Especial — Série Paul Tournier
Os frutos do pioneirismo de Paul Tournier II
A influência da religião sobre a saúde
Nº 4 — Julho 1998
Em parceria com o Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC) e em comemoração aos 100 anos do nascimento de Paul Tournier, Ultimato publica o quarto artigo da série em torno da vida e obra deste médico cristão e escritor suíço de reconhecimento mundial. A matéria produzida pelo CPPC ocupará sempre quatro páginas. Qualquer correspondência alusiva à Série Paul Tournier deverá ser dirigida ao CPPC.
Psiquiatria e psicologia são ciências novas, nascidas praticamente no século passado. Seu relacionamento com a religião tem sido conturbado, com desconfianças e hostilidades de ambos os lados. Os escritos de Freud, pai da psicanálise, considerando a religião uma ilusão e o transtorno obsessivo-compulsivo da humanidade certamente não contribuíram para um melhor entendimento. Albert Ellis, criador da Terapia Racional Emotiva, em seu estilo contundente, precipitadamente afirmou ser a religião causadora de patologia e neuroses. Mais tarde, diante das evidências em contrário apresentadas por Malony, que estudou pacientes da própria clínica de Ellis, mostrando que os religiosos apresentavam maior progresso e saúde, Ellis reconheceu seu engano.
Dois pioneiros suíços, Oskar Pfister, pastor, e Paul Tournier, médico, deram importante contribuição para mudar esse clima de animosidade. A correspondência entre Oskar Pfister e Freud foi recentemente publicada pela Editora Ultimato, e a revista Ultimato tem publicado uma série de artigos sobre o trabalho e ministério de Paul Tournier. Dessa forma, uma colaboração inestimável tem sido prestada à prática médica, psiquiátrica, psicológica e teológica. Essas publicações irão sem dúvida ajudar nossos profissionais cristãos a melhor integrar sua fé em suas profissões, e terão impacto no ministério cristão.
Paul Tournier foi um dos pioneiros da aplicação da fé cristã à prática médica e à psicoterapia, sendo seu trabalho considerado como praticamente sinônimo de Aconselhamento Cristão. Seus livros, de agradável leitura, tocam ainda o coração de muitos, ajudando e despertando o crescimento pessoal e espiritual, aprimorando o conhecimento do si mesmo e permitindo uma vida mais plena na comunhão com Deus.
Gostaria de tratar aqui dos frutos desse pioneirismo, que, em épocas de grande preconceito contra a religião no meio psicológico, trouxe uma luz diferente para se entender os problemas humanos.
A possibilidade de integração vislumbrada e vivida por Pfister e Tournier tem inspirado o estudo científico do relacionamento entre religião e psiquiatria. Esse estudo mantém a polarização e ambigüidade que a religião sempre traz, alguns achando que ela é prejudicial à saúde mental, outros defendendo seus benefícios.
Os que afirmam ser a religião prejudicial argumentam que ela:
a) gera níveis patológicos de culpa;
b) promove o auto-denegrir-se e diminui a auto-estima, por meio de crenças que desvalorizam nossa natureza fundamental;
c) estabelece a base para a repressão da raiva;
d) cria ansiedade e medo por meio de crenças punitivas (por exemplo: inferno, pecado original etc.);
e) impede a autodeterminação e a sensação de controle interno, sendo um obstáculo para o crescimento pessoal e funcionamento autônomo;
f) favorece a dependência, o conformismo e a sugestionabilidade, com o desenvolvimento da confiança em forças exteriores;
g) inibe a expressão de sensações sexuais e abre caminho para o desajuste sexual;
h) encoraja a visão de que o mundo é dividido entre “santos” e “pecadores”, o que aumenta a intolerância e a hostilidade em relação “aos de fora”;
i) cria paranóia com a idéia de que forças malévolas ameaçam nossa integridade moral;
j) interfere o pensamento racional e crítico.
Os que acham que a religião tem um impacto positivo sobre a saúde argumentam que ela:
a) reduz a ansiedade existencial ao oferecer uma estrutura cognitiva que ordena e explica um mundo que parece caótico;
b) oferece esperança, sentido, significado e sensação de bem-estar emocional;
c) ajuda as pessoas a enfrentarem melhor a dor e o sofrimento, por meio de um fatalismo reassegurador;
d) fornece soluções para uma grande variedade de conflitos emocionais e situacionais;
e) soluciona o problema perturbador da morte, por meio da crença na continuidade da vida;
f) dá às pessoas uma sensação de poder e controle, por meio da associação com uma força onipotente;
g) estabelece orientação moral que suprime práticas e estilos de vida auto-destrutivos;
h) promove coesão social;
i) fornece identidade, satisfazendo a necessidade de pertencer, ao unir as pessoas em torno de uma compreensão comum;
j) fornece as bases para um ritual catártico coletivo.
