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Opinião

A arte de morrer – Paulo Solonca, Edison Queiroz, Elben César e Russel Shedd

“Naquele tempo havia gigantes na terra…“ (Gênesis 6.4)

Começou de repente uma série de perdas irreparáveis: primeiro John Stott (1921-2011), que dispensa quaisquer apresentações. Diria apenas que foi um dos maiores expositores bíblicos e evangelistas do século XX – senão o mais influente deles. Não se falaria em evangelicalismo sem Stott. Ou seja, um legado que não se pode medir com as nossas tolas ferramentas costumeiras de aferir o intangível. Depois choramos a partida de Dallas Willard (1935-2013), o filósofo, teólogo, escritor e pastor batista que, ao lado de outras sumidades da outra América, como James Houston e Eugene Peterson, tem oferecido imenso auxílio a pastores, líderes e cristãos não-católicos na redescoberta de uma espiritualidade bíblica e contemplativa, enraizada no Novo Testamento, na Patrística e na Monaśtica, coisa dificílima para a agitada e ativista mente protestante, não obstante a piedade e devoção profundas de Lutero e Calvino.

E então dolorosas despedidas começaram pelo lado de cá, na Igreja Brasileira. 2016 está se tornando um ano de luto para nós: primeiro , Paulo Solonca , pastor batista e profundo entusiasta do Discipulado - assim como Willard. Logo em seguida, foi a vez de nos despedirmos de outro amigo, Edison Queiroz, também batista. Sua contribuição foi a ênfase e mobilização que o seu ministério deu ao movimento de Missões, especialmente transcultural. E então perdemos nosso querido Rev. Élben Cesar, presbiteriano, jornalista, escritor e pastor de pastores. Como pensar o movimento evangelical brasileiro sem o fundador da Ultimato? Sua piedade, inteligência, talento e simplicidade formaram toda uma geração de líderes que, entre outras virtudes, venceram o denominacionalismo piegas e estéril que até os anos 60 era a lei e o padrão. Por fim – espero que Deus, em sua misericórdia, me ouça –, esse ano encaminha-se para o seu fim com a despedida de outro gigante do Senhor, o nosso amado Dr. Russel Shedd. Como os citados, profundo influenciador de novas lideranças, outro pastor de pastores. Shedd, como seus antepassados puritanos das ilhas britânicas, ensinou-nos a ler a Bíblia direito, a pregar direito, a cultuar direito, a viver direito – para a Glória de Deus.

Escrevo ao som de Bach (meu filho de 12 anos me enleva ao praticar o mestre alemão para um recital), enquanto o cheiro do café percorre e faz reviver nossa casa de pastor, como costumo lembrar aos visitantes – e me pergunto: o que mais, para além do legado imenso, do Credo comum, da Fé apostólica e evangélica, há de comum entre esses homens extraordinários? “Viveram bem, morram bem”, me vejo pensando. Coraçãomente, para usar o advérbio mais afetivo de Guimarães Rosa.

Estou certo de que, no mínimo, Shedd e Élben tinham notícia dos Ars Moriendi, (a arte de morrer, em Latim ), livros que no cristianismo medieval, eram usados para preparar as pessoas para “uma boa morte“. A ideia até que era boa. Mas meramente religiosa. E teologicamente equivocada. Esses textos simplórios, ricamente ilustrados à moda medieval, começaram a circular no século V, muito comuns até o século XVI, consideravam que a situação e o destino das pessoas na eternidade era decidido nas suas últimas horas de vida. Segundo as Escrituras, apesar do precedente do “Bom Ladrão“ ( Lucas 23.43 ) a coisa não é bem assim. Não se pode deixar para os últimos instantes a consideração sobre algo tão importante – como encontraremos o Nosso Criador, “do outro lado do Jordão”, na recorrente metáfora dos nossos irmãos afro-americanos em seus Spirituals. Lendo, conversando, refletindo a respeito de Stott, Willard, Solonca, Queirós, César e Shedd, fica claro que esses verdadeiros heróis espirituais morreram bem porque viveram bem. Não foram perfeitos, claro que não, mas confiaram na Graça perfeita. Não foram santos (no sentido comum), mas confiaram no Espírito Santo. Cometeram muitos erros, mas acertaram muito mais. E um grande acerto é a comum noção de que o que importa não é começar bem, mas terminar bem a jornada do seguimento e da imitação do Cristo. E terminar bem não é algo que se realiza... no fim. É consequência de uma disciplina diária. Um artista sabe disso – excelência criativa, estudo, prática. Um atleta idem – exercício, exercício, exercício! Areté!, na expressão dos gregos, os inventores dos termos atleta, atletismo e do conceito do prêmio olímpico. Paulo, muito familiarizado com a cultura dos jogos helênicos, admoesta os crentes, eu e você, que ainda estamos na corrida: “Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis.“ (1 Coríntios 9.27 )

Enquanto mais e mais pastores desistem, de cansados, de mal treinados, de subnutridos, de descuidados biopsíquica e espirituamente, de institucionalmente oprimidos – e de tanta coisa que me ocorre – eu, muitas vezes assim, desanimado com o estado das coisas, sobretudo com o secularismo impiedoso, com a mediocridade intelectual, com o consumismo religioso e com a despersonalização da fé desses tempos bicudos, olho para esses outros “homens dos quais o mundo não era digno (Hebreus 11) e me reoriento, endireito minha mente, realinho o coração, enquanto termino o café e decido viver de modo extraordinário em um dia ordinário da minha vida pequena e comum.

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Carioca do subúrbio e paulista do ABCD. É educador, escritor, músico/poeta e pastor na Comunidade de Jesus em São Bernardo (SP). Casado com Rosana Márcia, pai de dois meninos e torcedor do Flamengo e do São Paulo.
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