terça-feira, 09.fevereiro.2010
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Reflexão — Ricardo Gondim
Para não viver em vão
Ricardo Gondim

Clint Eastwood produz e dirige filmes densos, especialmente os que lidam com o abuso de crianças. Gostei da trama de “A Troca” (“Changeling”), baseado em fatos reais. Um garoto desaparece enquanto a mãe, divorciada, trabalha algumas horas extras no sábado. Para encontrar o filho, Christine, personagem encenada por Angelina Jolie, precisa enfrentar sozinha a corrupta máquina policial de Los Angeles e ainda tem de manter o emprego, apesar da solidão e do desespero pelo sumiço do menino.

O pastor presbiteriano Rev. Gustav Briegleb (John Malkovich), que lutava contra a violência policial, se une a Christine em sua luta contra a politização do Xerife que deveria cuidar da segurança pública. A militância de Briegleb é ética, corajosa e persistente. No final, enquanto projetavam as explicações finais sobre os desdobramentos do que aconteceu no filme, desabafei: “Quando crescer, quero ser igual a esse pastor”. O ministério de Briegleb desencadeou mudanças profundas nas leis da cidade. A obstinação de um homem salvou a vida de milhões de pessoas que ainda nem tinham nascido.

Fui ordenado ao ministério em 1977. Desde então, trabalho com evangelização, missões urbanas e plantação de igrejas. Preguei milhares de sermões, participei de centenas de congressos, mesas-redondas e seminários. Comparo-me ao que Jesus disse aos primeiros discípulos: “Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça” (Jo 15.16). Conto os anos de ministério, vejo que o meu futuro é mais curto que o passado e me pergunto: “Qual a pertinência do meu esforço? O fruto do meu ministério permanecerá?”.

Não pretendo terminar os dias desempenhando as funções sacerdotais como mero sacerdote que batiza, celebra ritos de passagem e enterra os mortos. Não almejo acomodar-me à função de xamã. Não tolero o papel de “baby-sitter” de crentes burgueses, sempre ávidos por bênçãos.

É possível encontrar muitos cristãos em movimentos populares que reivindicam reforma agrária. Porém os pastores, com certeza ocupados com a máquina religiosa, não dispõem de tempo para se aliarem aos oprimidos pela burocracia estatal, que perpetua a injustiça. Poucos se atrevem a sair do conforto das catedrais para defender o meio ambiente.

Como pastor pentecostal, inquieto-me com o massacre da teologia da prosperidade, que ocupa a maior parte do culto com promessas de bênção. Não gosto de ver a instrumentalização de quase todo esforço missionário para fazer proselitismo, em nome de uma evangelização.

Pastores semelhantes a mim vivem a responder a questiúnculas sobre doutrina, a legislar sobre moralismos e a apagar fogo de contendas entre os membros de suas comunidades. O discipulado desaparece na catequese que tenta adequar as pessoas às demandas religiosas. O resultado é trágico e o testemunho cristão, pífio.

Por todos os lados pipocam sinais de que os evangélicos começam a repensar a teologia fundamentalista que lhes serviu de suporte. Agora urge fazer o dever de casa com a eclesiologia. O significado de ser igreja em áreas cosmopolitas tem de ser mais bem avaliado. Os paradigmas atuais sufocam o surgimento entre os evangélicos de gente como Martin Luther King ou Dorothy Stang.

Caso não mexamos com os conceitos fundamentais da teologia da missão, continuaremos repetindo fórmulas desgastadas. Resgatar pessoas do inferno, garantir o céu, mas esquecer a “plenitude da vida” diminui brutalmente o mandato cristão. O tempo gasto das pessoas, os recursos financeiros aplicados, a mobilização de talentos, não podem ser desperdiçados. A função da igreja é também resgatar vidas, proteger os indefesos da burocracia estatal, da opressão do mercado e até da frieza eclesiástica.

Como cuidei basicamente de igrejas urbanas, lamento o tempo perdido com a máquina religiosa. Fui absorvido por programações irrelevantes. Defendi teologias desconexas da existência. Fiz promessas irreais. Discuti ideias estéreis. Corri em busca de glórias diminutas. O tempo é uma riqueza não renovável, portanto, resta-me lamentar tanto esforço para tão pouco resultado.

Entreguei-me de corpo e alma à oração, fiz vigílias, jejuei. Ralei os joelhos em busca de uma espiritualidade eficiente. Acreditei piamente que a maturidade humana aconteceria pelo caminho da piedade religiosa. Ledo engano. Muitos companheiros de oração se levantaram ferozmente contra mim.

O mundo passa por mudanças radicais e as igrejas, se quiserem ser relevantes, precisam repensar seu papel na sociedade. Se não quiserem sucumbir à tentação de serem meros prestadores de serviços religiosos, os pastores precisam abrir mão de egolatrias tolas como o fascínio por títulos. É tolice brincar de importante usando o nome de Deus.

