quinta-feira, 02.setembro.2010
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OPINIãO
 
  Curtindo Beatles com Jesus -- Deus não é gospel
 
Rodrigo de Lima Ferreira

Converti-me há 21 anos, em 4 de fevereiro de 1988. A conversão a Cristo promoveu uma verdadeira revolução em minha vida. Experimentei o que significa o amor de Deus. Experimentei, também, o que significa sofrer por causa dessa nova fé. Chacotas, zombarias, humilhações — tudo por causa daquele em quem comecei a crer.

No entanto, aprendi também a criar uma “carapaça” ao meu redor. Vi que talvez fosse melhor me proteger dos temidos ataques do mundo vivendo atrás de um “muro de Berlim” cultural, onde somente aquilo que fosse “religiosamente aceitável” seria admitido. O mais interessante é que esse muro era seletivo. Barrava apenas música e literatura, com exceção da literatura escolar, que era obrigatória. Enfim, aprendi a filtrar aquilo que vinha a mim de acordo com padrões pré-estabelecidos por um ethos social vigente.

Aos poucos, vi essa carapaça contrair trincados e rachaduras. Por meio do pastorado, tive contato com várias realidades no Brasil e fora dele. Em algumas, vi que pessoas que criaram uma carapaça ainda mais grossa do que a minha eram extremamente religiosas, mas que não experimentavam o frescor da graça do crucificado. Em vez disso, exalavam o bolor fétido da religiosidade morta e carcomida dos fariseus contemporâneos de Jesus. Eram capazes de recusar a audição de alguma peça musical devido à sua origem “profana”, mas também se recusavam a viver uma vida de amor cristão, preferindo substituí-la com regrinhas autoglorificantes. E isso tudo em nome de um Deus a quem conheciam só de ouvir falar.

Tive também a oportunidade de conhecer irmãos de outros países que agiam de modo diverso do meu. E vi que, mesmo na diferença cultural, aqueles eram irmãos de valor, com o coração no reino, muito mais até do que eu, com todo o meu escudo confessional.

Nessa minha queda-de-braço cultural com Deus, compreendi melhor o que Paulo quis deixar registrado em Cl 2.20-23: “Se morrestes com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos sujeitais ainda a ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: não toques, não proves, não manuseies (as quais coisas todas hão de perecer pelo uso), segundo os preceitos e doutrinas dos homens? As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria em culto voluntário, humildade fingida, e severidade para com o corpo, mas não têm valor algum no combate contra a satisfação da carne”.

Finalmente, vi que estava querendo ser melhor e mais santo que o Senhor. Nessa minha paranoia ególatra, fechei os olhos para a realidade de que “toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” (Tg 1.17), incluindo, aí, as boas dádivas culturais.

“Diga-me de verdade, diga-me porque Jesus foi crucificado / Foi por isso que papai morreu? / Foi por você? Foi por mim? / Será que assisto muita TV? / Isto é uma ponta de acusação em seus olhos?” Esses não são versos de protesto de alguma banda cristã que questiona a banalidade gospel de hoje em dia. São os versos iniciais da música “The post war dream”, do Pink Floyd. Vejo hoje, portanto, que Deus está muito além de nossas limitações culturais. Ele pode usar, caso queira, uma peça teatral, um texto de jornal, uma música para sua glória, independente da confessionalidade. Sua soberania nos mostra que Deus não é gospel. Sua graça nos permite ver a sua beleza por meio da beleza artística, seja ela evangélica ou não.

Enfim, a graça de Deus me mostra, entre outras coisas, que posso curtir boa música, independentemente do rótulo, com o Senhor.


Rodrigo de Lima Ferreira, casado, duas filhas, é pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil desde 1997. Graduado em teologia e mestre em missões urbanas pela FTSA, hoje pastoreia a IPI de Rolim de Moura, RO.
   
 
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Opinião do leitordeixe seu comentário
 
 
Samuel Nicolau Dos Santos | São José Dos Campos - SP #1
Muito interessante o texto, mas me preocupo com sitações bíblicas que de uma certa forma contrariam esses pensamentos, tais como "Porventura deita alguma fonte de um mesmo manancial água doce e água amargosa? Meus irmãos, pode também a figueira produzir azeitonas, ou a videira figos? Assim tampouco pode uma fonte dar água salgada e doce. Tg. 3:11,12. Isso não doutrina humana, mas palavra de Deus. Quando nos entregamos ao Senhor, só podemos agradá-lo numa postura de santidade, a qual vai desde a renúncia ao profano até à prática do amor ao próximo, conforme o próprio mestre diz em Mt 23:23.
Postado em 06/02/2009 às 18:31:03
 
Thiago Guimarães Azevedo | Bel - PA #2
Pastor muito edificante ver que podemos encontrar mensagens de um Deus que age como o vento, que sopra onde quer e como quer, principalmente longe de nossas amarras institucionais, ou como bem o senhor colocou, de nossas carapaças grossas e que não deixam que a graça de Deus respire através de nós.
Hoje tenho descoberto maravilhas através da poesia e da MPB, pessaos como Noel Rosa, Chico Buarque, Paulinho da Viola, tem me ensinado a ver a vida de uma outra perspectiva e assim glorificar a Deus através deles. Por que não?

