quinta-feira, 02.setembro.2010
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Reflexão — Ricardo Gondim
Verdade “versus” alucinação
Ricardo Gondim

O culto pegava fogo. O frenesi do povo crescia, estimulado por um pastor quase grisalho, engravatado e bastante brilhantina nos cabelos. Mesmo acostumado a ambientes pentecostais, estranhei o exagero dos gestos e das palavras. Concentrei-me para entender o que o pastor dizia em meio a tantos gritos. Percebi que ele literalmente dava ordens a Deus. Exigia que honrasse a sua Palavra e que não deixasse “nenhuma pessoa ali sem a bênção”. Enquanto os decibéis subiam, estranhei o tamanho da sua arrogância. A ousadia do líder contagiou os participantes. Todos pareciam valentes, cheios de coragem. Assombrei-me quando ouvi uma ordem vinda do púlpito: “Chegou a hora de colocarmos Deus no canto da parede. Vamos receber o nosso milagre e exigir os nossos direitos”. Foi a gota d’água. Levantei-me e fui embora. 

Os ambientes religiosos neopentecostais se tornaram alucinatórios porque geram fascínio por poder e pela capacidade de criar um mundo protegido e previsível. Por se sentirem onipotentes, buscam produzir uma realidade fictícia. Para terem esse mundo hipotético, os sujeitos religiosos chegam ao cúmulo de se acharem gabaritados para comandar Deus. É próprio da religião oferecer segurança, mas os neopentecostais querem produzir garantia existencial com avidez. 

Em seus cultos, procuram eliminar as contingências, com a imprevisibilidade dos acidentes e os contratempos do mal. Acreditam-se capazes de domesticar a vida para acabar com a possibilidade de seus filhos adoecerem, de as empresas que dirigem falirem e de se safarem caso estejam em ônibus que despenca no barranco. Almejam uma religião preventiva, que se antecipa aos solavancos da vida. Imaginam-se aptos para transformar a aventura de viver em mar de almirante ou em céu de brigadeiro.
Acontece que essa idéia de um mundo sem percalços não passa de alucinação. Por mais que se ore, por mais que se bata o pé dando ordens a Deus, o Eclesiastes adverte: “O que acontece com o homem bom, acontece com o pecador; o que acontece com quem faz juramentos acontece com quem teme fazê-lo” (9.2). 

Mas a pergunta insiste: por que os cultos neopentecostais lotam auditórios e ganham força na mídia? Repito, pelo simples fato de prometerem aos fiéis o poder de controlar o amanhã, eliminar os infortúnios e canalizar as bênçãos de Deus para o presente. Quando oram, pretendem gerar ambientes pretensiosamente capazes de antever quaisquer problemas para convertê-los em fortuna e felicidade. 

Esta premissa deve ser contestada. Pedir a Deus para nunca se contrariar, ou para ser poupado de acidentes, significa exigir que ele coloque os seus filhos em uma bolha de aço. A vida é contingente. Tudo pode ocorrer de bom e de ruim. Uma existência sem imprevisibilidade seria maçante. O perigo da tempestade, a ameaça da doença, a iminência da morte fazem o dia-a-dia interessante. 

A verdade não produz necessariamente felicidade. Verdade conduz à lucidez. O delírio, porém, tranqüiliza e gera um contentamento falso. Muitos recorrem à religião porque desejam fugir da verdade e se arrasam porque a paz que a alucinação produz não se sustenta diante dos fatos. 

Cedo ou tarde, a tempestade chega, o “dia mau” se impõe e o arrazoamento do religioso cai por terra. Interessante observar que Jesus nunca fez promessas mirabolantes. Como não se alinhou aos processos alienantes da religião, ele não garantiu um mundo seguro para os seus seguidores. Pelo contrário, avisou que os enviaria como ovelhas para o meio dos lobos e advertiu que muitos seriam entregues à morte por seus familiares. Sem rodeio, afirmou: “No mundo vocês terão aflições”.
Quando o Espírito conduziu Jesus para o deserto, o Diabo lhe ofereceu uma vida segura, sem imprevistos. As três tentações foram ofertas de provisão, prevenção e poder, mas ele as rechaçou porque as considerou mentirosas. O mundo que o Diabo prometia não existe. 

