quinta-feira, 02.setembro.2010
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Seções — Pastorais
Registros inapagáveis
Jacó (ou Israel) teve filhos de suas quatro mulheres (Lia, Raquel, Bila e Zilpa). As duas últimas eram concubinas ou esposas secundárias. O filho mais velho chamava-se Rúben e nasceu de Lia. Pouco depois da morte de Raquel, a família morou por algum tempo num lugar próximo à torre de Éder. Ali, cerca de 1.800 antes de Cristo, Jacó teve um aborrecimento maior do que a recente viuvez. Ele ficou sabendo que o primogênito — o primeiro fruto do seu vigor e o mais orgulhoso e o mais forte de seus doze filhos homens (Gn 49.3) — havia se deitado com Bila, mãe de seus irmãos Dã e Naftali (Gn 35.21-22), embora ele tenha feito tudo às escondidas.

Anos mais tarde, quando Rúben já era casado e pai de quatro filhos (Gn 46.8-9), quando a família toda já tinha 17 anos de residência no Egito (Gn 47.28) e quando Jacó estava com 147 anos, o doloroso adultério de Rúben foi trazido à tona numa reunião de família, na véspera da morte do patriarca. As três esposas ainda vivas, os doze filhos homens, a filha Diná e os netos de Jacó — todos ouviram o discurso acusatório do marido, pai e avô: “[Rúben], você subiu à cama de seu pai, ao meu leito, e o desonrou” (Gn 49.4). A situação foi bastante constrangedora para todos os presentes, especialmente para Rúben (o faltoso), Lia (mãe do faltoso), Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zebulom (irmãos do faltoso) e Bila (a faltosa).
 
O mais impressionante é que o crime de Rúben saiu do âmbito familiar e foi para o grande público. Cerca de 1.300 anos depois do incidente, Esdras ou outro autor dos livros de Crônicas, escritos logo após a libertação dos exilados da Babilônia, no ano 538 a.C., registra o incesto: “[Rúben] de fato era o filho mais velho [de Israel], mas, por ter desonrado o leito de seu pai, seus direitos de filho mais velho foram dados aos filhos de José” (1 Cr 5.1). 

Essa passagem bíblica no meio de muitas genealogias aparentemente desinteressantes, é muito edificante. O texto mostra que não é possível esconder para sempre e com absoluta segurança o que se faz em oculto. Mostra também que um pecado pode ser de fato perdoado por Deus, mas isso não significa que ele sai do currículo e da história do pecador. Moisés foi perdoado, Davi foi perdoado, Pedro foi perdoado. Todavia todo mundo sabe que Moisés matou o egípcio (Êx 2.11-15), que Davi adulterou com Bate-Seba (2 Sm 11.1-5) e que Pedro negou três vezes o Senhor Jesus (Mt 26.69-75). 

O pecado confessado é riscado da memória divina e a certeza do perdão deve riscá-lo da memória do pecador. Porém, nem sempre o pecado é riscado da memória coletiva, da memória histórica. Os registros são inapagáveis!
 
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