quinta-feira, 02.setembro.2010
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  Impureza sexual: tem cura?
 
Guilherme de Carvalho

Outro dia tive uma conversa estimulante, mas também algo abaladora com um pastor, no final de uma palestra sobre educação. Na palestra eu havia mencionado um princípio do pensamento reformacional -- a ideia de que não há contradições estruturais na ordem criada. Assim, não há contradição essencial entre, por exemplo, a esfera da justiça e a da moral, ou entre a esfera estética e a esfera da fé, e assim por diante. Porém, uma das minhas alegações fez acenderem luzinhas no painel dos presentes, incluindo no do amigo pastor: a de que não haveria contradição estrutural entre as esferas biológica e psíquica e a esfera moral.

Ao término da exposição ele reagiu prontamente com uma questão muitíssimo prática: a tentação sexual: “Há pouco eu aconselhei um homem envolvido em adultério. O casal está aos poucos se refazendo, e a esposa está disposta a perdoar; quanto ao marido, ele deixou claro para mim que amava a sua esposa. Ele simplesmente foi fraco e caiu. Não lhe faltava amor; faltavam-lhe forças para resistir à tentação sexual. Mas isso não implica em uma contradição entre o nível biológico e o nível moral?”.

Sem dúvida, as impressões do pastor refletiam um lugar-comum da imaginação evangélica: a tentação seria uma fraqueza interna ao campo sexual, a ser vencida por meio de uma resistência ao desejo sexual, seja por uma intervenção diretamente biológica (arrancar os olhos, ou outra coisa, eventualmente) ou por uma equilibração psíquica. De um modo ou de outro, espera-se que o desejo sexual distorcido seja controlado. Mas se, enfim, perdemos o controle, é porque falta disciplina no trato com o desejo. Precisamos disciplinar o corpo, basicamente; dobrá-lo pela supressão do desejo.

Pois bem; essa é uma das mais falsas verdades que os cristãos gostamos de espalhar. É uma verdade, sim, que o corpo deve ser disciplinado, e o desejo controlado; não é o “domínio próprio” um fruto do Espírito? Entretanto, é uma baita falsidade que possamos controlar os desejos assim mecanicamente, ou mesmo “cirurgicamente”.

Imagine o mundo sem o pecado
Façamos alguns exercícios de imaginação cristã; imaginemos o mundo sem pecado. Nesse paraíso, Adão tem desejos de todos os tipos, incluindo os desejos sexuais. Esses desejos têm uma base instintiva biopsíquica, e são acionados automaticamente por sinais óbvios: a forma do corpo da fêmea, certas cores, certos cheiros etc. Adão está sujeito a tais estímulos exatamente como qualquer outro macho de sua espécie, sendo que sua sexualidade, nesse nível, tem forte analogia com a de outros animais.

Porém, Adão não é apenas um animal, feito de pó como todos os outros. Adão é o pó com o sopro divino, é o portador da imagem de Deus. De algum modo essa imagem está impressa no mesmo pó do qual as outras criaturas foram feitas, e entre as características particulares que Adão apresenta está a sua função moral. Adão é capaz de um altruísmo perfeito, muito além do altruísmo de cães e golfinhos. Ele é capaz de amar de forma pura, reconhecendo na forma da fêmea não um corpo adequado ao acasalamento, mas a superfície material de uma pessoa; não como mero objeto, mas como evento dotado de profundidade pessoal, como um Tu que precisa ser amado incondicionalmente por meio do trato que se dispensará ao seu corpo.

Teríamos aqui uma contradição estrutural? Haveria aqui um choque da dinâmica biopsíquica contra a dinâmica moral? Penso que temos excelentes razões para crer que não; não apenas razões teológicas (tudo o que Deus criou é bom), mas também filosóficas. Vou lançar mão aqui da noção de sobredeterminação utilizada em ontologia (a teoria sobre a natureza da realidade). O conceito não é muito complicado, mas exige alguma atenção.

Sobredeterminações ontológicas
A ideia de sobredeterminação ontológica é a ideia de que a dinâmica própria de um nível superior da realidade não contradiz, mas sobredetermina a dinâmica de um nível inferior. Um exemplo clássico disso é a relação entre a dinâmica biótica seus processos químicos subjacentes. A matéria, como se sabe, se associa ou se desassocia segundo leis físico-químicas, e essas leis por si mesmas não produzem seres vivos. Por outro lado, seres vivos apresentam processos exclusivos em relação aos seres inanimados; processos como a reprodução, o metabolismo, e a conservação de informação complexa.

Naturalmente, para realizar todos estes processos, os seres vivos dependem de processos físico-químicos, que seguem leis físico-químicas. Porém, se as moléculas que compõe a estrutura de uma célula viva apenas obedecessem a leis físico-químicas, ela se desfaria. As moléculas da célula obedecem às leis físico-químicas dentro de restrições e especificações impostas pela dinâmica biológica do organismo, segundo modos absolutamente improváveis, de um ponto de vista puramente químico. Quando as moléculas da célula seguem apenas as leis físico-químicas, sem nenhum controle biótico, ela se desfaz -- porque, obviamente, ela está morta. Dizemos, portanto, que há na célula uma sobredeterminação das leis bióticas sobre as leis físicas.
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Opinião do leitordeixe seu comentário
 