Religião madura e saudável
Para Pruyser, eminente psicólogo cristão, os componentes de uma teologia são idealizados para formar um plano de vida que, se praticado, pode trazer alegria e satisfação ao que crê. Toda religião contém esses elementos e sua integração a um estilo de vida é o determinante da relação positiva entre religião e saúde mental. Esses elementos são multidimensionais, mais complexos que o simples freqüentar um serviço religioso e se conformar a certas crenças. Malony, numa perspectiva cristã, denominou-os “teologia funcional”:
— Consciência de Deus: o grau em que a pessoa experimenta uma sensação de deslumbramento e a sensação de ser uma criatura no relacionamento com o divino (i.e., reverência versus idolatria);
— Aceitação da graça e amor incondicional de Deus: o grau em que a pessoa vivencia e compreende o amor e benevolência de Deus (i.e., confiança e sensação da presença da providência divina versus independência e desesperança exagerados);
— Arrepender-se e ser responsável: o grau em que a pessoa assume responsabilidade pelos seus próprios sentimentos e comportamentos (i.e., redenção, justificação, perdão e mudança versus falta de consciência, irresponsabilidade, amargura e vingança);
— Conhecer a liderança e a direção de Deus: o grau em que a pessoa confia, espera e vive a direção de Deus em sua vida (i.e., fé versus desespero);
— Envolvimento com a religião organizada: o grau quantitativo, qualitativo e motivacional em que a pessoa está envolvida com a igreja (i.e., compromisso, participação e associação versus isolamento e solidão);
— Vivenciar comunhão: o grau em que a pessoa se relaciona e tem uma noção de identidade interpessoal (comunhão com outros versus estar centrado em si mesmo e orgulho);
— Ser ético: o grau em que a pessoa é flexível e compromissada à aplicação de princípios éticos na sua vida diária (i.e., noção de vocação e do viver os valores da vida versus perda de sentido e perda do sentimento de dever).
Malony acrescentou uma oitava categoria, pois a pessoa madura do ponto de vista religioso deve ser tolerante, e não pré-julgadora: o grau em que a pessoa está crescendo, elaborando e tornando-se aberta a novidades em sua fé (i.e., humildade e interesse por mudanças versus mente fechada e autoritarismo).
O que os estudos científicos mostram
Quando se estuda o assunto as evidências são amplamente favoráveis à valorização da religião no trabalho médico e psiquiátrico.
Procurando deixar os precenceitos de lado, diversos cientistas procuraram avaliar em suas pesquisas a influência da religião sobre a saúde mental. Os resultados são surpreendentes: religião está associada a bem-estar, saúde física, diminuição da mortalidade, melhor controle da pressão arterial, maior capacidade de enfrentar o estresse, maior satisfação conjugal e sexual. Em relação à saúde mental notou-se maior ajustamento pessoal e menos tempo de internação em clínicas psiquiátricas.
Koenig revisou extensamente os trabalhos, relacionando saúde e religião em idosos, observando que:
— “Evidência se acumula em apoio da visão que o compromisso religioso maduro e dedicado sob a forma de crenças e atividades baseadas na tradição judaica-cristã está relacionada a maior bem-estar e menores níveis de depressão e ansiedade”.
— Esses trabalhos operacionalizaram religião como atividade religiosa organizacional (freqüência à igreja e a outras atividades relacionadas); atividade religiosa não-organizacional (oração, leitura das escrituras, ouvir programas religiosos na televisão ou no rádio); rituais religiosos (sacramentos, leis sobre dieta, modo de se vestir) e crenças religiosas, religiosidade intrínseca e força do compromisso religioso. Ainda, enfatizaram o uso de qualquer uma dessas formas de expressão religiosa como ajuda para enfrentar o estresse psicológico.
— Freqüência à igreja correlaciona-se de maneira consistente com ajustamento pessoal, felicidade ou satisfação na vida, bem-estar, menor taxa de suicídio, menos sintomas depressivos, menor ansiedade em relação à morte e melhor adaptação a períodos de luto, em idosos que estão morando tanto na comunidade como em instituição.
— O envolvimento na comunidade religiosa provê companhia e amigos de idade parecida e com os mesmos interesses; um ambiente que fornece apoio para amortecer mudanças estressantes na vida; uma atmosfera de aceitação, esperança e perdão; uma fonte prática de assistência, quando necessário; uma visão comum do mundo e uma filosofia de vida.
