Palavra do leitor
Zeitgeist VS Cristianismo
Por estes dias tive a oportunidade de assistir ao documentário Zeitgeist, que a princípio pareceu-me ser um ótimo compêndio de informações referentes a problemáticas relacionadas a questões econômicas mundiais e possíveis conspirações de pequenos grupos que detém o poder através da coerção financeira. O documentário alega que estes infligem altas taxas tributárias, forçando endividamentos através de empréstimos ilusórios.O termo Zeitgeist,é um termo alemão cuja tradução significa espírito de época, espírito do tempo ou sinal dos tempos. O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo.
Bem, eu não sou muito adepto destas teorias conspiracionistas, mas fica claro que a forma como o banco central de cada pais permite uma movimentação de capital a partir de valores ilusórios. Quanto à questão do “Cristo histórico”, é evidente que a forma como são apresentadas as “evidências” que alegam que o propósito da criação de uma imagem de Cristo tem como propósito fomentar um sistema religioso é equivocada. Nos evangelhos percebemos o explicito discurso de Cristo contendo um teor totalmente apolítico. Quanto a questões históricas, se não valorizarmos o montante de informações e evidencias sobre o caráter pessoal e filosófico da mensagem do Cristo, incorremos no erro de relacionar a mensagem da Igreja como instituição, entrelaçando-a a mensagem do Cristo. O reino que Cristo tanto refere, nunca foi um reino político e humano, mas sim um reino de teor “espiritual filosófico” cujo intuito era ser implantado dentro dos valores de cada indivíduo. Logo percebemos que o que tanto é referido como reino, tem como propósito uma quebra de paradigmas e princípios, buscando uma mudança de conduta, tendo como base o respeito ao semelhante.
A exemplo do anarquismo a mensagem de Cristo contém um grande teor anárquico quando tange a questão de uma sociedade regida por valores internos. De certo modo os anarquistas são contra qualquer tipo de ordem hierárquica que não seja livremente aceita. Um dos precursores do anarquismo William Godwin, propunha um novo tipo de arranjo social onde as pessoas não estivessem subordinadas à força dos governos e leis. Em sua perspectiva, acreditava ser possível que em um contexto dominado por princípios racionais e equilibrados entre as necessidades e vontades, tornava possível conduzir a vida em sociedade. Percebemos esta questão de valores ser afirmada já no primeiro século dentro do cristianismo primitivo, onde a vida em comum era pautada em um montante de valores que permitia que distintos grupos vivessem em harmonia compartindo de forma espontânea os seus bens. Neste ambiente era de senso comum que todos fossem beneficiados pela lei do bem do próximo ou (amor ao Próximo). A modelo do socialismo, já no primeiro século percebemos a discussão da luta de classes sendo combatida por princípios morais, e também o gerenciamento das riquezas buscando o bem comum.
Também percebemos a semelhança com o anarquismo, quando vemos estas questões serem estipuladas por meio de ações cooperativistas. Nesse contexto, todos alcançariam condições de possuírem uma vida minimamente confortável e ninguém teria sua força de trabalho explorada em benefício de um terceiro. Tal conceito atacava diretamente a miséria dando lugar para um novo conceito de mundo regido pela felicidade da ampla maioria. Uma das grandes discussões que o vídeo Zeitgeist traz, trata justamente da questão do capitalismo, que de forma direta tem afetado todos os meios, gerando com isso uma escravidão invisível. Fato este que conduz as pessoas a constantes endividamentos, nunca conseguindo se livrar das dívidas, e tendo a sua força de trabalho constantemente explorada. A acusação principal é que esta escravidão se deve a uma série de sistemas que se beneficiam desta exploração, em especial algumas empresas e bancos internacionais. Por certo que vemos que este “espírito capitalista” afetar nossa sociedade de forma direta, em conta disso todos os dias percebemos uma série de novos intentos que surgem buscando somente o benefício egoísta, com isso procurando deter o capital para si.
Nisto encontramos novamente à discussão de Marx quanto à questão dos instrumentos de alienação. Falando de igreja, facilmente constatamos que ela como instituição esta diretamente afetada por este ambiente capitalista, onde todos os dias surgem novas instituições pautadas no lucro (oferta) tendo como base uma estrutura de ordem militarista, ou seja, um clero dividido por status e grau de importância (pastor, bispo, apostolo, reverendo, padre, arcebispo, etc.) O cristianismo por si só, como instituição tem as suas bases construídas sobre perfis corruptos de religião, usando-se do poder e da fé dos fieis como forma de deter a força e a produção dos Cristãos, a utilizando em beneficio próprio ou de um poder que beneficie a instituição.
Na idade média encontramos o camponês como exemplo do perfil de exploração causado pela religião. Este vivia em uma casa de um cômodo, onde todos (esposa, filhos, animais) dormiam aglomerados. Sua semana resumia-se em prestar serviço obrigatório nas lavouras dos seus senhores, e no sábado era obrigado a estar presente a uma missa para buscar a redenção dos seus pecados. A mesma igreja que explorava pedindo parte dos poucos rendimentos dos camponeses apoiava os seus senhores na exploração. Enquanto os camponeses possuíam uma vida média de 35 anos, e tinha como refeição uma porção de mingau e por vezes um pedaço de peixe, os monastérios eram prestigiados com comida e pão farto, sendo que muita das vezes os monges obesos chegavam a consumir seis mil calorias por refeição. É fato que a instituição cristã, tem por maior semelhança com cristo apenas o nome. Através da história percebe-se uma série de barbáries sendo cometidas em nome de “Cristo”, com isso manchando a pureza da mensagem de amor, que a meu ver é à base do Cristianismo de Cristo.
Quando percebemos um documentário como Zeitgeist, não devemos observá-lo com olhos negativos e preconceituosos, mas sim buscar entender sobre que base se construiu esta idéia de desconstrução da imagem do Cristo. Isto com certeza nos ajudará a entender o real propósito de uma produção como esta, nos capacitando a elaborar uma defesa simples e direta. Quantos saíram de forma fanática guerreando, apedrejando, debatendo, e nunca perceberam que a resposta simples esta na mensagem de Cristo que é apolítica? O fato é que desconhecemos a mensagem cristã, utilizamo-nos de uma versão distorcida, bizarra, produto de épocas. O que nos resta é buscar novamente recorrer a uma reflexão profunda sobre nossa visão sobre o Cristianismo que praticamos e cremos, para que com isso apresentemos maior compreensão para ajustar de forma correta nossas crenças.
Opinião do leitor