quinta-feira, 02.setembro.2010
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OPINIãO
 
  Evangélicos: da reserva moral à vanguarda inescrupulosa
 
Derval Dasilio

Exemplos indignos de igreja gananciosa, mais respeitados que Estevão – cristão esquecido, mártir da fé resistente à religião retributivista, na compaixão, na misericórdia, no cuidado com os demais – Simão, Ananias e Safira fascinam evangélicos recentes tais como mágicos vigaristas e trapaceiros no viaduto Santa Efigênia. Políticos, segundo as últimas notícias que envolvem senadores e deputados federais do Congresso, envolvidos em mensalão, operação sanguessuga, propinodutos permanentes, representando milhões de evangélicos. São eleitos como “homens de fé evangélica” mesmo respondendo a acusações e processos por fraude, roubo e corrupção. Compõem a nova linguagem política nos púlpitos e nos templos transformados em palanques da nova forma cultural de “ser evangélico”. Leem a Bíblia fundamentalista, adestrando os fiéis para o uso da urna; defendem com unhas e garras o senador eleito com auxílio do crime organizado; promovem para nova eleição o deputado que renunciou para escapar à cassação do mandato evitando a inelegibilidade... Com a palavra os pastores parlamentares.

Algo que é muito embaraçoso nos tempos atuais é a verdade sobre a compreensão “evangélica” que torna a visão de Deus, do homem, da sociedade e do mundo extremamente preocupante, fazendo corar os que ainda têm vergonha. Ganância, sacrifício financeiro em favor de dirigentes religiosos, hoje são virtudes evangélicas e não pecados veniais. Promessas de prosperidade, politicagem rasteira, tal qual incômodas apostasias e heresias dos primeiros séculos da Igreja. Esse conhecimento nos traz uma culpabilidade relativa, uma vez que aceitamos e nos impregnamos do pragmatismo propositista do fundamentalismo que se ensina nas igrejas e que procuramos assimilar a qualquer custo. São absurdos, descalabros, no caminho e na transmissão da fé consolidada nos 150 anos de protestantismo no Brasil, com a Bíblia a tiracolo.

É o fim do conceito da transparência. Fomos sempre conhecidos como reserva moral da sociedade. Passamos à vanguarda imoral. Agora pertencemos ao lixo que faz feder o nome “evangélico”. Roubar, fraudar, usar de falsidade ideológica, enganar eleitores, não é mais pecado imperdoável. Escrevendo a Melanchton, Lutero disse em bom latim: “Esto peccator et pecca fortiter” (Sê pecador e peca forte). Só que esses evangélicos que não seguem o pensamento do grande reformador protestante fazem questão do acréscimo apócrifo: ...“e crede mais fortemente na impunidade”. Eis o complemento do evangelho pelo avesso, na ganância de nossos parlamentares, evangelicais ferrenhos em suas campanhas. Igrejas/palanques dominam, controlam e influenciam a inveja das igrejas menores, enquanto pastores do baixo clero e cabos eleitorais da corrupção alimentam campanhas eleitorais sem pudor cristão.

Dietrich Bonhoeffer, mártir do cristianismo moderno, dizia que é preciso estar atento ao fato de que Deus entrou na história e na carne da humanidade por meio de Jesus Cristo.

Nossa herança difere da herança de outros povos e outras culturas quanto à revelação do Evangelho encarnado, quando prenunciava a pós-modernidade religiosa (carismática), a secularização evangélica (êxtase e ganância), vendo religiosos agindo como se Deus não existisse. Arrogando-se de serem donos do destino histórico de cada um e da sociedade humana em seu todo.

Agrade-nos, ou não, “nossos antepassados bíblicos são testemunhas do ingresso de Deus na história humana” (Thomas Merton). Deus, não o movimento carismático, retributivista, sem escrúpulos, faz nossa história. Quer admitamos ou não, sendo protestantes, evangélicos, católicos, a revelação aponta para Jesus, que veio para o “mundo” e o mundo não o conheceu (Jo 1.10). Jesus não utilizou sua imagem para impor a hegemonia evangelical triunfalista que adotamos. Ao menos no período apostólico da Igreja, os cristãos respeitavam o ethos bíblico. Por que nossos concílios eclesiásticos não acordam enquanto se recolhem em solidariedade implícita à desonestidade reinante? É um sofrimento ler a Bíblia e a história do protestantismo nesse cenário de omissão.


• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. www.derv.wordpress.com
   
 
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Opinião do leitordeixe seu comentário
 
 
Alexandre Pereira Vaz Da Silva | Nossa Senhora Do Socorro - SE #1
É incrível como há lideranças cada vez mais comprometidas com o poder corrupto do mundo. São fundamentalistas de fachadas só para se manterem no poder e apregoar que defendem a fé evangélica. Cristo está cada vez mais distante por sermos um povo que fala muito e faz muito pouco. O caráter já não tão importante em detrimento de se dizer que ninguém é perfeito, por traz disso está o fato de que ninguém que se comprometer com os valores do Reino, que é o renunciar a si mesmo. O pior é que a maioria gosta disso. A igreja evangélica brasileira está enferma é preciso reconhecer para sermos curados.
Postado em 21/08/2009 às 22:17:08
 
Julio Cezar Zardini Amorim | Colatina - ES #2
Parabéns , pastor Derval, este quadro mostra que precisamos urgentemente retornar ao atendimento um por um, ovelha a ovelha, discipulando agentes transformados e transformadores de uma sociedade decaída, sem a massificação neurótica evangélica, que alimenta um exército de famintos sem causa, mortos em seus delitos e pecados, sem o conhecimento da graça, mas alvo dela ainda que seja um perfume para a morte. Aos eleitos de Deus, digo: não se impressione, sempre avante, a Palavra da Verdade está introjetada e em atividade, ainda que voces não vejam ou sintam.
Postado em 22/08/2009 às 20:47:50
 
Fernando Pedro Marinho Repinaldo | Vitória - ES #3
Querido Pastor Derval,parabenizo-lhe pela inspirada reflexão e clara exposição sobre em que se transformou o "cristianismo" nos dias atuais. Infelizmente a maioria do "povo" que se diz "evangélico" pensam e agem na forma criticada. Prevalece um cinismo velado em nossas instituições. Congresso Nacional e Igreja cada vez se assemelham mais e se confudem no processo simbiótico que experimentam. Evangélico, hoje, é um adjetivo que me envergonha e constrange. O meu ideal cristão sucumbe na Igreja atual. Um forte abraço e que Deus continue te iluminando a escrever bons textos.
Postado em 28/08/2009 às 13:57:30
   
 
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