 
Rossandro Da Silva Laurindo | São Paulo - SP #1
Concordo com a visão e deixo minha opinião. O amor humano e divino possui dois aspectos fundamentais a saber: O amor na base da alma e na base do espírito. Na base da alma, envolve nossas emoções e sentimentos, além de intelecto para conquistar a pessoa amada. Na base do espírito, que vai mais além, o amor acontece como algo perpétuo. Uma união ligada não à carne, mas à alma que viverá eternamente. Em outras palavras, mesmo que o corpo se deteriore com o tempo, se há ligação de amor com a alma, este mesmo amor, que agora é divino, existirá para sempre e incondicionalmente, como o Amor de Deus.
Postado em 17/09/2009 às 15:37:31
 
Daniel Bento Da Silva | Presidente Prudente - SP #2
Olá prezados irmãos.
O texto do pr Guilherme é preciso ao apontar o verdadeiro motivo da impureza sexual.
Apesar de 1 Co 13 não ser o foco de sua explanação, a gente tem a impressão de que está diante de uma exposição prática e contemporãnea deste texto sagrado.
Parabéns pr. Guilherme e editora Ultimato pela relevância do tema e texto.
Pastor da Igreja Batista Prudentina e psicanalista.
Presidente Prudente - SP
Postado em 17/09/2009 às 15:53:17
 
Marcos Antonio Ferreira | Campos Dos Goytacazes - RJ #3
Interessante, mas a abordagem, ainda que complexa e filosófica, não satisfaz.
A questão da impureza sexual é bem mais complicada. Creio que cada caso é um caso. Não pode ser vinculada simploriamente à fraqueza pessoal nem a uma suposta insuficiência de amor, medido em um suposto "agapômetro". A quantificação do amor que temos nas Escrituras diz respeito a três objetos, cada um com medida específica: Deus (Mc 12.30), o próximo (Mc 12.31) e irmãos em Cristo (Jo 13.34). Mas parecem ser medidas imessíveis. Amor, é ter ou não ter. O problema é mais teológico e a teologia não dispõe de fórmulas.
Postado em 18/09/2009 às 12:40:31
 
Guilherme De Carvalho | Belo Horizonte - MG #4
Caro Marcos Antônio,

na verdade Jesus nos deu um "agapômetro" muito bom: "aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama" :-D

Mas à parte disso, concordo que a questão da impureza sexual é bem mais complicada. Eu não quis solucionar a questão inteira, mas chamar a atenção para um aspecto dela: que não é possível curar-se de um problema moral tratando apenas a sua dimensão biopsíquica.
Postado em 23/09/2009 às 11:22:26
 
Marcos Alexandre Pereira Behera | Niteroi - RJ #5
Dialogando sobre as coisas do espírito com pessoas amigas, uma católica e um espírita, fui para casa de tal forma indignado com alguns comentários, que havia estabelecido em meu coração não mais conversar com eles. De madrugada navegando nas escrituras, senti um intenso e extraordinário amor pelos dois. Transformado num único sentimento, tão somente amava a tudo e a todos. Meu corpo inteiro vibrava de amor e prazer, um prazer santo, maior que a soma de todos os prazeres terrenos. Não estava cheio de drogas, nem de bebida. Estava cheio do Espírito Santo. Toda sede de prazer em seu inconsciente é a busca de uma perfeita comunhão com Deus. Convido os irmãos a lerem um breve artigo meu em “palavra do leitor “ (perfeita comunhão com Deus), quem sabe seja de algum proveito para essa complexa e relevante reflexão. Um dia nos amaremos muito.
Postado em 26/09/2009 às 13:23:45
 
Eduardo França De Oliveira | Feira De Santana - BA #6
Bem profundo o artigo do amado Guilherme de Carvalho. Bem verdade é que não somos robôs, mas seres humanos criados à imago Dei.
Quanto a questão do pastor no início do artigo, fico abismado por saber que as pessoas costumam exaltar o amor e "abafar" a verdade. Esse evangelho "adocidado" em que não se vêem as falhas mas só as qualidades é repudiado por toda a Bíblia! Como pode um pastor pensar assim? Diz ele: O homem é adúltero e ama sua esposa. Esse deus que só ama, mas não abomina o pecado causa-me náuseas.

(Pentecostal, Fundamentalista, e Apologista, Polemista)
Postado em 05/10/2009 às 14:47:36
 
Eliseu Gurgel Dos Santos | Belo Horizonte - MG #7
Amados

A paz do Senhor.

Não tenho muito a acrescentar, só dizer que o artigo é muito bom.

Abraços.
Postado em 21/11/2009 às 12:12:23
 
Cezar A Z Lopes | Corupá - SC #8
Impureza sexual é algo que sempre me perturbou. É um pecado que é difícil de deixar. Se faz e acaba se fazendo de novo e sempre pedindo perdão a Deus. Não é um pecado real, pois não sou adúltero. Estou casado há 23 anos. Não uso a pornografia. O olhar é um problema. Não consigo desviar o olhar de belos corpos femininos. Entendi que me falta amor. Aos 52 anos, já não tenho a virilidade dos 20, mas a cobiça continua. O pecado é um mal que existe na ausência de um bem. Realmente não amo. A maior razão de outros meus sofrimentos é não amar. É a fantasia da mulher objeto. Isto é um sofrimento.
Postado em 15/12/2009 às 15:25:26
 
Eduardo | N - RN #9
Com freqüência a questão sexo e variantes (adultério) caem na tradicional explicação de Agostinho sobre o mal e o bem para fugir da maneira como o tal pastor trataria o problema: este reprisa o tradicional 'ama mas é fraco'; o outro propõe o contorcionismo metafísico Agostiniano: 'ame e faça o que quiseres'. Acho que a questão corta um universo muito mais amplo e sem solução a vista mas com amplo apoio interdisciplinar, só para ficar no óbvio. O resto é exercício pueril de idéias e métodos.
Postado em 21/12/2009 às 20:37:53
   
 
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