar a vida.
É por isso que, em reverência, saúdo Jean-Baptiste, um sobrevivente da chacina de Ruanda, que se transformou num apóstolo da reconciliação.

As razões históricas, culturais e sociológicas que levaram à chacina de 1 milhão de pessoas em Ruanda podem ser muitas. Mas o fenômeno continua inexplicável. E quando me dizem que 80% da população do país era cristã e que membros da mesma igreja se mataram, eu baixo os olhos pasmo.

Assim conheci Jean-Baptiste, um homem marcado pela matança em Ruanda. Depois de 1994 nunca mais sua vida foi a mesma. Ele não era apenas um engenheiro bem sucedido, que, tendo de se exilar no Congo, perdeu tudo o que tinha. Era também, como ele diz, um sobrevivente a enfrentar a dificuldade da sobrevivência.

Veio de uma família de doze irmãos, vários deles casados. Compunham, ao todo, uma família de cerca de sessenta pessoas, que, com exceção de três sobrinhas, todas foram mortas. Em 1994, ao ver a mãe ser morta — em suas palavras, “por alguém que considerávamos irmão” — ele achou que a vida acabaria. “A esperança e a dignidade se perderam”, disse ele. Ficaram as cinzas, a dor, a desesperança e as três sobrinhas com as quais ele vive agora.

É por ele não ter enlouquecido que silencio diante dele. É pela sua disposição de chacoalhar as cinzas e pela sua teimosia em caminhar que o respeito. É pela sua fé, a fé que lhe permite sobreviver, que o reverencio. E, como ele próprio disse, só pôde sobreviver por sua esperança em Cristo e sua resposta na reconciliação.

Agora pastor no Norte de Ruanda, Jean-Baptiste tornou-se um promotor de seminários de reconciliação, num país marcado por ódio, horror e feridas. Reconciliação num país onde os remanescentes têm abundantes traumas e os pesadelos invadem as noites de muitas crianças; onde os sinais de miséria estão por todo lado e viúvas perambulam de mãos vazias. Um país onde mutilados e mulheres estupradas são incontáveis; onde as prisões estão lotadas, a superpopulação continua a existir e a economia está aos pedaços. Um país onde a desconfiança mútua se alastra, o ódio é abundante e as feridas literais e emocionais são incontáveis. É nesse ambiente que Jean-Baptiste se envolve na organização de seminários de reconciliação, pelos quais as pessoas podem entrar em contato com sua dor, juntar cacos da sua história, experimentar níveis de reconciliação e buscar a paz.

Em silêncio, com lágrimas nos olhos, cumprimento Baptiste. Um amigo mútuo olha para mim e sussurra: “Não tem sido fácil”, com o que meu coração concorda. Com um nó na garganta murmuro para mim mesmo: “Só Deus pode fazer isso!” São impossíveis histórias de vida a testemunhar que os caminhos de Deus vão além da miséria humana.

“Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o Senhor, o criador dos fins da terra, nem se cansa nem se fatiga? Não se pode esquadrinhar o seu entendimento. Faz forte ao cansado, e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor. Os jovens se cansam e se fatigam, e os moços de exaustos caem, mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam.” (Is 40.28-31.)

Valdir Steuernagel é pastor luterano, diretor do Centro de Pastoral e Missão e presidente da Visão Mundial Internacional.

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