— Estudos procuraram controlar freqüência a cultos, uma vez que, entre idosos, isso pode ser importante viés, pois freqüenta quem tem boa saúde física, e boa saúde física relaciona-se sempre positivamente com bem-estar. Assim, freqüência a serviços religiosos pode ser apenas um sinal de boa saúde física e nada ter que ver com boa saúde mental. Mesmo quando isso é controlado, a relação entre freqüência a cultos e saúde mental se mantém.
Outra área em que a religião é importante é o tratamento da dependência de álcool e drogas.
Duas são as explicações para o efeito da religião sobre a supressão do uso de substâncias: a função de controle social que a religião exerce, desencorajando desvios, delinqüência e comportamentos auto-destrutivos, e o desenvolvimento de recursos pessoais (sucesso acadêmico, valores pró-sociais, competência social) e ambientais positivos (harmonia familiar, comunicação pais—filhos, apoio dos pais, apoio de outros adultos). O papel da religião contra o uso de substâncias tóxicas relaciona-se também ao grau em que essas normas se sobrepõem ou são contrárias às normas culturais. Ou seja, a religião tem maior efeito quando há diferentes opiniões na sociedade sobre o uso da substância em questão; e menor efeito, se houver acordo com outros mecanismos de controle social desencorajando o uso. Não se sabe como a religião promove os recursos pessoais e sociais que agem na prevenção.
O exemplo mais bem sucedido do papel da religião é o movimento internacional dos Alcoolistas Anônimos, que surgiu inspirado por uma reunião de reavivamento, nela se baseando para estruturar sua organização e princípios.
Os AA e outros grupos de auto-ajuda com freqüência iniciam ou encerram suas reuniões com a bela oração de Reinhold Niebuhr:
“Senhor, dê-me a serenidade
de aceitar as coisas que não posso mudar,
a coragem de mudar aquilo que posso,
e a sabedoria para saber a diferença.”
O décimo primeiro passo dos AA diz: “Procuramos através da oração e meditação melhorar nosso contato consciente com Deus, como quer que o entendamos, orando somente pelo conhecimento da sua vontade para nós e pelo poder de levá-la adiante”.
Os outros princípios procuram ajudar a pessoa na sua grande luta espiritual para sobrepujar a força do alcoolismo e outros vícios.
Importante é que, apesar da extensa literatura disponível acerca do papel da religião no uso de substâncias, esses trabalhos não estão presentes nas principais revisões sobre o assunto, tendo, portanto, pouca influência no estabelecimento de políticas sociais, planejamento comunitário ou desenvolvimento de programas. Esse esquecimento irresponsável tem de ser sanado.
Religiosidade intrínseca e compromisso religioso
Allport estudou dois tipos de religiosidade, a intrínseca e a extrínseca. Na religiosidade intrínseca a pessoa realmente acredita e procura viver sua fé. Ela é o princípio motor de sua vida. Na extrínseca, a religião é um meio para atingir outros fins. Por exemplo, uma conversão com finalidade de casamento, freqüentar o serviço religioso por status e porque é bom para os negócios. Betson e Ventis acrescentaram um terceiro tipo, que é a religião do tipo busca. A religiosidade intrínseca correlaciona sistematicamente com saúde e saúde mental. A religiosidade extrínseca é aquela que dá um mau nome à religião, pois está relacionada a intolerância e preconceito. Uma boa medida indireta da religiosidade intrínseca é o compromisso religioso, a freqüência com que a pessoa pratica os rituais de sua religião (oração, serviços religiosos, literatura, hora devocional etc.).
Gartner e colaboradores analisaram cerca de 200 artigos recentes e as revisões prévias, e concluíram que compromisso religioso tem uma relação positiva com saúde física, bem-estar, prognóstico de doenças, satisfação conjugal, diminuição da mortalidade, menores índices de suicídio, uso de drogas, uso de álcool, delinqüência, depressão e divórcio.
Esses achados obtidos sistematicamente mostram que Pfister e Paul Tournier estavam certos, e foram sua coragem e sua integridade intelectual que permitiram que pudéssemos fazer as afirmações acima com tanta segurança.
Referências:
1. LOTUFO NETO, Francisco. Psiquiatria e religião; a prevalência de transtornos mentais entre ministros religiosos. Tese de Livre-docência apresentada em 1997 na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Francisco Lotufo Neto é médico psiquiatra membro do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos e professor associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Opinião do leitor