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Opinião

O economista louco e o profeta

"Qualquer um que acredite em crescimento indefinido em qualquer coisa material, em um planeta finito, ou é um louco – ou é um economista”. Kenneth Boulding, conselheiro ambiental do então presidente norte-americano John Kennedy, há cerca de 45 anos.
 
Certa vez o personagem de minha infância, o Chico Bento, tentou ocupar o lugar de Deus. Pelo que me lembro, se saiu mal. E se nós tentássemos esse jogo? Hipoteticamente, claro. Imaginem que tentemos elevar o nível de consumo daqueles que vivem nos chamados países em desenvolvimento ao mesmo nível dos que vivem na América do Norte, Europa, Japão e Austrália. Qual seria o resultado?

Na prática, diz o geógrafo autor de um polêmico livro1 sobre como será o mundo em 2050, isso multiplicaria por 11 o consumo global de recursos. Seria como se a população mundial saltasse dos atuais 7 bilhões para 72 bilhões. Um pouquinho apertado, não? 

Aliás, abro um breve parêntese para dizer que é hipnótico entrar em algum site da Internet que estima em tempo real a população mundial. Ver aqueles números de nascimentos e mortes dando voltas sem parar, competindo entre si como incansáveis gladiadores giratórios me deixa mareado. Aviso dado, fecho os parênteses. Perdão, me esqueci de dizer que por agora os nascimentos vão ganhando das mortes a uma taxa aparente de quase 150 a mais por minuto. Agora sim fecho o que abri, não sem antes confessar que não sei bem se isso é boa ou má notícia.
 
Claro que não é por fobia de gente que a notícia me preocupa. Se Deus as ama, não importa o número, porque eu não deveria ao menos tentar seguir seu exemplo? Mas parece que o jardim terráqueo que aquele lá do alto criou tem recursos limitados. Esse é um detalhe importante e supostamente óbvio, mas o extraordinário é que a preciosa informação sobre os recursos restritos do planeta parece não entrar na lógica de quem manda no mundo, os economistas.
 
Se o globo terrestre é finito por que é que continua a dominar a lógica pura e simples do crescimento econômico como a panaceia dos nossos problemas?
 
Voltemos à brincadeira de tentar ser Deus. Pensemos no experimento do primeiro parágrafo, mas agora buscando fazer todo esse upgrade nas condições de vida da população do planeta dentro dos próximos 40 anos. Aquele geógrafo nos diz que o resultado seria ainda pior, “então o mundo natural teria que avançar para produzir o suficiente para sustentar o equivalente a 105 bilhões de pessoas”. De onde viria toda a carne, peixe, cereais, água, energia, plástico, metal, madeira?
 
Mas, diria o observador arguto, “seremos tantos assim no mundo?” Não, não o seremos. É só um exercício hipotético considerando o padrão de vida e bem-estar de países desenvolvidos.
Alguns indignados idealistas dirão que se isso não é uma utopia realizável então o desafio é baixar o padrão de consumo dos ricos. Outros milionários desanimados diriam que se todos serão ricos, então ninguém será rico. Um tédio total para aqueles que no final das contas queriam era se destacar da gentalha.
 
Veja bem que das legiões da periferia costuma sair de vez em quando um profeta. Outro dia desses ouvi um deles. Vinha do sudeste asiático, mais precisamente do Sri Lanka. O provocador Vinoth Ramachandra2 (que profeta não é provocador?) cutucou a todos os estudantes líderes de movimentos estudantis como a ABU, vindos de vários países da América do Sul, reunidos no Paraguai. Ele disse algo mais ou menos assim, “oremos por um colapso do sistema econômico mundial”. Houve uma agitação no plenário. Muitos não engoliram bem aquela ideia. Não sei se pensavam em suas economias, já que no caso dos estudantes essas seriam meio que virtuais. Mas alguns falaram do sofrimento que isso provocaria a muitos, a perda de empregos, etc. A resposta cortante veio com outra pergunta sobre em qual mundo vivíamos, pois o sofrimento causado por sistemas econômicos injustos e opressores já é o pão diário de bilhões de pessoas.
 
Uma crise ou colapso, seja financeiro ou pela escassez dos recursos mundiais, ajudaria? Os profetas diriam que os exílios ou as peregrinações pelo deserto podem ajudar a despertar ouvidos que se fazem de surdos e olhos que não querem ver. Mas sei também que os próprios profetas não gostam de entregar essas mensagens, que lhes queimam e consomem por dentro. O profeta só denuncia e anuncia porque Deus assim o manda e porque faz nascer nele a esperança de que uma realidade diferente possa ser vivida.
 
Falando dessa outra realidade, nesses dias encontrei consolo e esperança ouvindo o excelente álbum “Ghosts Upon the Earth” (“Fantasmas sobre a Terra”), da brilhante banda Gungor. Inspirados pela alegoria de C. S. Lewis, “O Grande Abismo”, quando os seres humanos da cidade cinzenta viajam até os limites do que seria o Céu, onde descobrem que esse é surpreendente e dolorosamente muito mais real do que a sua existência atual. Vislumbram que há uma realidade possível, “mais real” do que eles imaginam ou vivem. Alguns se fascinam e entram nessa nova realidade. Outros não a suportam e voltam atrás.
 
Qual é a realidade, o país e o planeta em que a gente quer viver? A fantasia cinzenta irreal dos economistas do crescimento e da ilusão da fartura primeiro-mundista? Ou será que finalmente a perspectiva absolutamente real do Céu nos fará viver em obediência criativa na história hoje, ouvindo os profetas da sustentabilidade que nos são enviados?

 
Notas:
1 The World in 2050: Four Forces Shaping Civilization's Northern Future, Laurence C. Smith, Penguin Group, 2010.
2 Vinoth Ramachandra é o secretário associado de IFES para o diálogo e o compromisso social (http://vinothramachandra.wordpress.com/) 

 
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É casado com Ruth e pai de Ana Júlia e Carolina. Integra o corpo pastoral da Igreja Metodista Livre da Saúde, em São Paulo (SP), e serve como secretário regional associado para a América Latina da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (CIEE-IFES)
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