Mark Carpenter

Em janeiro de 2006 escrevi neste espaço sobre a qualidade lamentável da arte cristã. Recebi muitos e-mails de leitores igualmente incomodados com a baixa qualidade da música, arte plástica, poesia e outras expressões do meio evangélico. Alguns enviaram amostras que consideravam ser de categoria superior, e de fato me surpreendi com a qualidade de algumas delas.
Ultimamente tenho refletido a respeito dos critérios de avaliação da arte cristã. Devemos aplicar à arte cristã os mesmos padrões estéticos usados pela crítica secular? Há elementos inerentes à arte cristã que devem ser analisados usando-se outros critérios?
A W4 Editora está lançando o livro
Cristianismo Criativo?, do crítico inglês Steve Turner. O autor conclama a igreja a abrigar e a consumir arte cristã em todas as suas manifestações. Jornalista acostumado a entrevistar os maiores nomes da música popular, Turner acredita que poucos meios são mais eficazes para o evangelismo e para a agregação de cristãos. Lamenta que “uma compreensão cristã ainda está ausente tanto na arte comercial quanto nos campos experimentais... O jovem culto, na média, sente-se extremamente pressionado quando tem de citar um único roteirista, dramaturgo, coreógrafo, romancista, comediante ou pintor cristão contemporâneo, por mais que o cristianismo continue sendo a religião predominante tanto na Europa quanto nas Américas.” Turner revela uma predileção não pela qualidade estética da arte, mas pela sua capacidade de despertar emoções e ações daqueles que a contemplam. Essa dinâmica, posta a serviço da causa cristã, é uma força significativa num mundo cada vez mais voltado ao lazer e ao entretenimento.
Descobri outro livro surpreendente, lançado pela Piquant em 2005, intitulado
A Profound Weakness (“Uma fragilidade profunda”). Escrito pela professora de arte Betty Spackman, a obra é um estudo eloqüente sobre cristianismo e
kitsch (definido por Houaiss como arte “que se caracteriza pelo exagero sentimentalista, melodramático ou sensacionalista”). Spackman acredita que a maior parte da arte criada por cristãos é de baixíssimo padrão estético, mas nem por isto menos importante como expressão religiosa de um povo que busca retratar até mesmo o inexprimível em objetos, palavras e imagens que provocam ou reforçam reações tidas como espirituais. O livro é ilustrado com exemplos dos mais excessivos: há bonequinhos, marca-páginas, anjinhos e adesivos. A conclusão de Spackman é curiosamente neutra. Ela não condena quem produz nem quem consome tais objetos, mas observa que o
kitsch cristão quase sempre revela a ausência de uma compreensão bíblica sobre o que significa ser cristão.
As vozes de Turner e Spackman se entrecruzam exatamente neste
insight. Os critérios de avaliação não precisam ser estéticos, mas devem sempre ser bíblicos. Turner afirma: “o que a Bíblia nos fornece é, na verdade, mais substancial do que um minucioso manual. Ela apresenta doutrinas básicas que podem ser aplicadas a qualquer forma artística em qualquer época, e oferece o maravilhoso exemplar de si mesma”.
Os padrões de excelência da criação e da revelação de Deus constituem o exemplo para o artista cristão e tornam irrelevantes quaisquer outros critérios.
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Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP.