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Opinião

“Olho para a cultura a procura de Deus, não do diabo!”

O músico Marcos Almeida tem 32 anos e é um dos fundadores da banda Palavrantiga. No auge do reconhecimento da banda, na qual Marcos era o vocalista, ele afastou-se para um período sabático. Marcos voltou aos palcos, mas desta vez sozinho como o projeto “Eu, Sarau”. Nesta entrevista ao Portal, o músico fala sobre sua saída do Palavrantiga, seus projetos como blogueiro e escritor, a relação dos evangélicos com a cultura popular, os muitos tipos de “brasis” e os dilemas da juventude atual.

***

Portal Ultimato - Você foi líder e vocalista da banda Palavrantiga. A banda ganhou reconhecimento, entre cristãos e não cristãos. Mas há algum tempo (quanto tempo?) você anunciou que tiraria uma licença sabática. E agora, qual a situação: você ainda está de licença ou, de fato, saiu da banda definitivamente? E por que esta decisão?

Marcos Almeida - Em 2014, um dia depois do meu aniversário, me reuni com os meninos e abri meu coração. Apresentei a eles a ideia do sabático e o afastamento da banda, mas antes deveríamos finalizar a turnê do disco “Sobre o mesmo chão”. Assim aconteceu, graças à maturidade do Lucas, Felipe e Josias que acolheram a ideia e assumiram a responsabilidade de continuar os projetos da banda, reinventando o grupo.

Passado o período sabático, decidi voltar aos palcos apresentando ao público minha busca por uma identidade artística que amparasse as múltiplas plataformas que me ocupam criativamente: a literatura, a poesia, a música brasileira, o rock, as narrativas... Daí nasceu o espetáculo solo “Eu Sarau”, que já ganhou o subtítulo de "a banda de um homem só", onde tenho a oportunidade de tocar todos os instrumentos – bumbo, guitarra, violões, teclado, “loopstation” – além de cantar.

São poucos os que me perguntam por que decidi sair da banda para trilhar esse caminho desconhecido; mas gosto de pensar que esse foi o meio de me manter na tensão tão útil para a invenção, sair do conforto para encontrar o novo. Acredito que somos tentados a fazer do trabalho um monumento. Mas isso é ruim, porque fomos feitos para o movimento. Depois de sete anos com o Palavrantiga, três discos e centenas de shows, celebro o sucesso que tivemos juntos, vejo os frutos dessa obra e, como que soprado pelo vento, me vejo agora com uma nova disposição para me encontrar com o futuro.

Portal Ultimato - Você ainda acompanha o trabalho da banda Palavrantiga?

Marcos Almeida - Sim. Hoje acompanho de um outro lugar, mas sempre recebo as notícias. Eles estão à procura de um vocalista.

Portal Ultimato - Depois que afastou-se da banda, você fez um trabalho com a temática do Natal (Biquini de Natal) e enveredou-se pelo Brasil fazendo shows. Com esta experiência de viajar pelo país, que Brasil você tem visto? Você tem sido surpreendido com algo?

Marcos Almeida - O Brasil é muito grande, são “brasis” sem fim e a cada dia vou descobrindo um novo Brasil. Mas algo me chamou atenção em todos as cidades que visitei nos últimos meses: me surpreendi com o amadurecimento do público. No tempo que tenho com eles, após o Sarau ou quando converso com a plateia do Culto&Cultura, percebo que estão se aproximando cada vez mais da poesia, das portas e janelas que a linguagem poética cria entre a espiritualidade e a arte. Existe uma insatisfação com algumas estruturas de entretenimento e um grupo cada vez maior tem se interessado por uma abordagem mais ampla no que diz respeito à fé, ao pensamento e à arte. Percebo que o público tem encontrado no meu trabalho um lugar para essa experiência. Me sinto honrado e motivado a seguir nessa busca. Temos muito a fazer!

Portal Ultimato - Além de compor, você escreve. Tem um blog chamado Nossa Brasilidade. No blog você fala sobre MPB, cultura, espiritualidade, etc. Entre tudo o que você escreve lá, que mensagem principal quer transmitir?

