quinta-feira, 02.setembro.2010
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Colunas — O caminho do coração
Intimidade e libertação
Ricardo Barbosa de Sousa

Fala-se muito hoje em dia sobre intimidade. É a palavra da moda. Todos querem ser íntimos de Deus, do cônjuge, da namorada ou do amigo. Os programas de televisão e de rádio de maior audiência são aqueles que expõem a intimidade dos outros. As revistas de maior vendagem são aquelas que fofocam e comentam a intimidade de pessoas famosas. É comum ouvir nas ruas comentários sobre a vida íntima das celebridades, sobre suas casas, plásticas e relacionamentos, como se fossem velhas conhecidas. O sucesso do Big Brother está exatamente em expor a intimidade dos outros. Casais expõem-se na televisão. Todos querem mostrar o que são e o que pensam. Querem mostrar o corpo e a alma. Vivemos a era de Narciso.

Nas igrejas não é diferente. Boa parte das músicas que cantamos buscam promover uma adoração mais intimista. Cantamos essas músicas com um tom de voz bem diferente daquele que marcou os cânticos de guerra com suas melodias marciais. É preciso “sentir” a presença de Deus, repetir estrofes até que provoquem algum tipo de êxtase. Nas orações predominam os pronomes da primeira pessoa: meu, para mim. Tenho a impressão de que o conceito de intimidade vem adquirindo, cada vez mais, uma forte conotação sexual e intimista. Imagino que o “ficar”, no relacionamento avulso dos jovens e adolescentes pós-modernos, seja o comportamento que melhor descreve o significado de intimidade hoje. Algo passageiro, descomprometido, impessoal, intenso, egoísta e prazeroso. Certa vez ouvi alguém dizer que quando louva a Deus é como se estivesse “dançando com o rosto coladinho em Jesus”.

Estou casado há 28 anos e considero que minha esposa e eu conquistamos um razoável nível de intimidade, ao longo desse anos. Contudo, não consigo imaginar como seria nossa vida se vivêssemos o tempo todo trancados num quarto, trocando declarações apaixonadas, num êxtase interminável. Certamente não suportaríamos isso por muito tempo. A nossa intimidade envolve nossas diferenças e conflitos, longas conversas seguidas de silêncio. Envolve nossos filhos e amigos, alegrias e tristezas, sofrimentos e esperanças. Envolve responsabilidades e rotinas, trabalho e contas para pagar. É uma intimidade que tem seus momentos reservados, é claro, mas a maior parte do tempo ela é experimentada e vivida publicamente.
 
Tenho me preocupado com o modelo de espiritualidade intimista que vem sendo proposto, que, de certa forma, é uma versão religiosa do individualismo narcisista da cultura pós-moderna, uma versão religiosa do “ficar”. Ficamos com Deus em alguns momentos no culto, mas o que acontece antes ou depois dele não tem nada a ver com a intimidade. Ela só existe naquele momento, com aquelas sensações. É um modelo de intimidade e espiritualidade que não contempla a riqueza dinâmica da vida da fé. Seguir a Cristo no caminho do discipulado nos envolve numa espiritualidade cuja intimidade se dá num processo dinâmico de relacionamento, em que a confissão “Aba-Pai” acontece ao lado da confissão “Kyrios-Cristo”. Ambas dão o equilíbrio necessário a uma espiritualidade que é integral e pessoal, pública e privada, missionária e contemplativa.

A intimidade que Cristo nos propõe acontece num caminho e envolve todas as estações da vida. Ele nos chama para orar, mas também para lavar os pés uns dos outros. Ele nos chama para viver numa comunhão amorosa e segura com o Pai, mas também para confrontar os poderes que aprisionam e oprimem o ser humano. Ele nos chama para o silêncio e solitude, mas também para a proclamação profética e libertadora. É uma espiritualidade que precisa estar presente na economia e na política, na igreja e no quarto. O intimismo intoxica, a intimidade liberta. O intimismo é narcisista e exclusivista, a intimidade é pessoal e comunitária. A imitação de Cristo é o caminho mais seguro para uma intimidade libertadora.


Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de Janelas para a Vida e O Caminho do Coração.
 
Opinião do leitordeixe seu comentário
 
Cleuber Alves Dos Santos | Rio De Janeiro - RJ #1
Há muitos freqüentadores de cultos interessados apenas em dar pirulitos para a alma. O pirulito acaba e eles sempre voltam. Eu falo de uma liturgia de culto preparada para ser apenas terapia, onde o alvo são os hipoglicêmicos e não o Deus da Glória. Há muitas igrejas se tornando fábricas de pirulitos. Para chegarmos à verdadeira intimidade com Deus, precisamos querer também o cálice amargo. Que Deus conduza a sua igreja a uma intimidade verdadeira.
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Pr. Daniel Dutra | Cuiabá - MT #2
Eu admiro muito o pr. Ricardo Barbosa e os seus artigos. Mas nesse caso, acho que devemos sim buscar um intimidade com Deus através das canções que cantamos na igreja. Sei, como teólogo e pastor, dos perigos que corremos, mas creio que Deus tem muito para dar para aqueles que desejam ser verdadeiros adoradores. Eu estou nessa procura, dia após dia. Sei que existem "aberrações" rolando por aí, mas só vamos chegar à plenitude da vida se nos abrirmos para o que Deus tem de novo para nós. "Cantai ao Senhor um cântico novo".
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Pr. Antônio Dos Passos Pereira Amaral | Belo Horizonte - MG #3
Excelente artigo! O que temos hoje na maioria das igrejas no Brasil é uma adoração centrada na satisfação humana e não na glória de Cristo, que deve ser o centro do nosso culto. Todos nós corremos o risco de buscar intimidade pela intimidade em si - porque provoca sensações boas e bem-estar - e não por causa de Cristo mesmo. Pr. Ricardo Barbosa, como sempre nos seus escritos, tem dado excelentes contribuições para a formação de uma mentalidade cristã sadia e coerente com a verdade bíblica.
Postado em 11/07/2007 às 14:27:23
 
 
 
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