O século passado foi testemunha de grandes transformações doutrinárias no meio evangélico. Mostrando-se muito maleável, o evangelicalismo cedeu mais aqui, menos ali, convivendo pacificamente com roupas mais descoladas, brincos, tatuagens, piercings, funk, axé, baião, guerras, capitalismo, mulheres pastoras, boate gospel, regimes totalitários e autoritários, entre outros.
Na guerra contra a plena identificação com o mundo (onde, paradoxalmente, a igreja nasceu e de onde nunca deveria ter saído), o mundo evangélico (não todo, claro, devido a sua imensa diversidade) lançou novas trincheiras e reforçou outras. Os homossexuais, talvez na substituição de mulheres e negros, representam a minoria maior a ser alvejada, o inimigo mais próximo. Mas - pasmem! - ser heterossexual e abominar o homossexualismo (e por tabela os homossexuais) não representam a maior identidade que os evangélicos propagam aos quatro cantos da terra.
Rola por aí um movimento chamado "Eu Escolhi Esperar". Pra quem quiser ver a definição desse movimento:
LINK. Sim, a maior identidade evangélica é uma liberdade negativa (igual a não beber, não fumar e não dançar): não ter relações sexuais antes do casamento.
Fica clara a negação do corpo e a rotulação de que tudo que vem da nossa humanidade é ruim, não presta e precisa ser substituído por práticas devocionais espirituais que nos levam a um mundo metafísico distante do nosso, distante de onde Jesus viveu. Isso me lembra o pai e a filha: ela, evangélica, passava a maior parte de seu tempo orando, lendo a Bíblia e falando mal das crenças do pai. O pai, espírita, montava periodicamente um sopão perto de sua casa pra dar alimento a quem não podia comprar comida. O pai, espírita, percebeu a mensagem de Jesus; a filha, evangélica, percebeu a espiritualidade tipicamente evangélica.
Obviamente as liberdades positivas (amar, perdoar, pacificar) ficam num distante segundo plano, pois demandam envolvimento total com o mundo. A ideia de não ser melhor que qualquer pessoa parece aterrorizante para os evangélicos; então movem-se na direção de acreditarem que realmente, para utilizar um famoso jargão, "fazem diferença" no mundo sem o sexo pré-marital.
Esqueceram, definitivamente, a parábola do fariseu e do publicano.