quinta-feira, 02.setembro.2010
Esqueceu sua senha?
Receba o nosso boletim eletrônico
 
R$ 24,80
Até Quando?
R$ 29,90
Devocionais Para Todas as Estações (edição de bolso)
R$ 23,70
O Que é Missão Integral?
 
OPINIãO
 
  Perdão por nascer homem
 
Marcos Monteiro

Entendo, Odja, que é muito pouco o que queremos fazer: pedir perdão. Lamentavelmente, isso será o máximo que faremos, porque não iremos nos converter e não aprenderemos a nos arrepender (e nem queremos realmente). Não escolhemos nascer homens, mas temos tirado todo o proveito possível dessa desigualdade acidental. A sociedade nos destinou o melhor pedaço, as melhores oportunidades e os maiores privilégios, e nos apossamos disso com certo prazer malévolo. 

A maioria de nós nem percebe a injustiça dessa sociedade androcêntrica; a parte que percebe faz muito pouco. Acompanhar as dores específicas dessas mulheres especiais que são vocês duas, Pastora Odja (com concílio) e Pastora Cleide (apesar do concílio), é somente reconhecer as dores generalizadas de todas as mulheres, incluindo as outras pastoras, nesse absurdo mal de ser, como denuncia Gebara e como lembra você. 

O esforço de vocês é desumano. Precisam se esforçar dez vezes mais e trabalhar dez vezes mais somente para provar que são iguais a nós, homens. No discipulado de iguais de Jesus Cristo, certamente vocês seriam reconhecidas mais justamente. Aliás, esse título de “pastor” e essas cerimônias conciliares e sacerdotais são típicas do mundo masculino. Em uma sociedade de iguais, talvez prevalecesse aquilo que uma de suas teólogas colocou magistralmente: “A questão talvez não seja ordenar a mulher, mas desordenar o homem”. Essa perspicácia feminina nos incomoda bastante. O amor ao poder parece ter sido nossa principal bandeira, enquanto o poder do amor tem sido a constante demonstração de vocês. Obviamente, muito mais evangélica. 

Não iremos lutar contra estruturas, nós homens somos as estruturas. Nós nos apoderamos delas e não abriremos mão facilmente dos nossos privilégios. Nos apossamos do movimento de Jesus, da seleção de textos sagrados, da interpretação dos mesmos e faremos o possível para construir um discurso teológico que nos mantenha no poder, mesmo reconhecendo que as nossas estruturas estão falidas (incrível como repetimos isso inutilmente). Continuaremos repetindo discursos imbecis e piadinhas idiotas, exatamente para mascarar o nosso fracasso, e continuaremos, enquanto possível, nos desviando das questões teológicas mais sérias do nosso tempo. 

Não iremos nos arrepender. Em vez de mudar de mentalidade e de atitude prática contra o machismo estrutural que somos nós, estabeleceremos uma série de metas menores e insignificantes para fingir que somos cristãos. Evitaremos sempre a luta contra o mal na base da nossa sociedade: não podemos arriscar nossos privilégios seculares. 

Por tudo isso, Odja e Cleide, pessoas humanas que nem precisam de títulos como precisamos, o máximo que podemos fazer é pedir perdão e não mais do que isto. Lamentavelmente, a esperança por um mundo de iguais passa pela luta solitária de vocês, onde não nos terão como parceiros. Continuem a luta. Por incrível que pareça, precisamos de vocês. A libertação das mulheres também significa inevitavelmente a libertação dos homens. Conseguindo, vocês mulheres, se libertar do mal ontológico de ser, nós homens seremos automaticamente libertados do mal ontológico de oprimir. 


Marcos Monteiro é autor de Um Jumentinho na Avenida, vencedor do Prêmio Areté de Literatura 2008 (categoria “Evangelização”). É um dos pastores da Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA, e faz parte do colégio pastoral da Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda, PE.
   
