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Opinião

A Torre de Babel e a Trump Tower: o presidente dos Estados Unidos tem medo de quê?

O evangelho tem muito a dizer sobre as discussões que o início do governo Trump explicitou


Por Davi Chang


O mundo se agitou com a primeira semana de Donald Trump na Casa Branca. Estamos em um novo contexto e o século 21 parece viver uma nova ordem mundial. Muitos têm predito o presente século como um dos mais confusos da história. A eleição de Trump e seu governo colocam novos desafios à vivência da fé cristã, nos Estados Unidos, na América Latina e em todo mundo. Os cristãos, diante destes contextos complexos, precisam de uma fé sábia que dialogue e se engaje, lendo o que acontece no mundo sob uma ótica cristã e encarnando a presença amorosa de Cristo.

O evangelho tem muito a dizer sobre as discussões que o início do governo Trump tem explicitado. Gostaria de citar três desafios para que nos mantenhamos atentos nesta transição cultural. Apesar de as questões serem muitas e por demais intricadas, ressalto aqui algumas que considero fundamentais em nossa resposta evangelical: primeiro, o tema da segurança individual e a compaixão cristã; em segundo lugar, o problema do pseudo-evangelho e a necessidade de um cristianismo radicalmente integral; e por último a reordenação dos nossos amores a Deus em uma era de narcisismo na “cidade dos homens”.

Trump tem medo de quê?


Para Donald Trump, o mundo é um lugar inseguro, com um senso iminente de perigo. Quando menino, seu pai o levava consigo para cobrar o aluguel dos inquilinos no Brooklyn. Donald perguntou uma vez por que seu pai sempre se mantinha ao lado, afastado da porta, após tocar a campainha. A resposta foi que às vezes os inquilinos atiravam através da porta e eles precisavam se proteger. A visão de mundo que lhe foi passada é explicitada por este episódio: Donald foi forjado para ser vigilante e buscar a maior segurança possível diante das ameaças. Proteger-se significa salvar-se. Um muro na fronteira com o México e evitar refugiados de países muçulmanos expressam sua necessidade de abrigo e proteção em um mundo cada vez mais global e violento.

Trump parece querer reviver uma torre de babel contemporânea. Sua “Trump Tower” (Torre Trump), construída em 1983, alavancou sua fortuna. Assim como a história da torre de Babel em Gênesis 11, seu projeto de poder é uma torre auto-suficiente, que anula a diversidade das línguas. Ao invés de cumprir o mandato cultural de povoar e abençoar toda a terra (Gênesis 1:28), constrói uma cidade para que seu nome seja grande. “Faça a América grande de novo”, disse seu lema de campanha. Assim como na torre de Babel, Trump anula a diversidade, e valoriza o que é semelhante. Nesta inflexão, há uma política que não permite a reconciliação, pois a identidade se constitui em um povo negando o lugar do outro povo.

Mas a igualdade estéril não era o projeto de Deus em Gênesis 11. Deus percebe o potencial destruidor desta unidade monolinguística para a corrupção e o pecado; então espalha os seres humanos pelo mundo, em diferentes línguas, colocando-os em uma situação de insegurança na qual dependeriam Dele. A história da torre de Babel ressalta que, apesar dos homens quererem torres e cidades monotônicas, Deus ama a diversidade de sua criação, tanto das espécies, a biodiversidade, quanto a diversidade dos povos.

A “segurança” como um ídolo

Uma tentação, portanto, aos cristãos no século 21 é seguirmos a mesma visão da torre e priorizarmos a segurança e proteção individual diante do que nos ameaça. Esquecemos, assim, da compaixão do Reino e das exigências do discipulado em estendermos hospitalidade aos refugiados, sejam eles mancos, aleijados, cegos ou pobres (Lucas 14:13). O risco desta mentalidade se alastrar entre nós é ressaltada pelo fato de que muitos eleitores evangélicos brancos votaram em Trump, em busca de um protetor, um salvador em um mundo multirracial e violento. Nós no Brasil, também corremos o risco de viver fechados e querendo proteção em nossas trincheiras, em uma sociedade brasileira que tem se tornado insegura, secularizada e se afastando de suas raízes cristãs.

