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Opinião

Teologia com os pés no chão



Teologia não é uma linha reta. Em seu caminho, há curvas, pistas acidentadas, encruzilhadas e... fronteiras. Esta foi a ênfase do Encontro que celebrou a história da Fraternidade Teológica Latino-americana (FTL) na semana passada em São Paulo (SP), com o tema “FTL-45 anos e as fronteiras teológicas na contemporaneidade”.

230 pessoas (aproximadamente 20% delas eram de outros países) reuniram-se durante três dias (4 a 6/06) em uma programação intensa na Igreja Batista de Água Branca para celebrarem a caminhada história da fraternidade e discutirem temas relevantes para hoje. “O Evangelho é espaço de fronteiras. Fronteiras são vigiadas. Atravessar fronteiras geralmente exige transgressão. Este encontro nos provocou e agora nos convida a refletir sobre temas de fronteiras que nos desafiam. Até onde queremos chegar com estas reflexões?”, perguntou Odja Barros, pastora e teóloga de Maceió (AL) logo no início do evento. Para Clemir Fernandes, do Rio de Janeiro (RJ), mais do que teologia pública nossa contribuição deve ser missão pública, cruzando fronteiras.

Fronteiras
Hermenêuticas, gênero, sexualidade, teologia da criança, teologia pública, cidadania, política, diversidade racial, diálogo inter-religioso, ecologia, meio ambiente, sustentabilidade, pentecostalismo e neo-pentecostalismo, igreja, cultura, história, literatura, arte. Estes foram os principais temas discutidos nas plenárias do Encontro da FTL.

As plenárias eram compostas por três pessoas (dois preletores e um mediador). Cada preletor tinha 30 minutos para expor suas ideias. Ao final, restavam dez minutos para perguntas do público. A programação começava às 9 da manhã e - fora os intervalos para refeições - terminava por volta das dez da noite. Cada turno era iniciado com um tempo de canções e louvor. Roberto Diamanso foi responsável pelos momentos musicais. Carlinhos Veiga também participou uma vez. O Encontro foi encerrado com a celebração da ceia. Clemir Fernandes, Marcelo Vargas e Tonica van der Meer conduziram a cerimônia, que também contou com a participação de jovens na entrega do pão e do vinho, e da leitura, pelo próprio autor, de um poema do chileno Luis Cruz Villalobos. “O Encontro, na verdade, não terminou, não será encerrado. Vamos continuar nossas reflexões e nosso fazer teológico no solo latino-americano”, disse Lyndon de Araújo Santos, que presidiu a FTL seção Brasil até este ano e que, por eleição, passou o cargo a David Mesquiati.

Entre o passado e o presente. Mas e o futuro?
Toda teologia tem um ingrediente de autobiografia, disse Valdir Steuernagel. E foi possível perceber isso em muitas falas nas plenárias. Ed René Kivitz, Antonia Leonora van der Meer, Tito Paredes, Ruth Padilla e outros iniciaram suas preleções contando suas próprias histórias em busca de respostas de Deus no contexto missionário da América Latina. Este encontro tinha todos os motivos para valorizar as histórias pessoais na caminhada de 45 anos da FTL. René Padilla, Samuel Escobar e Pedro Arana - os fundadores da fraternidade em 1970 em Cochabamba, na Bolívia - estavam presentes, fizeram preleções e receberam justas homenagens. Mas não só isso, eles foram frequentemente mencionados como exemplos de líderes para os teólogos da América Latina. O sociólogo Tito Paredes e o escritor Carlos Martinez lembraram que, logo no início, os três os incentivaram a refletir e escrever, mesmo que ainda fossem novos e com pouca experiência.