 
Publicidade
   
 
Opinião do leitordeixe seu comentário
 
 
Anísia Gonçalves Dias Neta | Feira De Santana - BA #1
É mto bom poder ler um texto como esse! Diante de uma sociedade evangélica patriarcal, q se esconde atrás de uma leitura bíblica machista, e q usa o nome de Deus p/ respaldar suas idéias opressoras, nós, mulheres, temos q buscar em Deus forças p/ lutar contra a misoginia! E temos também q agradecer a Ele pela vida de homens q entendem o legado cultural patriarcal q herdamos e por isso mesmo, reconhecem o mal q a misoginia causou e causa p/ nós. Obrigada Pr. Marcos, q, mesmo entendendo q a libertação deve vir da luta das mulheres, ñ se calou diante do poder fálico/falido dentro da Igreja cristã
Postado em 16/09/2008 às 10:03:29
 
Fabio Porto Novais | Feira De Santana - BA #2
Há um paradoxo em meu sentimento diante desse texto. Fico feliz em saber que existem pessoas que não se calam diante das injustiças, machismo. Por outro lado, fiquei muito triste em ser homem e de alguma forma contribuir para a misoginia. De fato temos que pedir perdão... Marcos Monteiro, Parabéns por sua acuidade teológica e um cristianismo engajado na vida concreta.
Postado em 16/09/2008 às 10:44:31
 
Everton Nery Carneiro | Salvador - BA #3
Em sendo pouco o pedido de perdão, por que não nos lançarmos ao máximo? Entendendo que o "máximo que faremos" é somente isso, precisamos ir além. Precisamos ultrapassar essa fronteira e assumir em sua radicalidade o projeto de Jesus( não confundir aqui ser-radical com ser-extremista). Precisamos sim nos converter e aprender. Aprender a ser-gente, aprender a ser-humano. Precisamos estar lado-a-lado, ombro-no-ombro com as Pastoras Odja e Cleide. Não somente com elas, mas onde houver opressão e desumanidade. Ir além do perdão pode ser viabilizado pela ação.
Qual a ação? Todos nós podemos sugerir
Postado em 16/09/2008 às 12:24:43
 
Pedro Virgilio Da Silva Filho | Biritinga - BA #4
Realmente o nosso máximo ainda é pouco!
Também peço perdão! Somos mesquinhos, por isso o título se torna tão importante!
Postado em 16/09/2008 às 13:32:34
 
Railson S. Oliveira | Maceió - AL #5
Creio que não devemos nos envergonhar ou pedir perdão por ter nascido homens, mas lutar para que não sejamos atores, cúmplices ou passivos frente à inequívoca opressão das mulheres. Não devemos falar de "mal de ter nascido mulher", como um mal exclusivo, separado ou especial, mas lutar contra todos os males (inclusive esse, de deixar de submeter alguém ao concílio simplesmente por ser mulher) trazidos pelo pecado, males esses que afligem a todos os que não têm como se defender.
Postado em 17/09/2008 às 16:09:06
 
Daniel Dantas | Salvador - BA #6
Marcos, não sei muito o que dizer a Odja, Cleide e todas as mulheres. Sei por mim que não sou capaz de fazer muito mais que pedir perdão a elas e todas as mulheres. Porque sei que no que depender de mim o androcentrismo do nosso mundo vai permanecer...
Postado em 22/09/2008 às 21:33:59
 
Roney Sousa Leão | Goiânia - GO #7
Mas não se pode com isso, por causa do androcentrismo, colocar em causa o fato de que Jesus nem os Apóstolos escolheram mulheres para o ofício e exercer autoridade na igreja.
Postado em 23/09/2008 às 11:30:17
 
Davina De Trapiá | Mossoró - RN #8
Em resposta ao Roney, Jesus também não escolheu nenhum gentio para exercer autoridade na igreja. Aliás, pensar assim é mundano - veja Marcos 10. 42-45. Nós, seguidores de Jesus, deveríamos estar preocupados não em quem tem autoridade (é Jesus), mas em servir. Acho que as mulheres têm tanto direito de servir como os homens.
Postado em 24/09/2008 às 12:32:07
 