Porém as pessoas preferem acreditar em suas ilusões. Fugir da crueza da vida é uma grande tentação. Em um primeiro momento, parece cômodo refugiar-se da realidade, negando-a. É bom acreditar que a riqueza, a saúde, a felicidade estão pertinho dos que souberem manipular Deus. 

O mundo neopentecostal se desconectou da realidade. Seus seguidores vivem em negação. Não aceitam partilhar a sorte de todos os mortais. Confundem esperança com deslumbre, virtude com onipotência mágica, culto com manipulação de forças esotéricas e espiritualidade com narcisismo religioso. 

Os sociólogos têm razão: o crescimento numérico dos evangélicos não arrefecerá nos próximos anos. Entretanto, o problema é qualitativo. O rastro de feridos e decepcionados que embarcaram nessas promessas irreais já é maior do que se imagina. 

A demanda por cuidado pastoral vai aumentar. Os egressos do “avivamento evangélico” baterão à porta dos pastores, perguntando: “Por que Deus não me ouviu?” ou “O que fiz de errado?”. Será preciso responder carinhosamente: “Não houve nada de errado com você. Deus não lhe tratou com indiferença. Você apenas alucinou sobre o mundo e misturou fé com fantasia”. 

“Soli Deo Gloria”. 


Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Eu Creio, mas Tenho Dúvidas. www.ricardogondim.com.br
 
Opinião do leitordeixe seu comentário
 
Odilon De Oliveira Lima Junior | Itarumà - GO #1
Infelizmente é o que esta acontecendo com as igrejas neopentecostais.É o final dos tempos... é o próprio anticristo que está entre nós enganando a todos e o que é pior, todos estão gostando de ser enganados... e todos aprendem a blasfemar contra DEUS.
Postado em 23/09/2008 às 23:00:41
 
José Roberto Santos De Lima | Rio De Janeiro - RJ #2
Entendo a angústia do Pr. Ricardo, entretanto, acredito que os meios neopentecostais, de algum modo são fruto dos equívocos que nós os evangélicos históricos cometemos. Entendo sua visão e respeito seu "desasossego", mas vejo muitos modelos novos de liderança como forma de enquadrar a cosmovisão cristã com a tal da pós modernidade e com todos os sinônimos de mundanismo (Não tenho a intenção de mundanizar tudo é claro). As pessoas hoje estão buscando um super-homem que atenda suas expectativas e que forme em seu EGO aquilo eles mesmo nunca imaginariam conseguir ser. Sua reflexão é profunda e atual.
Postado em 26/09/2008 às 14:59:11
 
Edmario Soares Diniz | Nilópolis - RJ #3
Os cultos que defendem uma vida sem problemas se esquecem do texto de Rm 8.28 "Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito". Portanto a alucinação tem levado muitos ao desvio da fé cristã.
Postado em 15/10/2008 às 19:11:46
 
Fernando Sampaio | Recife - PE #4
Ontem, à medida que lia este primoroso texto chorava (literalmente) pelo tempo em que frequentava locais de cultos (até domésticos) que pregam rejeição a toda forma de dor, perda ou sofrimento. Desta "alucinação" já estou livre. Que os outros - seguidores destas falsas doutrinas - acordem enquanto ainda é tempo. "E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará !".
Postado em 21/10/2008 às 14:14:39
 
Liliane Coimbra | Rio De Janeiro - RJ #5
Parece que a Boa Notícia foi substituída. Já não é mais a redenção de almas. Passou a ser a redenção de que? Anátema!
Resultado do investimento do inimigo na igreja e da corrupção dos servos do Deus vivo. Bem que Ele avisou: "Se possível até os escolhidos seriam enganados!" Maranata!
Postado em 27/10/2008 às 14:29:38
 
Luis Carlos Florencio | Jaragua - GO #6
Apoio plenamente o comentário do pastor. Só lembrando que pra toda regra sempre tem sua excessão. Sou Neopentecostal e nao tenho este aspecto ai citado em nada. Neopentecostal pra gente aqui sao simplesmente pessoas que nao se apegam em usos e costumes antibiblicos mas que gozam dos dons espirituais. Valeu gente!!
Postado em 09/11/2008 às 17:59:26
 
Antonio Porto | Itapetininga - SP #7
Infelizmente as maiores mentiras têm vindo de nossos púlpitos, pentescostais, neopentecostais ou não.
Postado em 03/12/2008 às 12:52:27
 
 
 
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