Se nós cristãos corremos o risco de fazer da “segurança” um ídolo, precisamos lembrar que Cristo não tinha abrigo, era um homem sem muros que não tinha onde reclinar a cabeça (Mateus 8:20). Por amor, escolheu a cruz. Seus braços abertos e seu sangue doam vida ao mundo e acolhem o estrangeiro, a samaritana, o órfão, o negro. Cristo estende graça aos que achávamos inimigos, tornando-os próximos. Cristo responde o anseio do coração humano por paz e segurança sem eliminar o estrangeiro: ao invés de construir um muro, ele derrubou o muro da inimizade na cruz (Efésios 2:14). A verdadeira paz vem da convergência de todas as coisas em Cristo. Achar segurança fora Dele é perder o coração no altar da idolatria e confiarmos nos muros de nossas casas, que por sinal, no Brasil, parecem cada vez mais altos. Assim como nos Estados Unidos, no Brasil, tendemos a querer os nossos muros da proteção, da “estabilidade” financeira, da ordem e do progresso, e nos afastamos cada vez mais da compaixão aos necessitados, respondendo ao medo e não ao Chamado.

A era dos mártires, nos primeiros 4 séculos, nos ensinou que o evangelho é tão precioso que por ele vale a pena correr riscos. Exemplos históricos maravilhosos foram deixados por aqueles que vieram antes de nós na igreja perseguida dos primeiros séculos. Meninas abandonadas nos lixões eram adotadas nas famílias cristãs, pois toda vida era valorizada e não poderia ser perdida, independente da sua posição social. Nas pestes, como em Cartago no século III, os cristãos não temiam a doença e ainda ajudavam os contaminados. Os cristãos não são escravos do medo, mas são presença corajosa que se arrisca em serviço ao mundo sofrido.

Coca-Cola sem cafeína, cigarro sem nicotina e o evangelho light de Trump

Após abordarmos a dinâmica entre insegurança e compaixão, o segundo aspecto é a necessidade de um cristianismo radicalmente integral, em detrimento de um pseudo-evangelho. Este evangelho incompleto se expressa escolhendo partes que nos agradam e tirando o que nos incomoda. Parte do problema é que não nos submetemos mais a todo evangelho, mas fazemos uma parte do evangelho nossa bandeira, e abandonamos o resto. A cultura light da sociedade de consumo em que vivemos, é mestre em escolher o combo que nos agrada, e assim perdemos o essencial. Coca-Cola sem cafeína, cigarro sem nicotina, evangelho sem cruz. Os evangélicos que em sua maioria votaram em Trump o fizeram, dentre outras razões, porque ele é contra o aborto. Trump tem um elemento que os cristãos valorizam. Mas os teólogos norte-americanos que não sucumbiram a Trump têm afirmado que aqueles que são contra o aborto precisam ser a favor de toda a vida, inclusive a vida dos refugiados, que Trump insiste em afastar. Se vivemos um evangelho light, ressaltando uma parte que nos interessa, nos tornamos susceptíveis à ideologia e cegamente somos massa de manobra do poder. As ideologias se baseiam em um bem, mas se desviam da verdade ao atribuir a esse bem um status de primazia, esquecendo do restante. Nossa postura como cristãos precisa ser uma humildade atenta, nos perguntando sobre o que falta de evangelho nas nossas viseiras culturais.

Parte da ambiguidade da política é que não concordamos com todas as propostas dos candidatos, e temos que escolher as partes que nos interessam mais. Mas se votamos como cristãos, precisamos conhecer tanto o evangelho todo quanto os condicionamentos que nossa visão cultural impõe. Reconheceremos que ideologias políticas são tentativas limitadas de reproduzir um projeto de poder na ordem social. Um possível bem-intencionado valor cristão no contexto político brasileiro é a defesa da família. Mas se achamos que defender a família tradicional é igual a defender todo o evangelho, podemos tomar a parte como se fosse o todo, e esquecemos que o evangelho é a radicalidade de sermos filhos de Deus, adotados em uma família maior que a nossa de sangue. Nossa visão do evangelho do Reino precisa ter Cristo no centro, não somente como Salvador, mas como Senhor, pois a soberania de Cristo se estende sobre todos os aspectos de nossa vida.

O narcisismo é a marca do nosso tempo

Um terceiro aspecto que merece nossa atenção é para onde direcionamos nosso amor. Um desafio importante é a reordenação dos nossos amores e afetos em uma era de narcisismo. Entrevistei em 2015, o Dr. James Houston, professor aposentado do Regent College, quando ele veio ao Brasil. Este sábio velhinho me dizia que o narcisismo iria destruir a civilização ocidental. Sua fala hoje mais parece uma previsão, pois não sabíamos que teríamos Donald Trump na Casa Branca. Como Houston diria, a eleição do Trump parece ser um sintoma grave da derrocada da civilização ocidental.

Howard Gardner, psicólogo em Harvard, sugere que Trump é notadamente narcisista. As pessoas com traços narcisistas amam a si mesmas, são auto-centradas e desejam que outros as admirem. O narcisismo pode ser uma máscara que cobre uma velada insegurança sobre si mesmo. O problema, entretanto, é que cada vez mais, amamos menos a Deus e mais a nós mesmos: o narcisismo é marca de nosso tempo.

Olhemos para um dos pais da igreja que viveu em um tempo parecido conosco. Santo Agostinho viveu na derrocada do Império Romano, assim como nós vivemos uma época de desintegração da sociedade ocidental. Diante do amor mal direcionado a um império em derrocada, ele escreve uma de suas obras-primas, a “Cidade de Deus”. Nesta obra, ele afirma que dois amores fundaram duas cidades, uma fundada por amor a Deus e outra por amor a si mesmo. “Dois amores criaram duas cidades, a saber: o amor próprio, levado ao desprezo a Deus, a terrena; o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio, a celestial.” (De Civ. Dei, XIV, 28). Apesar da diversidade de culturas e nações, o maior abismo é entre a cidade de Deus e a cidade terrena, entre o amor a si mesmo e o amor a Deus. Amores egoístas que visam poder e glória movem os seres humanos, e subjazem muitos projetos políticos e militares. O cristão, entretanto, como um peregrino à cidade celestial, se atenta ao amor na relação com Deus, mora e habita Nele.

O processo histórico é o palco no qual o Reino de Deus, na sua semente de mostarda, na fraqueza e não no palácio, já criou raízes neste mundo. Os peregrinos à cidade celestial podem participar da vida política na cidade terrena com a esperança de habitarem em Deus e sua cidade cultivando as virtudes do amor, e ao mesmo tempo, trabalharem pela cidade terrena enquanto esperam a consumação da história.

Termino buscando lembrar-nos de nossa missão. Jesus viveu entre seus inimigos; os cristãos vivem em uma sociedade que é hostil ao evangelho. Porém, mesmo como exilados, buscamos a paz e a prosperidade da cidade para a qual Deus nos enviou (Jeremias 29:7). Os cristãos fertilizam a história com a compaixão do Reino, a humildade de buscarmos um evangelho integral, buscando peregrinar na cidade dos homens com amores reordenados a Deus.

o poder político não tem a última palavra

Os cristãos resistem subversivamente ao afirmar que o poder político humano é limitado e não tem a última palavra. Aguardamos cantar o precioso cântico do Apocalipse: “o reino deste mundo se tornou do nosso Senhor e Cristo e Ele reinará para sempre” (Apocalipse 11:15). Enquanto este dia não chega, nos submetemos a Ele e amamos não a nós mesmos, mas Àquele que no fim da história, reunirá gente de todos os povos, tribos, línguas e nações. Esperamos uma diversidade étnica sem par, em uma nova cidade, onde descansaremos Naquele que é, sempre foi e eternamente será a nossa única segurança.

• Davi Chang Ribeiro Lin é psicólogo clínico, mestre em Teologia pelo Regent College (Canadá) e doutorando em Teologia (FAJE). É pastor na Comunidade Evangélica do Castelo, em Belo Horizonte (MG).

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