terça-feira, 09.fevereiro.2010
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Capa — O sucesso de Edir Macedo e a pergunta que fica no ar
O que Edir Macedo diz e o que a Bíblia diz sobre os dízimos e ofertas
   Nesta matéria:
O sucesso de Edir Macedo e a pergunta que fica no ar
As boas novas de Edir Macedo e da teologia da prosperidade
Duas atitudes inacreditáveis: a pregação interesseira e a magnanimidade de Paulo
O que Edir Macedo diz e o que a Bíblia diz sobre riqueza e pobreza
O que Edir Macedo diz e o que a Bíblia diz sobre os dízimos e ofertas
O que Edir Macedo diz e o que a Bíblia diz sobre o aborto
Hananias, o mago da prosperidade
O que Edir Macedo diz e o que a Bíblia diz sobre cura
Valdeci da Silva Santos

Edir Macedo diz:
“As pessoas não devem dar ofertas para ajudar a igreja, mas para ajudar a si próprias. Quando dá está fazendo um investimento para si, na sua vida. É o que mostra a Bíblia. Quem dá tudo recebe tudo de Deus. É inevitável. É toma lá, dá cá [...]. Quando alguém faz um sacrifício financeiro, Deus fica sem opção. Ele tem a obrigação de responder, porque é sua promessa. É a fé. Basta seguir o que Deus disse: ‘Provai-me nos dízimos e nas ofertas’” (“O Bispo”, 2007, p. 207, 215).

A Bíblia diz:
A entrega de dízimos, ofertas e outras formas de contribuições financeiras é uma prática comum entre as igrejas cristãs ao longo dos anos. O dinheiro não é o assunto mais importante da vida cristã, mas a maneira como o crente lida com ele determina sua resposta em outras questões da vida (Lc 16.10-12). O cristão amadurecido não se deixará escravizar pela avareza e pelo apego ao dinheiro a ponto de ser mesquinho em seu compromisso com a igreja. Ao mesmo tempo, esse cristão não se deixará iludir pela presunção de que seu relacionamento com Deus é pautado pela barganha, pois as bênçãos de Deus não são negociadas. 

No Antigo Testamento, a entrega do dízimo baseava-se na convicção teológica de que o Senhor é o dono de toda a terra, o doador e o preservador da vida (Sl 24). O dízimo era santo ao Senhor e sua entrega seria uma demonstração prática do reconhecimento da soberania de Deus sobre a terra, seus frutos e a própria vida do ofertante. Ao mesmo tempo, a entrega dos dízimos era a expressão prática da gratidão a Deus por suas bênçãos e generosidade para com a nação israelita. Logo, aquele ato tinha significado cúltico e ocorria em cerimônias acompanhadas de intensa celebração e adoração a Deus (Dt 12.5-19). A retenção do dízimo, porém, não estava sujeita às mesmas penalidades legais provenientes da desobediência civil da lei, como exclusão social e apedrejamento. A infidelidade do povo seria disciplinada por Deus por meio de catástrofes sociais e econômicas. 

Há que se notar ainda que a entrega dos dízimos era tão central à vida da nação de Israel que Neemias a restituiu tão logo o povo foi liberto do cativeiro babilônico (Ne 13.10-14). A desobediência dessa prática, de acordo com o profeta Malaquias, equivalia ao pecado de roubar a Deus (Ml 3.6-12). 

Além dos dízimos, a lei mosaica prescrevia outros tipos de contribuições, como era o caso das ofertas das primícias e das ofertas alçadas (Êx 23.16, 19; 34.22-26). Essas ofertas deveriam atender ao princípio da proporcionalidade, pois eram dadas segundo a bênção do Senhor sobre os ofertantes (Dt 16.10). Segundo as normas para essas contribuições, as ofertas das primícias eram especialmente apresentadas durante a Festa das Semanas, também chamada de Pentecoste ou Festa das Primícias, por ser realizada cerca de cinqüenta dias após a Páscoa e por coincidir com os primeiros frutos da colheita anual em Israel (Nm 28.26). Parte dessas ofertas era dedicada ao sustento do pobre, do órfão e da viúva; outra parte, à realização de uma ceia comum; e ainda uma terceira parte destinava-se ao sustento dos sacerdotes. Enquanto o dízimo era anual e trienal, as ofertas poderiam ser entregues em várias ocasiões do ano, especialmente na época das colheitas ou eventos festivos. Tanto os dízimos como as ofertas eram entregues em reconhecimento da soberania e generosidade de Deus para com a nação de Israel (Dt 26.1s). 