Nilton Marinho | Salvador - BA #9
Como sempre, fundante o texto de Marcos Monteiro, simples sem ser simplório, profundo sem ser confuso, acessível sem ser superficial. Marcos Monteiro demonstra com muita naturalidade a sensibilidade de um poeta, a exatidão de um cientista, a criatividade de um grande tribuno, e, acima de tudo, sabe tocar a alma como um profeta. ( Continua....)
Postado em 25/09/2008 às 17:21:00
 
Nilton Marinho | Salvador - BA #10
O que me veio a mente durante a leitura do texto é algo que me desperta a atenção sobre a luta dos sexos é o fato de que a mitologia bíblica, em Gêneses, ter colocado a mulher e não o homem como principal protagonista da discussão do que mais nos caracteriza como Humanos, o desejo. Claro que aqui não me refiro nem a Lilith “a primeira mulher de Adão”, mas a própria Eva que teria vindo para “submeter-se” ao marido e “resolver” de uma vez por todas as dificuldades criadas pela primeira mulher.
Postado em 25/09/2008 às 17:23:42
 
Nilton Marinho | Salvador - BA #11
É Eva, que até então também era um Adão, que apresenta o dilema eterno da humanidade que é o desejo, cena só depois apresentada pelo “segundo Adão” Jesus por ocasião da tentação e pó último na primeira epistola de S. João aqui apresentando o desejo como crise de toda a humanidade. Assim o dilema do desejo é travado em Gêneses por uma Mulher de um marido passivo que junto com ela a segui e comem juntos do fruto proibido. (Continua...)
Postado em 25/09/2008 às 17:24:30
 
Nilton Marinho | Salvador - BA #12
Isso me lembra de um dos famosos 8 de março, onde após ter colocado minha exposição da “superioridade” do homem sobre a mulher, alguns homens se reuniram ao meu redor para me dizer que me esperavam fora da igreja em corredor polonês. Lamentável não conhecerem as opiniões mais profundas da Bíblia a esse respeito. Preferiram assimilar, uns por conveniência outros pela lei no menor esforço, o discurso histórico do machismo. Mas ainda bem que existe o outro lado.
Postado em 25/09/2008 às 17:25:10
 
Marcos Fellipe Costa Marques | Alagoinhas - BA #13
É importante lembrarmos que o discurso religioso reflete uma das formas + poderosas através das quais o sistema cultural se alimenta e se mantêm... Nossa religião assim como nossos textos sagrados são usados cntinuamente na produção e na reprodução de sistemas simbólicos q têm influencia sobre as relações sociais de gênero, servindo muitas vezes como cumplice da violencia... Pesso perdão, por ser parte dessa estrutura opressora. E por minha religião inúmeras vezes contribuir para que esta permaneça. Obrigado Pr. Marcos pela reflexão... Me trouxe a memória inumeros desafios q preciso encarar...
Postado em 02/10/2008 às 22:24:57
 
Tabita Tiede Lopes | São Paulo - SP #14
marcos,
eu te perdôo por nascer homem, mas tome vergonha na cara e faça alguma coisa mais contra a opressão secular das mulheres, além de ficar aí choramingando.
Postado em 11/11/2008 às 01:28:05
   
 
O cristão na política: direita ou esquerda?
Fé evangélica: um cadáver e uma autópsia
Tá doendo
Sonho
   
 
Assine Ultimato e receba em sua casa.
Chamado Radical
Bráulia Inês Ribeiro
144 páginas

Quando buscamos os sonhos de Deus, então nos encontramos.
de R$ 26,50
por R$ 18,50
A satisfação básica de uma pessoa, em si, não é boa nem má; é um dom gratuito de Deus a ser usado para a sua glória.
Charles E. Hummel
 
Copyright © 2001 - 2010
Editora Ultimato Ltda
Reprodução permitida. Mencione a fonte.
Editora Ultimato - Caixa Postal 43 - 36570-000 - Viçosa-MG
Ligue
(31) 3611-8500
(31) 3891-3149
Desenvolvido por processado em 0,283 segundos e 15 consulta(s).