Marcos Almeida - Que ao olhar para a cultura popular devemos trocar o desígnio da nossa busca. Quero olhar para a cultura buscando encontrar Deus! É que tem muita gente fixada em encontrar o diabo no mundo, mas Deus, onde está? Confinado no Templo dos Desejos, procurando ser reverenciado em seu confinamento, enquanto seus fieis, que têm por sagrado apenas o litúrgico, levam uma vida qualquer no mundo? Se estão procurando o diabo na cultura, fiquem sabendo que estou procurando Deus. E olha, tenho visto a sua presença na rua e isso assusta a minha religião e amplia a minha teologia. Não só isso! A presença de Deus, da espiritualidade no canto popular, transbordando na canção brasileira, abre um precedente - vamos dizer assim - para uma inédita intromissão cultural vinda daqueles que não abrem mão de expressar sua fé na arte e que também desejam cantar sobre temas mais amplos que o litúrgico pode comportar.

Muitos líderes religiosos carecem de uma explicação mais clara sobre a interação entre fé e cultura popular, especialmente para orientar os seus irmãos. O intenso trabalho no blog “Nossa Brasilidade” revelou a forte presença de Deus na cultura brasileira. É maravilhoso perceber que o nosso cancioneiro não litúrgico, a chamada música popular brasileira, é uma música espiritual -predominantemente cristã em seus símbolos de fé. A mensagem que transmitimos no blog é uma mensagem de esperança; é possível integrar fé, pensamento e arte!

Portal Ultimato - Você também escreve sobre a cultura brasileira. O que é verdadeiro e o que é falso do que falam sobre ela?

Marcos Almeida - Essa resposta seria mais completa em um livro de 1000 páginas! No entanto, digo que todo clichê tem, em si, verdades e mentiras, mas sempre é uma visão pobre da realidade. O brasileiro gosta de futebol, cerveja e carnaval? Sim! Só que esse não é o Brasil de todos nós. Quando escrevo no Blog, tento mostrar uma outra brasilidade. De Gilberto Freyre a Darcy Ribeiro, todos os pensadores da identidade brasileira são unânimes em dizer que não existe um Brasil, mas “brasis”! É tudo plural, misturado, diverso. Isso é verdadeiro e é preciso considerar esses outros brasis para além do clichê.

Portal Ultimato - Você é cristão evangélico, e deixa isso claro. Mas, ao mesmo tempo, dialoga muito com a música popular brasileira. Você acha que ainda há muitos muros entre os cristãos evangélicos e a MPB?

Marcos Almeida - Já disse que tem gente fixada em ver o Coisa-Ruim no mundo, e, como diz minha avó, quem procura acha. Tento mostrar que esses muros que você fala, estão sobre o mesmo chão da vida real. Temos diferenças e similaridades. Mas existe um lugar que sustenta todos nós, a dádiva! Esse é o ponto de partida. Antes de pensar nos muros, é preciso pensar no chão. Uma teologia do chão. Do Salmo 50.12: “Pois o mundo é meu, e tudo o que nele existe”. Um olhar para o todo, porque quem se fixa na parte, fica partido.

Portal Ultimato - Falando mais detalhadamente sobre seus shows, qual a proposta temática, musical? Você canta músicas do Palavrantiga ou apenas músicas feitas após a sua saída da banda?

Marcos Almeida - Levo para os palcos o meu repertório autoral e a poesia que eu leio, além das histórias que envolvem algumas canções e causos reais de como, por exemplo, conheci o poeta Carlos Nejar. É um Sarau de um homem só em diálogo com a plateia. A experiência que busco proporcionar é trazer todos para a minha sala, desfazendo a distância entre artista e público. No final do espetáculo, ampliando essa intimidade, passo um tempo com a plateia batendo papo e respondendo perguntas.

Estamos todos no mesmo lugar e vou conduzindo o encontro na intenção de dar a todos um tempo bom de descanso, reflexão, riso e festa.

