quinta-feira, 02.setembro.2010
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Colunas — Arte e Cultura
Parei de ouvir música cristã
Mark Carpenter

Há dois anos escrevi neste espaço que lamento o estado da música cristã. Percebi agora que simplesmente parei de ouvi-la. Acabo de verificar o que tenho armazenado no WMP. Não há nada de “música cristã”, a não ser as gravações de cinco artistas que mal cabem no gênero: John Coltrane, Sufjan Stevens, U2, Leigh Nash e a extinta Sixpence None the Richer. Parei de comprar CD’s do gênero após acumular uma longa lista de decepções. 

Cabe aqui uma definição. Por “música cristã”, me refiro à categoria criada pelas gravadoras que produzem música popular para consumo pelo público “gospel”. “Música cristã” não é bem um gênero musical, pois o que existe é um mix retalhado de músicas que emprestam de gêneros legítimos. 

Não incluo na minha definição a música usada na igreja para o louvor coletivo. Música de canto congregacional independe de padrões musicais usados na avaliação de desempenho performático e na análise crítica da letra como poesia. O gênero conhecido como worship music tem como foco direcionar a atenção para as virtudes e as promessas de Deus, de forma que a qualidade de música em si passa a ser menos importante que seu aspecto pragmático no culto de adoração. Neste gênero específico, os critérios de avaliação resumem-se à (1) ortodoxia teológica da letra, (2) capacidade de envolver a participação da congregação e (3) qualidade técnica da execução pelo ministro de louvor, pelos instrumentistas e pelo backing vocal. Ou seja, worship music tem muito mais a ver com worship do que com music. Não minimizo a importância deste gênero, pois a própria Bíblia valoriza o louvor coletivo. 

Meu lamento, então, reflete apenas a paupérie artística de muita música produzida para consumo cristão fora da igreja. É como se a indústria cristã tivesse determinado que o que vale é o conteúdo da letra: desde que ela contenha certos chavões, frases ou narrativas evangelísticas — além de um estilo bacana apreciado pelo mercado alvo —, é desnecessária a busca da verdadeira expressão artística. Basta o “suficiente”. Acaba tendo mais em comum com propaganda que com arte. Para fazer um jingle, não precisa chamar Caetano. Qualquer Emmerson Nogueira serve. 

Percebo que há muita gente talentosa nas bandas das igrejas, pessoas realmente apaixonadas pela música e dispostas a sacrificarem para melhorar. Mas muitos são vencidos pela baixa expectativa da maioria, pelo padrão acomodativo e pelo ambiente em que o verdadeiramente excelente é visto com desconfiança. O desafio para aqueles músicos que realmente desejam a arte é aprenderem a fazer benchmarking pessoal com os melhores, e colocarem o seu talento a serviço do reino de Deus, e não apenas a serviço das gravadoras evangélicas. 

Isto não significa que já não existam cristãos fazendo boa música. Mas, por ironia, usualmente os músicos que levam a sério tanto seu cristianismo quanto a qualidade musical são aqueles que rejeitam o rótulo “música cristã” para assim distanciarem-se da média medíocre. São esses que revitalizam na música o espírito criativo, que reflete a beleza e a verdade de Deus. 

Parei de ouvir música cristã e comecei a buscar mais a boa música, inclusive aquela composta e executada por cristãos. 


Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP.
 
Opinião do leitordeixe seu comentário
 
Maycon França | Sao Gonçalo - RJ #1
Caro irmão, sua lista de musicos é bem eclética. Coltrane, U2, etc. Ate concordo que existem pessoas que usam o título 'cantor gospel' para ganhar dinheiro.Creio que mudaram cantor cristão pelo gospel, como tudo hoje em dia vai para o inglês (o irmão já jogou 'bola ao cesto' ou 'basketball'?) Vejo que o irmão possui muitos títulos (diretor, mestre..) e sem falar colunista no meio de comunicação muito visitado como é a internet, deveria ter cuidado com suas escolhas e gosto, sabendo que pode ou não influenciar. Devemos sim evangelizar.O Espírito Santo conclui.
Postado em 18/01/2008 às 12:27:21
 
Cesar Souto | Brasilia - DF #2
Mark, entendo perfeitamente sua posição. Encontrar produção musical cristã de qualidade, ultimamente, tem sido trabalho pra garimpeiro. Eu também 'desisti'. Praticamente não ouço mais nada que possa ser rotulado como evangélico ou gospel. Tenho escutado muita coisa boa (jazz, mpb e erudita, principalmente) sem nenhuma preocupação em saber se o músico é cristão, ateu ou islâmico. Tem sido legal perceber a beleza da arte (o que direta ou indiretamente remete a Deus). Demorei a chegar a este ponto. Parabéns pela coragem de se expor e que você encontre boa música. Há muito ouro ainda por aí. Abraço!
Postado em 20/01/2008 às 01:02:15
 
Pedro Almeida | Ribeirão Preto - SP #3
Sou cristão e acompanho o Mark em sua opinião. A muito tempo a música sofre com a falta de expressão artistica. Trabalhei como produtor cultural e musical e somente em um evento dos que promovi consegui encaixar um grupo cristão de música (independente por sinal) por conta do nivel musical e poético dos mesmos. Eu, como produtor e dj, sou pesquisador e um garimpeiro musical de plantão e posso afirmar sobre a dificuldade de se achar boa música (a nivel artistico) no meio gospel. Não existe uma preocupação conceitual e artística nas produções. São lapidações de pedras de concreto. É pobre...
Postado em 29/01/2008 às 11:23:01
 
Pr. Ilton Carlos Santana | Medianeira - PR #4
Imagino que o sr. Maicon França deva ser rotulado de 'medíocre', enquanto que o sr. Souto seja chique ao orgulhosamente declarar que não ouve mais nada 'evangélico ou gospel'. O que os srs. fazem quando a coreografia não agrada? Vão para o carnaval ou para os bailes porque lá há dançarinas melhores? O texto do sr. Carpenter, salvo pela crítica justa, é um deserviço e desestímulo a milhares de homens que têm buscado servir a Deus como líderes de jovens e líderes de louvor. Mas a vocês, 'músicos'... o que importa é a 'boa' música, não importa de onde venha.
Postado em 06/03/2008 às 18:50:26
 
Kalil | Firenze - AC #5
Cara que legal... sempre me senti um E.T., pois sempre achei a 'música gospel' ruim pra caramba... Agora vejo que não estou sozinho... Outra coisa estranha da tal 'música' é que ela se diz voltada pros caras fora da igreja, mas na realidade quem a consome é o pessoal da igreja... fica engraçado ver o cara cantando aquelas rimazinhas ruins que o convida a aceitar Jesus... é preciso aceitar Jesus quantas vezes? Parabéns Mark+Ultimato!
Postado em 10/03/2008 às 08:17:33
 
Marcelo Ramos | Rio De Janeiro - RJ #6
Esta história de música cristã segmentada, de cultura cristã 'à parte' soa um tanto esquisita. Se você olha a história da cultura do homem e principalmente a história da música você vai ver que os grandes artistas foram aqueles que influenciaram não apenas igreja, mas todo um contexto (Bach, Beethoven, Reembrandt, Coltrane e por aí vai...). Imagina você escrever um livro e ele só vende em livraria evangélica... faz um cd e ele só vende em loja evangélica... é uma cultura muito exclusivista. Essa não é a proposta do evangelho. É preciso sair dos nossos 'bunkers'.
Postado em 12/05/2008 às 18:03:03
 
 
 
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