O momento mais emocionante foi quando estes “pais” da FTL foram homenageados por seu trabalho e dedicação. Tomás Gutiérrez, Lyndon Araújo e Ruth Padilla reconheceram a contribuição deles, relembraram a caminhada dos três, oraram com eles e os abraçaram afetuosamente. [Veja foto ao lado]

Em entrevista ao Portal Ultimato, Escobar, Padilla e Arana lembraram que suas reflexões teológicas nasciam da prática de evangelização junto a estudantes universitários. “Os estudantes me perguntavam como a responsabilidade social se relacionava com a fé, e eu não tinha respostas. Por isso, me pus a estudá-las”, disse René Padilla. Eles também fizeram questão de lembrar que um ingrediente foi fundamental para que eles continuassem o trabalho nestas décadas. É a tal “infraestrutura afetiva”, como cunhou Escobar. Ou seja, o ambiente de amizade que permeou o relacionamento entre os três, que redundou no ambiente da fraternidade ao longo dos anos. Claro, não foi sem tensões, mas “sabíamos separar as diferenças e encontrar um ponto em comum”, disseram.

Os três tiveram participação importante neste Encontro, que começou com Padilla e Steuernagel abordando o elemento bíblico na teologia da FTL. No segundo dia, Escobar e Arana discorreram sobre o caráter público da teologia. Em sua fala, Arana lembrou que a relevância da teologia da Missão Integral partiu da compreensão mais aprofundada do que é reino de Deus. “O absoluto não são os pobres. O absoluto é o reino de Deus. Nossa missão é dar testemunho do reino de Deus no mundo de Deus”, disse ele. Escobar falou sobre o exemplo de Paulo, que mesmo em diáspora, participou de debates públicos em Corinto (Atos 18).

Registrar a participação de Escobar, Padilla e Arana não significa dizer que o Encontro da FTL resumiu-se a um mero saudosismo. Como mencionado acima, os temas escolhidos para as plenárias foram bem atuais e desafiadores.

Na plenária sobre teologia da criança, Welinton Pereira levantou um cartaz e criticou a proposta de redução da maioridade penal que está em curso na Câmara dos Deputados [veja foto ao lado]. Na mesma plenária, Ruth Padilla ressaltou que “a marca mais nefasta do nosso continente é a desigualdade; mas a outra é a violência”. Ela lembrou que há 70 vezes mais chance de uma criança morrer assassinada em nosso continente do que na Inglaterra. “As crianças continuam sendo o centro de atenção de Jesus. Que Deus nos dê a graça de caminhar ao lado das crianças”, disse ela. Houve no outro dia um momento de oração pelas crianças em vulnerabilidade (como parte do Mutirão Mundial de Oração Pelas Crianças que aconteceu no fim de semana).

A violência e o preconceito contra a mulher, o negro, o indígena e o homossexual também foram problemas levantados nas plenárias. “A diversidade racial é um fato. Mas devemos nos perguntar sobre como foi construída esta diversidade”, disse o pastor batista Marco Davi, referindo-se à escravidão negra no continente.

A identidade e o papel da igreja na cultura atual também estiveram em discussão. O jovem teólogo de Londrina Jonathan Menezes perguntou: “Que lugar e papel as igrejas ainda podem desempenhar para pessoas que não querem saber delas? Quem tem sido e será igreja para os sem-igrejas? Que igreja existirá para quem está sedento de relacionamentos que indiquem como e onde encontrar sentido de vida e experiência, amizade? O que propor para pessoas que não dão a mínima para ‘pirotecnias religiosas’? Será que a mesma igreja que sabe muito bem há bastante tempo lidar com os ‘convertidos’ conseguirá o mesmo com os ‘peregrinos’?”. Ele também lembrou que, no início do seu ministério, Jesus foi rejeitado e vítima de uma tentativa de assassinato por parte dos ouvintes em Nazaré (Lucas 4). “A igreja não precisa ter medo da rejeição, ela é um frágil instrumento que deve viver com integridade”. Já Ed René Kivitz ressaltou o valor da teologia latino-americana na realidade da igreja local e na cultura. “A teologia latino-americana é uma teologia de quem está na práxis da missão. Só quem não conversa com quem sofre consegue falar sobre dogmas sem chorar”. Ele disse ainda: “O chamado de Jesus na igreja é chamado para a palavra. Que Cristo é senão o da Palavra? A igreja não precisa abandonar sua congregação, mas precisa encontrar seu significado além da congregação”.