É um show-experiência, que nunca se repete, e em cada cidade acontece de um jeito. As ferramentas que tenho a disposição vão se ampliando durante a turnê; hoje utilizo o “loopstation” e estou preparando alguns “samplers” para criar novas camadas de timbres. O piano, a guitarra e o bumbo são elementos muito importantes nessa apresentação, também. E claro, não poderia faltar momentos de voz e violão, onde toco “Deus, onde estás” e “Toda dor é por enquanto”, por exemplo. As canções inéditas vão ganhando espaço cada vez maior, mas respeito muito o que já criei anteriormente. Todas as canções gravadas pelo Palavrantiga são de minha autoria e estão sempre presentes no Sarau com um arranjo diferente.

Portal Ultimato - Já tem uma agenda fechada para o ano? Qual é?

Marcos Almeida - Sim. Você pode acompanhar na página oficial facebook.com/omarcosalmeida, e no site que em breve entra no ar: www.omarcosalmeida.com. Mas, se você achar legal divulgar aqui a lista de cidades, aí vai:

21/08 – Belo Horizonte (MG)
28/08 – Recife (PE)
05/09 – Belo Horizonte (MG)
11/09 – Manaus (AM)
12/09 – Salvador (BA)
13/09 - Imperatriz (MA)
17 e 18/09 - São José dos Campos (SP)
19/09 - Teixeira de Freitas (BA)
25/09 – Belo Horizonte (MG)
02/10 - São Paulo (SP)
03/10 – Brasília (DF)
15/10 - Anápolis (GO)
14/11 – Belo Horizonte (MG)
21/11 - Salvador (BA)
28/11 - Rio de Janeiro (RJ)
04/12 - Rock no Vale (SP)

Informações e agenda, fale com Vinícius Andrade: 31 3144-4599 / 9195-5752 vinicius@jmonteiroproducoes.com

Portal Ultimato - Uma das músicas mais conhecidas que você canta é a que diz “eu leio Rookmaaker...”. Quem era Rookmaaker? E por que você o lê? Que livros você leu deste (ou sobre) autor?

Marcos Almeida - O título dessa canção é “Rookmaaker”. Não é uma música sobre ele, mas de certa forma eu faço uma homenagem ao seu pensamento. Ele foi pioneiro na missão cristã dentro do campo das artes; um incansável defensor da arte para além da propaganda religiosa. Comecei a ler Rookmaaker por influência do Rodolfo Amorim, que também me apresentou outro holandês fantástico, o Dooyeweerd. Do Hans, eu já li A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura e a A Arte não precisa de Justificativa, além da biografia a seu respeito Rookmaaker – arte e mente cristã, todos lançados pela Ultimato.

Portal Ultimato - Como você vê a igreja evangélica brasileira hoje?

Marcos Almeida - Não existe uma igreja evangélica brasileira. São muitas. Não consigo generalizar. Posso falar da minha.

Portal Ultimato - Seu público maior é a juventude, certo? Qual sua leitura da juventude brasileira hoje (e, em especial, da juventude evangélica)?

Marcos Almeida - Olhando para o público que partilha das coisas que faço, seja no Sarau, no Culto&Cultura ou na rede, percebo que parte dele tem se ocupado em duas duas ações; alguns estão batalhando para resistir à cultura gospel e, como um desdobramento disso, outros estão abraçando uma aristocracia “hipster” secularizada. Tanto um quanto o outro ainda não sabe direito o que é, qual a sua identidade. São cristãos mas não querem ser “gospel”. São cristãos, mas preferem a estética “hispster”, mesmo que ela negue certos valores inegociáveis da ortodoxia cristã. É um grande dilema que a juventude terá que resolver: a relação entre significado e verdade. Pode existir significado sem verdade? É válido abraçar significados vazios de verdade? Além disso, é um dilema de comunicação: ok, você está rejeitando a fórmula de comunicação gospel, mas como comunicar-se sem ela? Acredito que parte do interesse deles pelo meu trabalho se dá porque também estou tentando responder essas questões.

Foto: Eliabe Lima

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