É verdade que o Novo Testamento não apresenta diretrizes claras sobre a entrega do dízimo pelos cristãos e esse fator é, no mínimo, surpreendente. Há três referências ao dízimo nos Evangelhos, e elas devem ser analisadas em seus contextos respectivos. A primeira encontra-se na parábola do fariseu e o publicano, na qual o fariseu se orgulhava de entregar o dízimo de tudo quanto ganhava (Lc 18.9-14). Ao contar essa parábola o propósito de Jesus foi condenar a atitude daqueles que “confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (v.9). Dessa forma, o que foi condenado na parábola não foi a prática da entrega do dízimo, mas o fato de o fariseu depender de sua justiça própria em vez de apelar para a graça e misericórdia de Deus. 

A segunda referência ao dízimo nos Evangelhos está em Mateus 23.23 ou no texto paralelo de Lucas 11.42. Nesses versículos Jesus também faz referência a uma prática comum dos escribas e fariseus, que pareciam extremamente zelosos quanto à obediência dos aspectos mínimos da lei (dar o dízimo da arruda e do cominho), mas negligenciavam a prática da misericórdia, da justiça e da fé. Jesus os reprovou dizendo que deveriam “fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” Na verdade, Jesus não censura os fariseus por darem o dízimo, mas por julgarem que o dízimo substituía a base real de seu relacionamento com Deus. Jesus condenou os fariseus e escribas por sua hipocrisia, e não pela prática da entrega dos dízimos. 

O Novo Testamento é repleto de diretrizes a respeito das contribuições financeiras na igreja primitiva. Em primeiro lugar, há o registro de contribuições com o objetivo de auxiliar os necessitados na igreja. Em Atos há vários relatos sobre o compartilhamento de posses com o objetivo de atender aos necessitados na igreja (At 2.45; 4.34, 36-37). A primeira eleição de diáconos teve o propósito de promover certa assistência material a alguns menos favorecidos (At 6.1-6). A prática de cuidar dos necessitados tornou-se comum entre os cristãos a ponto de Paulo exortar os membros de uma igreja gentílica, Éfeso, a trabalharem para terem “com que acudir ao necessitado” (Ef 4.28). Assim, a igreja primitiva incentivava contribuição para auxílio dos seus membros. 

A prática sistemática da contribuição financeira no cristianismo primitivo que mais se aproxima da entrega do dízimo é aquela descrita como uma coleta a favor dos santos (1Co 16.1-3; 2Co 8-9). É importante observar que alguns cristãos receberam a exortação de Paulo com alegria e interpretaram a contribuição como um privilégio (2Co 8.4). Aquela coleta foi incluída na liturgia da igreja de Corinto (1Co 16.1-2) e deveria ser interpretada como uma expressão de generosidade, gratidão e adoração a Deus (2Co 9.10-13). Em outra ocasião, Paulo insistiu que aquela prática fosse interpretada como um ato de obediência ao evangelho de Cristo (2Co 9.13). Deve-se considerar o aspecto sistemático e o planejamento envolvido naquela coleta, a ponto de Paulo afirmar que a igreja de Corinto estava preparada havia um ano para fazê-la (1Co 16.1,2; 2Co 9.1-2). Por último, aquela contribuição seria proporcional, conforme a prosperidade do contribuinte (1Co 16.2). Dessa forma, todos os cristãos contribuiriam de forma igual, não em valor, mas no percentual. 

Concluindo, a perspectiva do bispo Macedo sobre contribuições cristãs contraria o ensino das Escrituras sobre esse assunto. Segundo a Bíblia, o objetivo da contribuição do crente não é para ajudar a ele mesmo, mas para expressar sua gratidão a Deus, bem como o reconhecimento de que todo o seu sustento vem do Senhor. Sua interpretação de que o texto de Malaquias 3.10 — “provai-me nos dízimos e nas ofertas” — seja uma promessa que deixa Deus sem opção se parece mais com a doutrina espírita da “causa” e “efeito”. Somente o entendimento espírita do “toma lá, dá cá” justificaria semelhante interpretação. A contribuição cristã deve ainda ter o objetivo de ajudar os irmãos na fé, e neste sentido a igreja é fortalecida. Por último, a perspectiva bíblica sobre contribuição não tem a natureza comercial que o bispo defende. O Deus que se revela nas Escrituras nunca pode ficar refém do contribuinte, pois este não lhe faz favor algum. 


Valdeci da Silva Santos é pastor da Igreja Evangélica Suíça e professor no Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper, em São Paulo.
 