Que Deus abençoe.
www.descansodaalma.blogspot.com
Vou publicar lá, Abraço.
Postado em 07/02/2009 às 11:16:27
 
Ismar Sahdo | Manaus - AM #3
Achei seu texto (não vc) bom, mas ainda neurótico. Isto porque vc falou apenas de uma Banda Não-Gospel, mas com letra ainda Gospel. E se a letra não for gospel, podemos ouvir? - é a pergunta que fica no ar após a leitura do seu artigo. Não seria a música apenas uma questão de gosto individual? O que passar disso já não significa uma atitude legalista?
Postado em 07/02/2009 às 17:03:32
 
Tiago Carlos Zortéa | Serra - ES #4
Interessante mas pouco argumentativo. Concordo com o fato de que Deus não está numa arredoma de vidro chamada "Gospel". Aliás, em nenhuma arredoma!
Entendo que enquanto humanos nesta Terra não estaremos completamente "protegidos" por esta carapaça a qual tu exemplificas em seu texto; o que, obviamente, não deve ser premissa justificadora do desvio da santidade.
Acredito que, no que concerne ao julgamento do que ouvir e do que não ouvir, do que assistir ou não assistir não deve ser moralista, mas ético. I Tess. 5.21 diz: "Examinai tudo. Retende o bem." Este é o caminho!
Postado em 09/02/2009 às 18:31:19
 
Volney Faustini | São Paulo - SP #5
Percebi, Rodrigo Digão e concordo com o que você escreveu, que a tal da carapaça não nasce de uma vida de intimidade com Deus. Esse 'capô' que colocamos sobre o nosso ser, acaba servindo de uma proteção barata e furada - e exatamente por não revelar o que somos, mas tão somente intenções e aparências, logo logo se despenca e ficamos nu.
Aliás, é isso que Deus quer da gente - como somos. É a graça tomando conta.
Postado em 10/02/2009 às 11:36:48
 
Rogerio De Araujo Freitas | Maceió - AL #6
O que o pastor está tentando nos dizer é exatamente o que deve buscar o verdadeiro cristão, independente de qualquer denominação religiosa: o que buscamos é a presença de Deus com seu infinito amor nas coisas que o homem cria para si. É possível determinar o que é bem e mal sem se exasperar com doutrinas particulares que visam apenas isolar o homem de si mesmo; devemos acabar com a intolerância e buscar as mensagens de Deus em todos as coisas que existam; mesmo que o Senhor nos tenha falado através de um fariseu. A suma mensagem está presente ali e toca o nosso coração e é isso que importa.
Postado em 12/02/2009 às 01:49:03
 
Olavo Saldanha | Natal - RN #7
É claro que o Pr. Rodrigo será mal interpretado, afinal, nossa carapaça ainda está grossa. Quando recebemos a graça de crer na salvação, percebemos que o fardo do pecado que leváva-mos era grande, porém, um novo fardo substitui o velho, o da auto justificação. Que nos torna juiz de comportamentos e ações. Tenho clamado contra isto já há algum tempo e encontrei eco neste texto.

Em Jesus.

http://olavosa.wordpress.com/
http://olavosaldanha.wordpress.com/
( blogs de fé e Arte )
Postado em 17/02/2009 às 09:42:13
 
Robson Santos Sarmento | São Paul - SP #8
As palavras pinceladas pelo estimado Pastor merecem uma rápida e rasteira reflexão. Sem ensejar instaurar uma ditadura de preceitos e conceitos, a questão da carapaça implica compreendermos a relevância de sermos igreja, testemunha da Graça, servos embuídos e eivados pelo serviço criativo e pela fé lúdica. E isto nos remete a uma cristandade de práxis comunitária e de compromisso com pessoas. Tão somente, conseguiremos trilhar pela transparência e por uma vivência de discipulado e discipulador, de romper com as trincheiras de um evangelho regido pelas volições de uma natureza suspicaz.
Postado em 24/10/2009 às 11:17:31
   
 
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