O descrédito do cristianismo ocidental se tornou agudo nos últimos 20 anos. Urge que os pastores revejam os seus sermões e se questionem se pregam conceitos relevantes em uma sociedade profundamente injusta, cruel e opressiva. Não fazer nada custará muito à próxima geração. Mais jovens se fatigarão prematuramente. E os idosos morrerão com o gosto amargo de terem gastado a vida em vão. O que seria muito triste.

“Soli Deo Gloria”.


Ricardo Gondim é pastor da Assembleia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Eu Creio, mas Tenho Dúvidas. www.ricardogondim.com.br
 
Opinião do leitordeixe seu comentário
 
Sergio Da Silva Sena | Campo Gande - MS #1
A Paz de Cristo!
Parabenizo a Ultimato e também ao Pr. Ricardo Gondim pelo tema e reflexão tão significativos para nossos dias.
A igreja foi bem conceituada por seu Dono como sal e luz, sendo assim não é possivel representar, nesta perspectiva, sem se expor. É fato que Cristo veio para o mundo, porém se posicionou a favor dos fracos e isso foi expressivo em seu ministério. Segundo Bonhoeffer, a igreja é Cristo na comunidade e isso também tem que ser expressivo, senão perde-se o propósito (missões) e o sentido de existir como a autêntica igreja de Cristo.
Obrigado.
Postado em 13/03/2009 às 19:16:53
 
Pedro Gonçalves Da Silva | Fortaleza - CE #2
Este texto são vozes que ecoam de um coração experiente que já trilhou um longo caminho na estrada da fé.
Gosto do Pr. Ricardo Gondim, sobretudo pela coragem de não maquiar a realidade do evangelho.
Acato os seus conselhos revenciando a história de quem já acertou e errou. Isso lhe dar condições para ser um referencial.
Obrigado, Ultimato por dispor neste espaço divino, uma fagulha de luz que reflete a glória de Cristo. (Principalmente quando denuncia a máquina religiosa.)
Postado em 13/03/2009 às 19:53:18
 
Olavo Vigil | Porto Alegre - RS #3
Os argumentos de Ricardo me levam a reflexões profundas a cerca do ministério "nosso de cada dia". Nascemos para o ministério ainda jovens, cheios de sonhos e com um coração revolucionário. Prometemos piedosamente que não seremos iguais aos nossos antecessores. Fazemos votos que não nos curvaremos a manupulações políticas-denominacionais, a caprichos de ovelhas com acumulo de gorduras pecaminosas e desnutridas de provisão espiritual. Quando jovens afirmamos categoricamente que vamos fazer a diferença, que não seremos iguais aos nossos antecessores... Depois descobrimos... o passado se repitiui.
Postado em 03/04/2009 às 01:13:50
 
Marcelo Rabelo Ramos | Montes Claros - MG #4
Depois de 20 anos tentando viver em igrejas evangelicas me afastei,não quero voltar e acredito que nada vai mudar e tudo não passa de um negócio ou mero meio de vida para muitos. O pastor Gondim foi mais resistente e diz coisas reais pois o evangelho é algo bem diferente do institucionalizado.
Postado em 14/04/2009 às 15:59:18
 
Elias Nicolau | Guarulhos - SP #5
parabens pastor Ricardo... como é bom ler os seus artigos ,livros e ouvir suas ministraçoes na radio... não pare pastor, não pare ... as suas palavras edificam muitas vidas,inclusive a minha...parabens.
Postado em 14/04/2009 às 21:52:55
 
Samuel Nicolau Dos Santos | São José Dos Campos - SP #6
Muito realista e atual esse texto. Não podemos no entanto desistir desse projeto de DEUS que é a igreja. Uma vez ELIAS desejou desistir achando que tudo estava corrompido por Jezabel, mas o SENHOR o fez saber que em meio a tanta desvirtuação havia o remanescente. DEUS espera que sejamos esse remanescente, que mesmo diante de tanta religiosidade não desiste de se impor e reagir ao errado para fazer o certo. Realmente nos dias de hoje está difícil servir a DEUS como JESUS nos ensinou, mas desistir não é o correto. A igreja continua sendo o lugar onde o SENHOR ordena pra sempre sua bênção.
Postado em 17/04/2009 às 13:00:17
 
Marcos Ladeia Candor | Ilha Solteira - SP #7
Pr Ricardo,

Quero dizer que você não está só, e talvez não consegue perceber as mudanças que seu ministério tem produzido no cenário evangélico brasileiro, tem jogado as medidas de fermento na farinha, e tem produzido uma ação invisível mas transformadora, pois tem levado muitas pessoas à reflexão dialética, e agora talvez seja difícil mensurar as mudanças, mas creio que estão acontecendo e vão eclodir para a glória de Deus numa geração que manterá um protesto aberto contra esse evangelho rendido ao baalismo.
Postado em 06/06/2009 às 12:16:45
 
 
 
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