Opinião do leitordeixe seu comentário
 
Wellington Luiz De Marchi | Campo Grande - MS #1
Sensacional. Pena que nem todos tenham capacidade de (re)pensar sobre o assunto.
Postado em 30/07/2008 às 10:52:44
 
Jozenildo Paulino De Lima | Campina Grande - PB #2
Parabéns pela opinião destemida da revista a respeito de um tema tão 'escanteado' pelos pastores de igrejas brasileiras. Não é justo que a maioria das igrejas sejam, de forma pejorativa, chamadas de mercadoras da fé por causa de atitudes inescrupulosas de certos 'líderes' espirituais. Continuem imparciais, intrépidos e, melhor, do lado de Deus.
Postado em 14/08/2008 às 23:16:52
 
Mhario@globo.com | Curitiba - PR #3
Estou parabenizando toda a equipe de nossa parceira, a revista Ultimato pela matéria esclarecedora sobre Edir Macedo. Por isso estamos reproduzindo parte dela em nosso portal Mhário Lincoln do Brasil (www.mhariolincoln.jor.br). Acessem e confiram. Obrigado.
Postado em 22/08/2008 às 20:38:38
 
Sandra Maria Jorge | Londrina - PR #4
A revista aborda com coragem e embasamento bíblico sobre os dízimos e sua prática correta. É lamentável que muitas pessoas não conseguem ver a verdade explícita na Palavra de Deus. Deus não deve nada a ninguém, e Ele faz o que Ele quer fazer, temos apenas que obedecer e segui-lo. As bençãos são consequência. E o 'troca-troca' com Deus é totalmente contrário à soberana vontade do Senhor.
Postado em 28/08/2008 às 16:04:25
 
Carlos Antunes Castro Da Silva | São Luís - MA #5
Muito boa a abordagem do pr. Valdeci. Mas gostaria que o sr. falasse também do aspecto da Nação Teocrática com referência ao dízimo, e se dentro do nosso contexto de descontos para os cofres da união isso tem alguma similaridade. Outro ponto que gostaria que falasse é sobre a utilização do dízimo pelas igrejas, já que mencionou a assistência ao pobre, orfão e a viúva. Não seria o caso as igrejas investirem em abrigos para os pobres, orfanatos e amparar as viúvas? Por fim gostaria que falasse do dízimo no VT como forma de alimento e compartilhar este alimento com a congregação.
Postado em 10/09/2008 às 12:29:37
 
Arnaldo Germanio | São Paulo - SP #6
Absurdo! Imagine "Deus ter a obrigação de fazer algo" ou "Deus ficar sem opção", é o mesmo que dizer que o Criador depende da criação! Esse, definitivamente não é o Deus das Escrituras Sagradas, o Deus que Criou todas as coisas! Quando Jó se sentiu no direito de resposta pelas suas provações, recebeu como resposta o Oratório da Criação, e entendeu tanto a Soberania do Senhor, como a falibilidade humana, e assim ele concluiu no cap. 42:2 "..Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido.."
Postado em 13/12/2008 às 23:06:15
 
Alexandre Magno Aquino Duarte | Sobradinho - DF #7
Tenho lido com muito prazer muitos artigos do espaço palavra do leitor, em especial leio o que Marcos Alexandre escreve, tem um tom pessoal e amigo. É, às vezes quase uma conversa, de fácil digestão e rica. Rica de significado, apropriada, é o que o Santo Livro chama de conversa para edificação.
Tenho aproveitado cada porção de sabedoria e inspiração destes textos, permaneça o Senhor, bondosamente a abençoa-lo nos seus escritos.
Postado em 22/01/2009 às 17:44:18
 
Flavia Cedro Vieira | Belo Horizonte - MG #8
Paabéns a ultimato,e também ao Pastor Veldeci.
Abordou a questão biblicamente, expos a correção e não denegriu a imagem de Edir Macedo, que já tem o feito por si mesmo.
Postado em 28/05/2009 às 13:57:08
 
Lucila Ramires | Foz Do Iguaçu - PR #9
Gente eu só queria saber mais a respeito de Dízimos... e o que vejo? um campo de batalha medonho, cuja artilharia está apontada para Edir Macedo. E uma torre de babel onde cada um tenta se fazer ouvir mais que o outro. Não é assim que eu gostaria de ver a casa do Deus Vivo que eu sirvo.
Lamento muito por mim e por quem como eu procura as coisas que são boas, puras e limpas.
grata
Postado em 11/11/2009 às 17:08:48
 
Cezar A Z Lopes | Corupá - SC #10
Sobre o dízimo, na Assembléia de Deus Missões de Corupá, é uma obrigação. Quem não dizimar ao pr João será advertido e se persistir será disciplinado. Ali é Lei e não ato de amor. RR Soares sugere em dizimar o bruto e se não o fizer seria ladrão e ladrões irão ao inferno.Pastor que conheço não investe no necessitado e no social. Dizimo é para o pastor e obras materiais, de tijolos. Os irmãos geralmente sonegam o valor do dízimo. Na IEQ e na IMPD dízimo é doutrina. Hoje, se não dizimar estarei contra a igreja. Dízimo é mensalidade de igreja de Jesus. É o que vejo.
Postado em 20/12/2009 às 13:52:25
 
 
 
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