Uma das plenárias mais aplaudidas foi sobre o pentecostalismo. O chileno Luis Cruz Villalobos falou sobre o impacto positivo da experiência pentecostal nos traumas emocionais. Para ele, a experiência de uma forte conexão com Deus ajuda o indivíduo a enfrentar seus problemas emocionais. “Buscar ajuda em Deus para lidar com a ira e fazer planos de ação junto com ele trazem efeitos psicológicos positivos”. Doutor em teologia, o brasileiro David Mesquiati apresentou um panorama sobre a história e as características do pentecostalismo como expressão cristã, mas também como fenômeno religioso moderno. “O Pentecostalismo não é uma denominação. Estamos enfrentando uma ‘pentecostalização’ das igrejas e uma ‘despentecostalização’ dos pentecostais. Estamos falando de uma busca de experiências diretas por Deus, e isso está em toda a história da igreja, não começou na Rua Azura”, disse ele. Por outro lado, Mesquiati fez questão de categorizar o que chama de pentecostalismo moderno. “O Pentecostalismo moderno foi uma resposta à modernidade racionalista, foi resultado da enculturação da fé como apropriação, da revalorização da experiência, que era algo ridicularizado pela racionalidade”.

Talvez tenha faltado no Encontro mais reflexões na perspectiva do futuro. Que rumos a Igreja deve tomar no continente? Que agenda a Missão Integral pode adotar a partir da história vivida e das questões contemporâneas? Que contornos a FTL deverá ter nos próximos anos? Sem profetismo, mas com discernimento, perguntas como estas seriam bem-vindas.

Uma jovem participante disse que devemos contar também novas histórias, e não apenas relembrar as antigas. É verdade: é papel dos teólogos contemporâneos celebrarem o que já aconteceu de bom, mas também fazer suas próprias perguntas sobre a missão para hoje.

Tensões
Alguns temas mais delicados causaram tensões no Encontro. A plenária sobre gênero e sexualidade foi um deles. Assuntos como feminismo e homossexualidade geraram controvérsias nos corredores com opiniões diversificadas. Na plenária, no entanto, infelizmente o tempo para perguntas foi pequeno. Outro tema que gerou polêmica foi a relação entre as Escrituras e outras disciplinas acadêmicas, como as Ciências Sociais. Uma participante lembrou que houve um leque rico de olhares interdisciplinares (sociologia, pedagogia, ciências da religião, entre outros). Alguns, no entanto, preocuparam-se com o risco de uma possível desvalorização do papel das Escrituras na reflexão teológica.

No último dia, o presidente da FTL, Jorge Henrique Barro, fez questão de afirmar que a FTL sempre teve que lidar com tensões. Ele ressaltou que a FTL não é uma denominação eclesiástica, mas, sim, uma plataforma de reflexão teológica. O que foi falado em plenária não é uma “confissão de fé” da fraternidade.

Nova FTL Brasil
A FTL Setor Brasil aproveitou o Encontro continental para eleger sua nova diretoria e conselho fiscal. David Mesquiati assumiu o lugar de Lyndon de Araújo Santos como presidente. Na foto ao lado, a diretoria completa (da esquerda para a direita): Marlon Fluck, Jonathan Menezes, Lucy Luz, Silvia Nogueira e David Mesquiati. O novo conselho fiscal é composto por: Manoel Bernardino, Pedro Sampaio, Lyndon de Araújo e Welinton Santos.

Texto atualizado em 09/06/2015, às 18:49.

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Jornalista, é editor de web da Editora Ultimato e escreve regularmente em seu blog pessoal Fatos e Correlatos. Colabora também na área de comunicação com a Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS). É um dos organizadores de Uma Criança os Guiará e do e-book Vocação e Juventude: a fascinante jornada entre o ser e o fazer.
  • Textos publicados: 36 [ver]

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